Preso desde maio nas investigações envolvendo o Banco Master, o pastor e empresário Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, escreveu uma carta aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) na qual se declara inocente e tenta estabelecer uma separação entre seus negócios e os do filho.
No documento, datado de 21 de setembro e endereçado ao ministro André Mendonça, com cópia aos demais integrantes do Supremo, Henrique pede a revogação da prisão preventiva e afirma que não participava dos negócios de Daniel nem das atividades do Banco Master.
“Daniel não tratava nada de Banco ou de negócios dele comigo, até me rejeitava. Talvez eu seja a pessoa que ele menos falava de seus negócios”, escreveu.
Henrique afirma que Daniel trabalhou com ele dos 15 aos 33 anos, antes de decidir seguir carreira própria. Segundo o pastor, a relação entre os dois permaneceu boa no âmbito familiar, mas o afastamento ocorria quando o assunto eram os negócios.
“Minha relação com Daniel de pai e filho é boa, eu o amo muito, muito, muito”, afirma. Em outro trecho, diz que era uma pessoa “totalmente não bem-vinda no Banco ou em qualquer coisa do Daniel” e que sofria com a situação.
O pai do ex-banqueiro também afirma que Fabiano Zettel, cunhado e parceiro de negócios de Daniel, não discutia assuntos comerciais com ele.
“Não queiram me arrastar para dentro disso”
Na carta, Henrique contesta diretamente as conclusões da Polícia Federal sobre sua participação no esquema investigado.
“Até entendo os holofotes sobre o Caso Master, mas não queiram me arrastar para dentro disso só porque eu sou pai do Daniel”, escreveu.
O empresário afirma possuir negócios próprios e diz que suas atividades são legítimas.
Henrique também nega a acusação de que teria atuado como mandante ou participante de um grupo utilizado para obter informações sigilosas e atender a interesses da família Vorcaro.
Na abertura da carta, declarou falar “a verdade, nada além da verdade, em nome de Deus e da justiça, sob pena de perjúrio”.
PF aponta pagamentos de R$ 400 mil
A versão apresentada por Henrique se contrapõe ao que consta no relatório da Polícia Federal.
Segundo a investigação, ele fazia pagamentos mensais de R$ 400 mil ao policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado pela PF como responsável por organizar uma estrutura de obtenção de informações sigilosas dentro da corporação.
O grupo era chamado nas conversas de “A Turma”.
Mensagens analisadas pela PF mostram que, em janeiro, Roseno cobrou Henrique após atraso nos pagamentos. O pai de Daniel respondeu que enviaria “imediatamente 400”.
Em outra conversa registrada pelos investigadores, Henrique afirmou: “No momento que estou é que preciso de vocês”. Roseno respondeu: “Nos ajude para podermos lhe ajudar, mestre”.
A PF sustenta ainda que integrantes do grupo acessaram sistemas internos da corporação para consultar investigações de interesse da família Vorcaro. Parte das informações teria chegado a Daniel.
Henrique apresenta outra versão para os pagamentos e contatos. Na carta, afirma que mantinha relações comerciais havia anos com pessoas citadas na investigação e que as negociações envolviam terrenos e empreendimentos imobiliários.
“Nunca tive ideia do que esse rapaz fazia ou deixava de fazer, com turma ou sei lá quem”, escreveu ao se referir a Marilson.
Ele também nega ter tentado ocultar provas e afirma que utiliza os mesmos números de telefone há cerca de 30 anos.
Pedido para deixar a prisão
Henrique está preso desde 14 de maio, no Complexo Penitenciário Nelson Hungria, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Além de negar participação nos crimes investigados, ele utiliza a carta para pedir novamente a revogação da prisão preventiva e relata problemas de saúde durante o período em que permanece detido.
O empresário afirma ainda que sua mulher e uma de suas filhas passaram a receber ameaças e que a família enfrenta bloqueios patrimoniais.
Ao longo do documento, Henrique insiste que não tinha conhecimento dos negócios conduzidos pelo filho e pede aos ministros que sua atuação seja analisada separadamente da de Daniel.
“Tenho muitos negócios, todos honestos. Preciso da minha reputação e dignidade restauradas”, escreveu.


