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Home Colunas

Fina: poetisa altiva de Cuba

Por Lenin Novaes
4 de julho de 2022 - 08:35
em Colunas

Fina, poetisa cubana, orgulho da América Latina. Divulgação - 

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– Athaliba, o universo literário latino-americano despediu-se de uma de suas mais longevas poetisas: Josefina García-Marruz Badía. Aos 99 anos, Fina, poetisa altiva de Cuba, afetivamente assim chamada pelos compatriotas, faleceu 27/6. Em manifestação singela, o presidente Miguel Díaz-Canel Bermúdez a exaltou como “a poetisa que nos fez ouvir o silêncio, a companheira martiana do poeta martiano, a vibrante voz de Cuba na América Latina”. Também o ex-presidente Raúl Castro Ruz exteriorizou seu adeus à Fina, orgulho da nação cubana, ao dizer que “ela deixa uma marca permanentemente acesa na cultura de Cuba”.

– Marineth, do poema “Pureza”, ela cunhou no lacre do I volume de sua Poesia Completa o verso: “O morto não ocupa mais lugar/Deixa o espaço livre para os outros”.

– Exatamente, Athaliba. Por isso, Fina García-Marruz sempre ocupará “um lugar sagrado e insubstituível no seio de Cuba, e seu nome será ouvido alto e claro quando falarmos mais alto e mais claro da cultura e literatura cubanas”, como afirmou Alpidio Alonso, ministro da Cultura. A poetisa foi casada com o renomado intelectual cubano Cintio Vitier. Concebeu os filhos Cintio, que faleceu em 2009; e Sérgio, morto em 2016. Já na juventude participou dos mais importantes e influentes movimentos literários. Destaque para o grupo Orígenes, que reuniu em torno de José Lezama Lima escritores, intelectuais e poetas que marcaram o pensamento cubano, ligados com autores espanhóis.

– Marineth, por ocasião do período em que vivi em Cuba, em 1985, poemas de Fina eram citados em rodas literárias que varavam madrugadas, bebericando Havana Club Rum, no bairro Vedado. Sobressaia declamações de poesias de Nicolás Guillén, que faleceu em 1989. Sempre declamava o poema “Podes?”, com paciência dos amigos, que diz: Podes vender-me céu?/Céu azul por vezes, ou cinza, também às vezes/Uma parte do teu céu, o que comprastes, pensas tu/Com as árvores do teu sítio, como quem compra o teto com a casa?/Podes vender-me um dólar de céu?/Dois quilômetros de céu, um pedaço/O que puderes, do “teu” céu?/O céu está nas nuvens/Altas passam as nuvens/Ninguém o possui. Ninguém!”.

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– Athaliba, por favor, respeita o meu direito de fala. Não seja inconveniente. Ainda quero te detalhar outros aspectos da Fina. Depois ocê pode tagarelar sobre a viagem a Cuba, tá? A Fina foi reconhecida pela singularidade de sua criação poética, com enriquecedor uso da linguagem, o que a situou como “poetisa de dimensão universal”. A que destacar também o seu amplo trabalho intelectual ligado a uma insuperável honestidade e ética. O grande compromisso com Cuba, sua pátria, e sua Revolução, que ela soube combinar com os altos valores da fé cristã.

– Marineth, um dos livros mais expressivos do perfil da poetisa é Las miradas perdidas.

– É verdade, Athaliba. Fina dizia que “a poesia nada mais é do que o segredo da vida. Uma instância superior, perseguindo, julgando, enobrecendo, tornando transparente o invisível. E, assim, consistentemente, criar”. O livro é definido como “eternamente humano, onde a família, a natureza e a poesia compõem a essência que lhe permitirá ler na solidão do quarto ou enquanto espera pelo seu amante; ou, simplesmente, na memória de quem não existe fisicamente, mas regressa na mais insignificante das circunstâncias; coisas comuns, um piano, uma noite, uma fragrância ou uma cor; é o presente destas páginas desta bela poetisa cubana, acompanhada pelo ritmo de sua ternura”.

– No conjunto da obra dela, Marineth, traduzida para várias línguas e que integra inúmeras antologias, tem “Poemas”, de 1942; “Os olhares perdidos”, de 1951; entre tantos outros.

– Athaliba, a poetisa Fina soube transcender em paralelo com sua poesia e seu trabalho de pesquisa. Ela mereceu, indiscutivelmente, o Prêmio Pablo Neruda Ibero-Americano de Poesia, o Prêmio Internacional Federico García Lorca de Poesia, o Prêmio Nacional de Pesquisa Cultural de Cuba; além de laureada com as ordens nacionais José Martí, Alejo Carpentier e Fáliz Varela.

– Marineth, a história e os mistérios católicos andavam de mãos dadas com ela. Escreveu Fina que “Corrompemos/mentindo e usando a palavra amor/E não sabemos mais como nos entendemos/Deveríamos dizer diferente/Ou melhor, calar/Não importa se for embora o convidado inusitado”.

– Sim, Athaliba. A Fina, poetisa altiva cubana, simboliza a cultura da América Latina. E, prá ocê, meu até breve para falar de Nicolás Guillén, quando viveu em Cuba! Mas, conta tudo, heim!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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