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Home Notícias Brasil

A arte e a valor da fotografia

Por Lenin Novaes
26 de agosto de 2019 - 10:20
em Brasil

A imagem do ex-presidente Fernando Collor encerra a projeção de fotos (Foto: Alcyr Cavalcanti)

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Não faz tanto tempo, estimados leitores d’O Folha de Minas, era insonhável a concepção da explosão fotográfica que assola o planeta, com o advento tecnológico que aprofunda a chamada terceira revolução industrial, também designada como “revolução informacional”, que surgiu após o período de 1939-1945 da segunda guerra mundial. Alguns pesquisadores, porém, afirmam que foi por volta dos anos 1970, com o descobrimento da robótica, utilizada na linha de montagem de automóveis. Um terceiro grupo garante que o avanço aconteceu a partir do início dos anos 1990, com o uso do computador pessoal e a internet.

Bem, enfoco o detalhe ao lembrar-me do ingresso à redação do jornal Correio da Manhã, no final dos anos 1960, quando era acompanhado por fotográfos carregando pesadas câmaras. Um deles, o saudoso Alaor Barreto, tinha o “chassis” (ombro) do lado direito do corpo arriado de tanto sustentar o peso da bolsa da máquina fotográfica. Daquela época da safra de fotojornalistas de grande potencial profissional tem Alcyr Cavalcanti, que registrou o ator Grande Otelo na minha primeira reportagem de página cheia no jornal, encenando peça no Teatro Glória.

Alcyr Cavalcanti, fotojornalista e antropólogo, secretário-geral da ARFOC-Rio e integrante da Comissão de Direitos Humanos da ABI – Associação Brasileira de Imprensa -, é curador e participante da 62ª Jornada Republicana que vai homenagear a nobre arte da fotografia com uma projeção de imagens sobre as fotografias mais relevantes no período de 1961 a 1991, seguida de debate, dia 27/8, às 18:30h, no Museu da República, na Rua do Catete, 153, no Rio de Janeiro. As imagens, de vários autores, fazem parte do acervo da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro. A Fotografia percorreu um longo caminho, desde seus primórdios em 19 de agosto de 1839 até os dias de hoje, em que é utilizada em quase todas as atividades humanas principalmente no fotojornalismo.

Para ele, “por uma curiosa contradição, a facilidade e a popularização das imagens, devido à facilidade dos registros fotográficos, tem conduzido a uma banalização e a uma consequente desvalorização da importância da fotografia como documento social e registro de uma época. As imagens apresentadas vão enfocar acontecimentos que ocorreram em três décadas de nossa história, com 62 fotografias de vários autores, entre eles Alberto Ferreira, Evandro Teixeira. Erno Schneider e Rogério Reis”.

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Segundo Alcyr, “estamos em mais uma crise do capital, caracterizada por escassez de frentes de trabalho, desmantelamento da estrutura sindical e associativa, competitividade exacerbada que tem levado a um individualismo extremado, a uma concorrência desenfreada que beneficia somente, em nosso caso, os donos da mídia. As novas tecnologias obrigam os profissionais da imagem a renovar seu equipamento periodicamente para poder competir. Nesta fase tudo é tratado como mercadoria, dificuldades que vão aumentando devido à transmissão de dados no chamado tempo real. A apuração é feita de maneira acelerada, podendo levar em muitos casos à deturpação da informação, na maior parte das vezes incompleta. A melhor noticia é a que chega primeiro, pouco importa a veracidade da informação. Para dificultar mais ainda nossa tarefa, a violência crescente que se encontra em todas as grandes cidades, principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo, apesar dos índices fornecidos pelo aparelho de Estado, ao que parece manipulados. A série de fatores dificulta, ou mesmo impede nossa atividade que é informar, através de imagens, as diversas situações de conflito que ocorrem diuturnamente”.

Diz ainda que “Temos sido agredidos de todas as formas, seja por um aparato repressivo extremamente violento e despreparado, seja por manifestantes desesperados e equivocados, que manifestam suas frustrações em trabalhadores que cumprem honestamente a tarefa de informar. Segundo o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana houve um crescimento significativo de casos de agressões a partir de 2012, principalmente após as manifestações de junho de 2013. Profissionais no exercício de suas funções são ameaçados, agredidos, às vezes vitimados de maneira fatal, como no caso do repórter-cinematográfico Santiago Andrade. Diariamente ameaças diversas são feitas contra profissionais da noticia, a maioria parte das autoridades que deveriam manter a lei e a ordem, prometidas em discursos vazios. Nossa tarefa, nossa missão é trazer a noticia através de imagens, feitas em frações de segundo, em instantes que não mais se repetirão. Essa entidade abstrata chamada mercado, própria da fase atual do capitalismo, aproveita a enorme oferta e procura aviltar os valores de uma imagem fotográfica. Qualquer fotografia serve, não importa a qualidade, desde que preencha as necessidades imediatas dos donos da mídia, ou de seus prepostos. Uma das características dessa nova, velha fase do capitalismo chamada por Ernest Mandel de Capitalismo Tardio é o investimento em novas tecnologias em detrimento dos enormes problemas de superpopulação e a consequente falta de moradias, escassez de alimentos, doenças de todos os tipos e atendimento médico cada vez mais precário. Em uma fase de desemprego crescente, subemprego, onde a máquina substitui o homem, que procura sobreviver a qualquer preço, fica estabelecida a sobrevivência do mais forte, do mais “esperto”, um vale tudo ao estilo Big Brother, onde é cada um por si, todos contra todos”.

Avalia Alcyr Cavalcanti que “para tentar frear um estado de coisas que pode nos levar à barbárie é necessário resistir, trazer de volta o espírito associativo, comunitário, onde a fraternidade e o auxilio mútuo substituam o individualismo exacerbado, a concorrência desleal com a eliminação do concorrente a qualquer preço. É preciso lembrar que o inimigo não é o outro, o profissional que luta e sofre como nós, mas os donos do capital, os únicos que lucram com essa situação em que estamos inseridos. O velho embate Capital x Trabalho permanece, mais vivo do que nunca”

Garante que “o fotojornalismo não morreu, estando mais vivo do que nunca, porém passa por sérias dificuldades, necessitando de novos caminhos. Há 12 anos recebi mensagem pedindo apoio para um manifesto de fotógrafos franceses, em relação à desvalorização do preço de uma imagem. Fotos estavam sendo comercializadas a cinco euros ou menos, citando a Keystone, entre outras agências. A chamada captura de imagens via internet avilta cada vez mais e submete as imagens a um processo de massificação e consequente desvalorização, onde nada é importante porque tudo é importante. Começa o declínio das agências fotográficas, na Europa e Estados Unidos, e a valorização excessiva da cobertura da vida intima de ‘celebridades’, candidatas a quinze minutos de fama, em detrimento das chamadas hot news ou noticiário do dia a dia. É, de certa forma, uma estratégia para mascarar o que de fato importa. Hoje proliferam as revistas especializadas e jornais diários dedicam espaço a esse tipo de jornalismo. Para Pierre Bourdieu “o jornalismo de instrumento da democracia, transformou-se em instrumento de opressão simbólica”. São os novos tempos envelhecidos do século XXI. A fase atual da economia e os impasses que desafiam todos aqueles que produzem imagens podem apontar para uma superação e novos caminhos que tenham como objetivo demonstrar a importância do fotojornalismo como um fator essencial para a compreensão das situações sociais na caminhada para um mundo melhor”. 

Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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