A crise aberta pelo afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, chegou à cúpula da corporação nesta terça-feira (8). Onze diretores divulgaram uma manifestação conjunta em apoio a Andrei e ao diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, também afastado, e colocaram seus próprios cargos à disposição do diretor-geral interino, William Marcel Murad.
A manifestação representa uma reação direta da direção da PF à decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que afastou preventivamente os dois delegados após afirmar que a estrutura de inteligência da corporação teria produzido relatórios que monitoraram ilegalmente sua atuação durante mais de 30 dias.
Os diretores classificam como “injustificados” os ataques sofridos por Andrei, Almada e pela própria Polícia Federal e fazem uma defesa enfática da trajetória profissional do diretor-geral afastado.
“Da mesma forma como a Instituição Polícia Federal tem, em sua história e feitos, a razão de sólida admiração dos brasileiros, o Dr. Andrei também conta com um percurso profissional dedicado à defesa da PF, com atuação técnica, isenta e responsável”, afirma a carta.
O documento também atribui parte das acusações contra a direção da corporação ao ambiente político.
“Narrativas marcadamente influenciadas por interesses político-eleitorais não têm o poder de apagar a história, a reputação e a trajetória profissional de quem quer que seja”, afirmam os dirigentes.
A manifestação aumenta a dimensão da crise porque envolve praticamente toda a estrutura de direção da Polícia Federal.
Entre os signatários está Dennis Cali, diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção, área responsável por algumas das principais investigações da corporação e que concentra as apurações relacionadas ao Banco Master.
Também colocaram os cargos à disposição Fabrício Schommer Kerber, diretor de Polícia Administrativa; Otavio Margonari Russo, diretor de Combate a Crimes Cibernéticos; Felipe Tavares Seixas, diretor de Cooperação Internacional; Helena de Rezende, diretora de Gestão de Pessoas; Roberto Reis Monteiro Neto, diretor Técnico-Científico; André Luis Lima Carmo, diretor de Administração e Logística; Christiane Correa Machado, diretora de Ensino da Academia Nacional de Polícia; Alexsander Castro de Oliveira, diretor de Proteção à Pessoa; Ademir Dias Cardoso Júnior, diretor de Tecnologia da Informação e Inovação; e Humberto Freire de Barros, diretor da Amazônia e Meio Ambiente.
Os 11 dirigentes haviam sido nomeados para suas funções durante a gestão de Andrei. Leandro Almada não assina porque foi afastado, enquanto William Murad assumiu interinamente a direção-geral da corporação.
Colocar os cargos à disposição não significa exoneração automática. Caberá ao diretor-geral substituto decidir sobre a permanência dos dirigentes nas respectivas funções.
Diretores falam em “usurpação de funções”
A carta vai além da solidariedade pessoal a Andrei e Almada e transforma o episódio em uma defesa institucional da Polícia Federal.
Os dirigentes afirmam ter o dever de proteger a corporação de “ataques e tentativas de usurpação de funções” e sustentam que preservar as atribuições da PF é uma questão de interesse público e de defesa do Estado Democrático de Direito.
Ao final, o grupo rejeita diretamente a acusação de que a Polícia Federal ou seus dirigentes tenham atuado de maneira incompatível com suas funções.
“Repudiamos toda e qualquer tentativa de imputar a eles ou à Polícia Federal uma atuação não republicana”, afirmam.
Para os diretores, as acusações são “desprovidas de fundamento” e atingem a história e a credibilidade da instituição.
A reação coletiva ocorreu horas depois de William Murad assumir interinamente o comando da corporação e fazer uma defesa pública de Andrei.
Durante a abertura de um curso de formação para 763 novos agentes da PF, Murad afirmou que a instituição não se deixará abalar por ataques e declarou “total confiança” em Andrei Rodrigues.
“O momento exige serenidade, mas saberemos atravessar essa tempestade como tantas vezes o fizemos”, afirmou.
Andrei era esperado na solenidade, mas desistiu de comparecer depois de tomar conhecimento da decisão de Mendonça.


