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Home Colunas

Centenário do poeta Cabral

Por Lenin Novaes
20 de janeiro de 2020 - 09:37
em Colunas

João Cabral de Melo Neto. (Foto: acervo da Academia Brasileira de Letras)

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– Marineth, neste ano de 2020 é comemorado o centenário do Cabral, não o Cabral que foi governador do Estado do Rio de Janeiro, condenado pela 12ª vez fins de 2019 e que soma 267 anos de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, entre outros delitos. Refiro-me, intrínseca amiga, ao João Cabral de Melo Neto, pernambucano, irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre.

– Athaliba, o ex-governador Sérgio Cabral, com os 267 anos de reclusão que carrega nas costas, tá condenado a morrer na prisão, né?

– Marineth, indubitavelmente, incontestavelmente, indiscutivelmente. Creio que, pelo andar da carruagem, os ex-governadores Pezão, Rosinha e Garotinho deverão se juntar a Cabral, por crimes de corrupção. Bem, a justiça tá cuidando deles, além de tantos outros políticos corruptos.

– É isso aí, Athaliba. Tem muitos políticos corruptos espalhados pelo Brasil, né? No Estado do Rio de Janeiro, os empresários Jacob Barata, o Rei dos Ônibus; e Eike Fuhrken Batista Silva, que acumulou fortuna na exploração de mineração, petróleo, gás, logística, energia, indústria naval e carvão mineral, entre outros, comandaram a festa da corrupção.

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– Marineth, vamos abordar a corrupção em outra ocasião, tá? Quero te falar do João Cabral de Melo Neto, que é um dos principais poetas brasileiros, junto com Carlos Drummond, Castro Alves, Cora Coralina e Adélia Prado, entre outros. Foi considerando esse aspecto que dinamitei a proposta oportunista do deputado federal mineiro Lincoln Diniz Portela (PRB), pastor e presidente da Igreja Batista Solidária, de tornar o Município de Itabira, em Minas Gerais, a Capital Nacional da Poesia, em tributo a Carlos Drummond de Andrade.

– Athaliba, esse deputado Lincoln Portela é forasteiro em Itabira e só dá as caras na cidade em época de eleições, tirando os votos dos candidatos nativos. O filho dele é deputado estadual, em Minas Gerais; e a mulher, vereadora, em Belo Horizonte.

– Pois é, Marineth. O Lincoln Portela conseguiu construir uma oligarquia política. Também o mito pés de barro, governante do Brasil, conseguirá com os filhos senador, deputado e vereador?

– Vai saber Athaliba. Com tantos escândalos criados pela família fica difícil, né?

– Bem, Marineth, vamos voltar ao centenário do poeta Cabral, comemorado 9 de janeiro, o dia do nascimento em 1920. Ele morreu aos 79 anos, dia 9 de outubro, no Rio de Janeiro. Ficou conhecido como “o poeta-engenheiro” e “arquiteto das palavras”. Para ele, o trabalho poético não é fruto de uma “inspiração” ou alguma espécie de mero momento criativo. Ele dizia que a poesia se encontra no rigor de sua construção e na organização do texto em si, pois o ideal artístico do poeta é o da “simetria”, trabalho que só pode ser conseguido através de um exercício autocrítico e de um trabalho linguístico rigoroso.

– Athaliba, no início dos anos 80, na Diocese de Duque Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, assisti à peça adaptada do poema “Morte e vida Severina”, que retrata a trajetória de um retirante do sertão nordestino em busca de uma vida melhor no litoral. Foi escrito em entre 1954 e 1955 e é o livro mais conhecido e popular do poeta. Outro livro de grande importância na literatura é “A educação pela pedra”, que reúne 48 poemas, publicado em 1966.

– Marineth, o poeta conheceu Murilo Mendes e Carlos Drummond antes de lançar o livro “Pedra do sono”. Em 1945 publicou “O engenho” e fez concurso para a carreira diplomática. Foi vice-consul do Brasil na Espanha. No ano de 1952 respondeu a inquérito acusado de subversão e ficou sem pagamento até ser reintegrado à carreira diplomática. Entrou para a ABL – Academia Brasileira de Letras, em 1968.

– Athaliba, a experiência de Chico Buarque com o teatro começou em musicar o poema “Morte e vida Severina” para montagem no Tuca, Teatro da Universidade Católica de São Paulo, em 1965. A peça ganhou o Festival Internacional de Teatro Universitário. Veja o clipe com Lázaro Ramos e Elba Ramalho, no link: https://www.youtube.com/watch?v=Z0z0VUDNIhw. É comovente. Também com Tânia Alves, no link: https://www.youtube.com/watch?v=emtGoniHLCk. João Cabral de Melo Neto, presente!

“Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo
Estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
Porém mais que no mundo te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada, não se abre a boca”

Tags: ATHALIBACABRALJOÃO CABRAL DE MELO NETO
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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