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Home Colunas

DEDOS NERVOSOS EM QUARENTENA

Por Nilson Lattari
3 de julho de 2020 - 08:05
em Colunas

Foto: Rob Hampson/Unsplash

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No Brasil e no resto do mundo, por que não, há uma discussão sobre as fake news, quase colocadas no mesmo nível de um ser autônomo, pensante (?), que parecem agir por si mesmas. Aliando-se às pessoas enclausuradas, a internet, que poderia vir a ser um ponto de referência para aprendizados, é o canal onde elas se propagam. Fico imaginando que, aprendendo a utilizar o zap, a compartilhar, por falta de bom senso ou não, os dedos ficam nervosos no apertar frenético do botão. No meio da quarentena, diante do vidro iluminado, lembro das palavras da minha avó: “Mente desocupada, residência do diabo”.

Alguns perfis que eu conheço de nível intelectual, supostamente, alto, compartilham coisas escabrosas que, temo em dizer, não é mais sinal de ignorância, é falta de caráter mesmo. Alguns podem dizer que ridicularizar o adversário com mentiras faz parte processo. E eu digo, então, que o humor, muitas vezes, esconde mais perversidades do que ironias. 

Até porque, nos tempos de hoje, o hábito de copiar colar já entrou no nível acadêmico, onde a profusão de desejos por doutorados já se transforma em realidade, o currículo vitae se torna uma fábrica de… sim, fake news. E eu penso que essa propagação de coisas mentirosas, ditas com a maior desfaçatez, contamina os próprios artigos que deveriam ser fontes para estudos sérios. Enfim, o mundo se tornará em breve uma imensa fake news e, quem sabe, pegaremos o ônibus universal, paramos o mundo e façamos de conta que nada disso existiu.

A humanidade, dentro do espaço virtual, poderia ser dividida entre aqueles que clicam em qualquer coisa que satisfaça sua insanidade e a outra que tenta se manter distante, sufocando aquela imensa vontade de dar o troco, mostrando a verdade dos fatos, quando o outro lado sabe disso e pouco se interessa com ela.

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Quando vi uma mensagem muito rápida dizendo “se eu não posso mudar você, eu me mudo de você” acho que sintetiza o que devemos fazer, realmente: mudar de amizades, se isolar da doença que age lá fora e daquela que age perto de nós, via web (atacar ou ler passivamente nos torna doentes também). Conservar a sanidade no meio da insanidade é uma verdadeira prova de fogo. A impressão é que vivemos em um mundo que desejaríamos dividir ao meio, ou ir para um outro planeta e levar aqueles que pensam como, ou mesmo diferente, mas que tenham um mesmo pensamento humano em comum, viver e discutir a realidade.

No entanto, revendo a História, alguns países que se dividiram em Norte e Sul, Leste e Oeste, vivem, supostamente, separados, mas se alimentam brigando através do muro que construíram.

Podemos construir muros que dividam pensamentos, mas fica aquele sentimento de que a barbárie está do outro lado, e o outro lado guarda aquele sentimento de que precisa continuar atacando para poder se alimentar. Seria possível dizer “Tá legal, você tem razão, mas dá para me esquecer?” Já experimentei e não consegui, a gente não esquece. Manter a sanidade em mundo insano é uma prova de fogo. Ainda mais sabendo que os dedos continuam nervosos, não satisfeitos em satisfazer a própria insanidade, precisam saber que incomodam, para alimentar a insanidade de um mundo zumbi.

A nave Voyager fotografou a Terra de uma distância jamais vista. Um pequeno ponto azul perdido e vagando no espaço. E se ela fosse uma nave alienígena que deduzisse que haveria vida inteligente ali, e se perguntasse: “Vamos até lá, ver o que aquele pessoal pensa!”?

Nilson Lattari

Nilson Lattari

Crônicas e Contos. NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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