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De R$ 1 milhão a R$ 4,4 milhões: como Alexandre Pires entrou na investigação do garimpo Yanomami

Cantor volta a ser alvo da PF quase três anos após primeira operação; investigação aponta que empresa do artista recebeu R$ 4,4 milhões de contas ligadas ao esquema de cassiterita e apura fraude internacional de US$ 48 milhões

Por Redação
23 de setembro de 2026 - 11:49
em Brasil
De R$ 1 milhão a R$ 4,4 milhões: como Alexandre Pires entrou na investigação do garimpo Yanomami

ALEXANDRE PIRES / DIVULGAÇÃO

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Quase três anos depois de aparecer pela primeira vez em uma investigação sobre cassiterita extraída ilegalmente da Terra Indígena Yanomami, o cantor Alexandre Pires voltou a ser alvo da Polícia Federal nesta quarta-feira (23). A nova fase da Operação Disco de Ouro amplia o caminho do dinheiro investigado e coloca o artista e uma de suas empresas no chamado Núcleo Financeiro da organização sob investigação.

A PF cumpriu mandados em uma residência e na produtora musical de Pires, em Uberlândia (MG), em busca de documentos, mídias e bens. Também foram alvos os empresários Diego e Matheus Possebon, este último ex-empresário do cantor.

Ao todo, a Operação Disco de Ouro II cumpre 12 mandados de busca e apreensão e 17 ordens de sequestro de bens e valores, expedidos pela 4ª Vara Federal de Boa Vista. Não foram expedidos mandados de prisão nesta fase.

A investigação aponta agora que uma empresa de Alexandre Pires recebeu R$ 4.434.050 de contas relacionadas ao esquema. A PF apura se o cantor e sua estrutura empresarial foram utilizados para fracionar, ocultar e dissimular recursos provenientes das operações investigadas. O fluxo financeiro cruzado identificado chega a R$ 31.035.050.

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Tudo começou com 30 toneladas de cassiterita

Para entender como o nome de Alexandre Pires chegou à investigação é necessário voltar a janeiro de 2022.

Naquele momento, a Polícia Federal apreendeu aproximadamente 30 toneladas de cassiterita que, segundo a investigação, haviam sido retiradas ilegalmente da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. O material estava na sede de uma empresa investigada e seria preparado para exportação.

A cassiterita é a principal matéria-prima para obtenção do estanho, metal utilizado na fabricação de componentes eletrônicos, celulares, computadores, peças automotivas e diversos produtos industriais. O minério é conhecido como “ouro negro” devido ao seu valor comercial.

A investigação começou a reconstruir a cadeia utilizada para retirar o minério da área indígena e inseri-lo legalmente no mercado.

Segundo a PF, a organização utilizava licenças de lavra garimpeira existentes em Itaituba, no Pará, para fazer parecer que a cassiterita havia sido extraída legalmente naquela região e posteriormente transportada até Roraima para tratamento.

Para os investigadores, esse percurso ocorria apenas documentalmente. A cassiterita teria sido retirada do próprio território de Roraima, inclusive da Terra Indígena Yanomami.

Ao seguir o dinheiro e a estrutura logística, a PF encontrou uma rede que incluía mineradoras, pilotos de aeronaves, postos de combustíveis, fornecedores de máquinas e equipamentos e pessoas utilizadas para movimentar recursos.

Foi nesse rastreamento financeiro que o nome de Alexandre Pires apareceu.

R$ 1 milhão levou investigação até Alexandre Pires

A primeira grande ofensiva ocorreu em 4 de dezembro de 2023, com a Operação Disco de Ouro.

Naquela época, a investigação apurava um esquema que teria movimentado aproximadamente R$ 250 milhões com a exploração e comercialização ilegal de cassiterita.

A PF identificou pagamentos relacionados a uma mineradora investigada que chegaram a Alexandre Pires. O valor inicialmente divulgado era de aproximadamente R$ 1 milhão.

Os investigadores também identificaram R$ 375 mil depositados na conta pessoal do cantor, além de uma transferência de R$ 160 mil realizada por uma empresa de Pires para outro investigado.

Foi essa movimentação financeira que colocou o cantor no centro da investigação.

Policiais federais cumpriram mandados no apartamento do artista em Itapema, Santa Catarina, e chegaram ao navio de cruzeiro onde ele realizava apresentações no litoral paulista. O telefone celular do cantor foi apreendido.

Na primeira fase, a Justiça também determinou o sequestro de mais de R$ 130 milhões em bens dos investigados.

Empresário do cantor foi preso

A relação da investigação com o meio artístico passava principalmente por Matheus Possebon, que administrava a carreira de Alexandre Pires.

Possebon foi preso durante a primeira fase da Disco de Ouro. Para a PF, ele aparecia no núcleo financeiro da organização investigada.

Uma transferência de R$ 1,7 milhão, feita por uma das empresas investigadas para Possebon, foi um dos elementos que o colocaram no centro da apuração.

Ele posteriormente conseguiu habeas corpus e passou a responder em liberdade. Em maio de 2024, a Terceira Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região confirmou por unanimidade a decisão que havia substituído sua prisão preventiva por medidas menos gravosas.

