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Home Colunas

A festa de arromba e ocaso cruel da ditadura

Por Lenin Novaes
5 de agosto de 2019 - 16:22
em Colunas
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– Olá, Athaliba! Cê ta joia? Aonde cê se meteu semana passada? Sumiu do mapa. Perdeu a festa de arromba em celebração ao Dia Mundial do Orgasmo, 31/7, que ainda ecoa em toda Alucard. A festança foi promovida pela travesti Lica, na casa da transexual Mary Help. Lá estiveram as gêmeas lésbicas, Francinete e Ivonete, uma ativa e a outra passiva, com as respectivas amantes Deolinda e Hermelinda; a sexóloga Dagmar, acompanhada da assistente, a travesti Shelby; a transexual Gina, ex-amante do PM Brucutu; a camareira Nandinha, do motel de alta rotatividade Trolha na Xavasca; a guria Belinha, com o seu cachorro lambe-lasca e as travestis Mouzalina e Tunica, além de outras “celebridades” alucardeanas.

– Marineth, enquanto você curtia a orgia, repercutia, no país, mais uma fanfarrice do presidente Jair Messias. Vésperas do tal Dia Mundial do Orgasmo, ele bradou do Oiapoque ao Chuí que o pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, não foi assassinado pelas forças armadas, durante a ditadura civil-militar de 1964 a 1985. Jura de pés juntos que o pai de Felipe de Santa Cruz Oliveira Scaletsky foi morto pelos próprios companheiros do grupo que combatia a ditadura.

– Athaliba, cê sabe como é em Alucard: o atraso impera e o caso não mereceu a devida atenção.

– Pois é, Marineth, infelizmente. A fala de Jair Messias contrasta com inúmeros documentos no site do Arquivo Nacional e da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligado ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Mais de 300 documentos citam o nome de Fernando Santa Cruz e, inclusive, recursos impetrados pela mãe dele, Elzita Santos de Santa Cruz, que buscava o paradeiro do filho e morreu com 105 de idade. Ela simboliza a resistência da existência, alimentada na esperança. Fernando Santa Cruz, de acordo com registro oficial e sigiloso do Ministério da Aeronáutica, de 22 de setembro de 1978, foi preso em 22 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro. Dizem que o corpo foi incinerado num forno de usina de cana de açúcar.

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– Athaliba, esse Jair Messias é criador de confusão. Quer fazer do filho Eduardo Bolsonaro, deputado federal, embaixador do Brasil nos EUA, em flagrante caso de nepotismo. Sobre o fato do clã Bolsonaro (ele próprio e os três filhos políticos) ter dado emprego em seus gabinetes a mais de uma centena de pessoas com laços familiares nos últimos anos, disse que “já botei parentes no passado, sim, antes da decisão de que nepotismo seria crime; e qual é o problema?”

– Sim, Marineth. A atual esposa dele, Michelle, inclusive, era funcionária da Câmara. Após longo tempo no gabinete do próprio Jair Messias, ela deixou a função. Mas, voltamos ao caso do pai do presidente da OAB. Fernando Santa Cruz era funcionário público e estudante de Direito. Integrava a Ação Popular Marxista Leninista (APML) quando foi preso, sendo assassinado pelos órgãos de repressão. E o presidente da República, dias antes de a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos emitir retificação de atestado de óbito de Fernando Santa Cruz, reconhecendo que a morte ocorreu “em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado Brasileiro”, blasfemou, jurando que Fernando foi morto por seus companheiros que lutavam contra a ditadura..

– O assunto, Athaliba, volta a abalar o sentimento de milhares de familiares de centenas de pessoas presas, torturadas e assassinadas pelos órgãos de repressão da ditadura.

– Sim, Marineth. No atestado de óbito consta que Fernando Santa Cruz morreu provavelmente no dia 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro, conforme reconhecido às páginas 1.601/1.607 do Volume III do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade. Portanto, Jair Messias, de forma cínica e covarde, revela ter conhecimento de causa deste e de outros episódios nefastos cometidos pelos órgãos de repressão, os quais não teriam sido revelados pelos militares durante depoimentos colhidos pela Comissão Nacional da Verdade.

– Athaliba, como vai se desenrolar o caso?

– Marineth, o presidente da OAB ingressou com ação no STF pedindo que Jair Messias esclareça a revelação de como Fernando Santa Cruz desapareceu durante a ditadura. Embora não sendo obrigado a responder ao SFT, mas, arrogante como é, Jair Messias afirmou, dia 2/8, que vai prestar esclarecimentos sobre a declaração que fez, garantindo que “eu não falei nada demais e vou entregar o vídeo e vou fazer a degravação e mandar; eu confio no ministro (Luís Roberto Barroso)”.

– Esse caso, Athaliba, estarrecedor, sinistro, tenebroso, tá longe do fim. Quantas famílias ainda vivem atormentadas pela ausência de parentes presos e dados como desaparecidos durante a ditadura? Será que o Jair Messias vai contar todos os casos que sabe sobre as ocorrências nos porões da ditadura?

– Marineth, que ele não se omita mais.

– Bem, Athaliba, sobre a festa de arromba em Alucard, a música mais tocada do disco “Sexo” de Erasmo Carlos foi “Kamasutra”. A agulha da vitrola quase fura o disco. Conhece a música?

“Hu, hu, hu/Hu, hu, hu/Hu, hu, hu
Em que posição?

Frontal, de pé, por trás ou de lado
A hidra às voltas com o dragão
Tesoura, fechadura ou de quatro
Em que posição?

Coqueirinho ajoelhado
Trapézio ou carrinho de mão
Gangorra de cabeça pra baixo
Em que posição?

Ficamos de mãos dadas no improvável caranguejo
Mas foi com a chave de ouro que o namoro começou
No 69 a gente deu nosso primeiro beijo
O que faremos hoje com nosso desejo?
Onde colocar o amor?

O enroscado da trepadeira
Picada de escorpião
Guindaste, tartaruga ou vaqueira
Em que posição?

Fênix na caverna vermelha
Noventa graus de conexão
Carrossel ou chão de estrelas
Em que posição?

Já experimentamos quase o Kama Sutra inteiro
Até contorcionismo a gente às vezes praticou
A borboleta em concha fez você gozar primeiro
Mas no tradicional papai-mamãe
Foi que a gente mais arrebentou

O parafuso, a ponte e o arco
Da rã, do carangueijo ou do cão
Lótus, vai e vem, tiro ao alvo
Em que posição?

Hu, hu, hu/Hu, hu, hu/Hu, hu, hu
Em que posição?”

Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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