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Home Colunas

Clamor ao Cristo Redentor

Por Lenin Novaes
11 de outubro de 2021 - 08:20
em Colunas

Vista da escultura do Cristo Redentor de uma das mais de mil favelas habitadas por cerca de um milhão e 800 pessoas na Região Metropolitana do  Rio de Janeiro. (Reprodução da Internet) - 

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– Marineth, será que na comemoração de 90 anos da estátua do Cristo Redentor, 12/10 – imagem simbólica de Jesus Cristo no cume do Morro do Corcovado, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro – cabe aos cariocas clamar por pedido contra degradação da vida na cidade? Será que é maior a quantidade de famílias agraciadas com milagres do que as destroçadas por tragédias? Será que aquele “cartão postal”, eleito na informalidade como a “sétima maravilha do mundo”, serve somente como atração turística para arrecadação de dinheiro à igreja e aos cofres públicos, surrupiados sem dó nem piedade por tantos políticos corruptos que ficam impunes?

– Infelizmente, Athaliba, o monumento Cristo Redentor, maior símbolo de adoração cristã, é o que o público mais cobiça na camuflada indústria da fé. É astronômica a arrecadação financeira proporcionada por turistas nacionais e de várias partes do mundo que o visitam, anualmente.

– Marineth, antes da pandemia do COVID-19 que matou mais de 600 mil pessoas no Brasil, entre as mais de quatro milhões e 500 no mundo, até hoje, o monumento recebeu o público de 1.940.327 turistas, no ano de 2019. Há contestação, já que a direção do Trem do Corcovado, que explora o acesso ao monumento, registrou o transporte de dois milhões e 450 mil pessoas. Bateu o recorde de 2013, que foi de dois milhões de visitantes, de acordo com o ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade -, que atua no Parque Nacional da Floresta da Tijuca, enfrentado vândalos que insiste em degradar a natureza, onde se localiza o marco cristão.

– Athaliba, ocê sabia que a escultura foi sugestão da princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourdon-Duas Sicílias e Bragança, a redentora da escravidão, filha do imperador D. Pedro II? Em resposta à proposta de monumento dedicado a ela, por gratidão à libertação dos escravos, no alto do Corcovado, disse que a homenagem devia ser ofertada ao verdadeiro redentor: Jesus Cristo. Para a construção da obra, entre 1922 e 1931, a população doou milhares de contos de réis, moeda vigente à época.

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– Desculpe-me interrompê-la, Marineth, nas descrições do monumento. Não posso perder o raciocínio do quanto o símbolo é considerado representativo à religiosidade. E assim acredito que para se livrar do castigo de tantos pecados, o povo deverá fazer penitência. Quiçá a realização de prece coletiva, em lamentos, ao pé do Cristo Redentor, possa atenuar a trágica condição de vida que sufoca população. Braços abertos sobre a Baia de Guanabara – o lado leste do Rio, sabia? – a escultura foi testemunha ocular da morte a tiros de 28 pessoas na chacina do Jacarezinho; na morte a tiro da menina Ágatha Felix, de oito anos; na morte a tiro da designer Kathlen Romeu, de 24 anos e grávida de quatro meses.

– Athaliba, é a minha vez de interrompê-lo. Quero lembrá-lo do fuzilamento brutal e covarde da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes; do assassinato de Evaldo Rosa, com nove dos 80 tiros de fuzil disparados por soldados do Exército; do assassinato de João Vitor, 17 anos, baleado nas costas; da morte de João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, crivado de tiros; das mortes de Samuel Bonfim Vicente, 17 anos, e do padrasto dele Willian Vasconcelos da Silva, 38 anos, fuzilados ao levar numa motocicleta para atendimento médico a amada do jovem, Camily Apolinário, de 18 anos, também baleada. Enfim, o Museu da Justiça do Rio de Janeiro, creio, irá atualizar, em breve, a vergonhosa exposição dos “Dez crimes que chocaram o Rio de Janeiro”, exibida ao público a partir de 2016.

– Marineth, é preciso dizer também que o Cristo Redentor assistiu memoráveis eventos, como o Congresso Internacional Sobre o Meio Ambiente – Eco 92; a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável – Rio+20 -, em 2012; as Copas do Mundo de 1950 e de 2014; os desfiles das escolas de samba (por que não) e tantas outras realizações culturais.

– Athaliba, a cúpula do catolicismo afirma que o Cristo Redentor é entrada do turismo no Rio de Janeiro. Edificada ao custo de 250 mil dólares, a escultura foi projetada por Heitor da Silva Costa, e a participação do escultor Maximiliam Paul Landowsky e do pintor Carlos Oswald. A imagem tem formato de cruz, altura de 38m, com os braços (cada um) ocupando área de 88m²; o pé mede 1,35m e a cabeça pesa 30 mil kgs do total de 1.145 toneladas. A subida até lá tem 220 degraus, onde está a Capela de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil.

– Marineth, apesar das adversidades, o povo louva o Cristo Redentor, pois como aguça a canção, repetidas vezes, “andar com a fé eu vou, que a fé não costuma faiá”. Vida que segue!!!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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