A parceria profissional entre Possebon e Alexandre Pires terminou após o avanço da investigação.

Investigação cresceu e chegou a mais de 100 toneladas

Nos anos seguintes, a apuração avançou sobre a cadeia do minério.

A nova investigação relata que operações realizadas em Roraima resultaram na apreensão de mais de 100 toneladas de cassiterita considerada ilegal, além de aproximadamente um quilo de ouro na sede de uma empresa fornecedora.

O problema criado pela apreensão teria levado a organização investigada a uma nova etapa do esquema.

Segundo a PF, o grupo havia firmado um contrato internacional para fornecimento do minério a uma empresa suíça e recebia pagamentos antecipados. Com a cassiterita apreendida, teria ficado sem material suficiente para cumprir o contrato.

A solução investigada pela polícia teria sido uma fraude de grandes proporções.

Areia e brita no lugar de cassiterita

A PF afirma que integrantes do grupo montaram uma encenação em armazéns de Manaus para demonstrar que possuíam minério disponível para exportação.

No lugar da cassiterita, porém, teriam sido utilizadas areia e pó de brita, acompanhados de laudos químicos falsificados para simular que o material possuía as características previstas no contrato.

Parte das cargas destinadas ao exterior teria sido substituída pelo material sem valor comercial.

A fraude relacionada às operações internacionais teria causado prejuízo estimado em US$ 48 milhões.

A investigação passou então da origem ilegal da cassiterita para uma estrutura que envolveria também fraude documental, operações financeiras internacionais e lavagem de dinheiro.

Dinheiro teria passado pelo exterior antes de voltar ao Brasil

Segundo a PF, recursos foram enviados ao exterior e posteriormente redistribuídos por meio de operações internacionais, contas de terceiros, contratos considerados fictícios e mecanismos informais de compensação financeira.

Um deles seria o chamado dólar-cabo, sistema utilizado para transferir recursos entre países sem que o dinheiro necessariamente percorra o sistema bancário convencional da mesma forma que uma remessa internacional tradicional.

O dinheiro teria sido pulverizado entre familiares, empresas, conhecidos e intermediários para dificultar a identificação de sua origem e destino.

A investigação calcula que a movimentação e ocultação de recursos nessa estrutura ultrapassem US$ 48 milhões — aproximadamente R$ 246 milhões.

Nova fase eleva valores relacionados à empresa de Alexandre Pires

É nesse ponto que a investigação chega novamente ao cantor.

Se em 2023 Alexandre Pires havia entrado no caso principalmente pelos aproximadamente R$ 1 milhão identificados nas primeiras movimentações, a nova fase apresenta um volume significativamente maior.

Segundo a investigação divulgada nesta quarta-feira, a empresa de Alexandre Pires recebeu R$ 4.434.050 de contas vinculadas ao esquema.

Além disso, o cruzamento das movimentações relacionadas ao núcleo financeiro identificado pela investigação alcança R$ 31.035.050.

A PF investiga se Pires e sua empresa foram utilizados para fracionar, ocultar e dissimular valores provenientes das operações envolvendo a comercialização da cassiterita.

Diego Possebon é apontado nesta etapa como operador central e líder da organização investigada. Matheus Possebon, irmão de Diego e ex-empresário de Alexandre, também voltou a ser alvo das buscas.

PF volta a Uberlândia

As buscas desta quarta-feira alcançaram uma casa e a produtora musical de Alexandre Pires em Uberlândia, no Triângulo Mineiro.

Os agentes procuram mídias eletrônicas, documentos, registros financeiros e bens que possam ajudar a esclarecer o caminho dos recursos.

As medidas judiciais também atingiram endereços relacionados aos irmãos Possebon no Rio Grande do Sul.

Os investigados poderão responder, conforme a participação que eventualmente seja comprovada, por crimes como lavagem de capitais, organização criminosa, falsidade ideológica e operação irregular de instituição financeira, além de outras infrações que possam surgir durante a investigação.

O que diz Alexandre Pires

Desde a primeira operação, Alexandre Pires nega participação em atividades ilegais.

Em 2023, a Opus Entretenimento, então responsável pela gestão de sua carreira, afirmou desconhecer qualquer atividade ilegal relacionada a colaboradores ou parceiros e declarou confiar na idoneidade do cantor e no esclarecimento dos fatos.

Na ocasião, a defesa do artista afirmou que ele havia sido surpreendido pela operação e negou que tivesse cometido ilícitos relacionados ao garimpo ou à comercialização de minério.

Até a última atualização das informações divulgadas nesta quarta-feira, a defesa de Alexandre Pires ainda não havia apresentado uma nova manifestação pública específica sobre os elementos revelados na Operação Disco de Ouro II.

A nova etapa deverá agora tentar esclarecer por que R$ 4,43 milhões provenientes de contas relacionadas ao esquema chegaram à empresa do cantor, qual seria a natureza econômica dessas operações e se Alexandre Pires tinha conhecimento da origem dos recursos — pontos centrais para determinar eventual responsabilidade criminal.

Tags: Alexandre PirescassiteritaDiego Possebongarimpo ilegallavagem de dinheiroMatheus PossebonmineraçãoOperação Disco de OuroPolícia FederalRoraimaTerra YanomamiUberlândia
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