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Home Colunas

Ameaça de morte racista

Por Lenin Novaes
20 de novembro de 2020 - 15:38
em Colunas

Ana Lúcia é professora e primeira mulher negra eleita vereadora em Joinville, em Santa Catarina (Foto reprodução rede sociais)

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“Agora só falta a gente matar ela e entrar o suplente que é branco”.

– Athaliba, a frase racista de ameaça de morte à vereadora Ana Lúcia Martins nas redes sociais, após eleições de 15/11, é prova de crime inafiançável e mereceu repúdio de políticos e de instituições organizadas da sociedade civil. O caso racista de enorme repercussão, no entanto, não sensibilizou a advogada e pastora evangélica Damares Regina Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do governo do mito pés de barro em se manifestar publicamente. A Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso de Joinville/Santa Catarina é que instaurou inquérito e cabe à delegada Cláudia Cristiane Gonçalves de Lima apurar os crimes de injúria racial e ameaça de morte.

– Marineth, o caso é de extrema seriedade e que não se repita o que aconteceu com a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada brutalmente a tiros junto com o seu motorista Anderson Gomes, em 14 de março/2018, no Rio de Janeiro. Embora estejam presos dois autores do crime, o motivo e o mandante do assassinato ainda não são conhecidos. E o ódio contra Marielle, infelizmente, ainda se manifesta. Há dias a juíza Renata Gomes Casanova, a partir da decisão da 49ª Vara Cível do RJ, determinou ao Twitter e ao Facebook a apagar publicações ofensivas à memória da vereadora, exposta em montagens nas quais internautas são retratados segurando a cabeça dela, decapitada, ensanguentada e com marcas de tiros.

– Phorra, Athaliba, que atitude macabra.

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– Pois é, Marineth. A juíza Renata Casanova alegou que “o fato ultrapassa a mera crítica política e a liberdade de manifestação do pensamento; o conteúdo exalta a ocorrência de crime bárbaro, expondo a cabeça da vítima como espécie de troféu. Tais manifestações revelam escarnecimento com o assassinato de um ser humano e constituem agressão à dor da família, em ato de verdadeiro bullyng virtual”.

– Estou chocada e indignada com o caso, Athaliba.

– Todos nós, Marineth. A juíza manifestou também que “além de agredir a imagem da falecida, apresentando sua cabeça como verdadeiro troféu do agressor, o conteúdo publicado nas redes sociais atinge, por via reflexa, a memória e a dignidade dos parentes de Marielle que são, reiteradamente, expostos a imagens repulsivas e degradantes de seu familiar, acentuando a tristeza e a angústia experimentadas por ocasião do assassinato da vereadora”. A juíza Renata Casanova, que estabeleceu multa diária entre R$ 10 mil e R$ 500 mil, ordenou a identificação dos IPS dos internautas responsáveis pelos posts e o acesso às informações relativas às postagens. O Twitter e o Facebook são obrigados a guardar dados e registros de acesso das publicações até o julgamento definitivo da ação

– Athaliba, em 2018, em ação impetrada por Anielle Silva, irmã da vereadora, e por Mônica Benício, viúva de Marielle, o Tribunal de Justiça do Rio determinou ao Facebook excluir postagem caluniosa sobre a parlamentar. Foi instituída multa de R$ 100 mil, no caso de não cumprimento da decisão judicial, e determinação para que a rede social permanecesse com um trabalho de monitoramento para evitar outras divulgações daquela espécie.

– Marineth, conte detalhes do caso da vereadora eleita em Joinvile/Santa Catarina.

– Athaliba, a Ana Lúcia Martins é professora e servidora pública aposentada. É a primeira mulher negra eleita para a Câmara de Vereadores de Joinville. Obteve 3.126 votos pela legenda do Partido dos Trabalhadores (PT). Ela, em depoimento à delegada Cláudia Gonçalves, contou que teve as redes sociais invadidas e que foi ameaçada de morte, “evidenciando que o problema central era por eu ser a primeira mulher negra eleita da cidade”. E, além disso, relatou que sofreu “reação violenta à sua eleição por parte de um radialista da imprensa local”.

– Marineth, isso é inadmissível!

– Sim, Athaliba. A Ana Martins publicou na rede social que “sabia que não seria fácil e que enfrentaria certa resistência; só não esperava ataques tão violentos e com aval de parte de pessoas que se declaram profissionais da imprensa”.

– Marineth, lá em Itabira, cidade mineira berço de nascimento do saudoso poeta Carlos Drummond, foi eleita uma única mulher, Rosilene Felix Guimarães, entre 17 vereadores. É negra e o mandato será na defesa e ampliação dos direitos da mulher. Que tenha êxito na missão.

Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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