O ex-administrador do distrito de Senhora do Carmo, Reginaldo Santos, exonerado pelo prefeito Damon de Sena no último dia 23, disse que denunciou algumas práticas que estavam acontecendo dentro da administração e por isso passou a ser perseguido e está sendo vítima de uma grande armação. O ex-administrador convidou a nossa reportagem e mostrou-se indignado com o que está acontecendo. De acordo com Reginaldo, as acusações que pesam contra ele, feitas pelo governo, não têm fundamento e ele quer que tudo seja investigado para que os verdadeiros culpados sejam punidos. Reginaldo disse que o que fez como administrador foi trabalhar muito para atender as demandas do distrito. Disse ainda que não tinha autonomia para tomar decisões e que cumpria ordens de superiores, muitas vezes do próprio prefeito. “Eu não quero que fique pedra sobre pedra. Tudo que foi dito tem que ser investigado, quero ver os culpados presos se for o caso. E se eu tiver que pagar por algum erro, vou pagar. O certo é que estou com a consciência tranquila, as acusações que fazem contra mim são mentirosas e vou provar. Estou sendo vítima de uma armação porque confiei que o governo era sério e quando descobri algumas falcatruas denunciei direto para o Gomes e para o Dr. Damon e a partir daí as coisas mudaram, começaram as perseguições. Acho que foi aí que eu errei.”, desabafou.
Reginaldo garante que quando tomou conhecimento de algumas coisas erradas que vinham acontecendo no governo, procurou o braço direito de Damon, o advogado Ermiton Machado Gomes “Marmita” e contou para ele tudo que estava acontecendo. Marmita disse para Reginaldo que iria marcar uma reunião com Dr. Damon e queria que ele falasse para o prefeito tudo que havia dito para ele. Dias depois Marmita enviou para Reginaldo uma mensagem via celular informando do encontro com o prefeito e dizendo a ele para ser firme, contar ao prefeito tudo que havia dito a ele sem amarelar. Então, na reunião com os dois, Reginaldo contou tudo para o prefeito conforme Marmita havia pedido e apresentou documentos como provas, dentre eles parte-diária da Santa Fé que estavam sendo alteradas e duplicadas para aumentar o faturamento.
Materiais doados pela prefeitura em fazendas particulares. (foto: Ageu Ebert)
Reginaldo denunciou também para Damon o que estava acontecendo com as construções de mata-burros. De acordo com Reginaldo, a prefeitura contratou a empresa Sanec – Saneamento e Construções Ltda – para construir 100 mata-burros no município de Itabira e antes mesmo de concluir, o contrato com a empresa foi aditivado. Na região de Senhora do Carmo, Reginaldo garante que os mata-burros que constam como construídos, nos locais não há nem sinal. Ele apresentou um relatório emitido pela empresa que constam como construídos na região do Angico 10 mata-burros, mas segundo ele foram construídos apenas 3. Na região do Córrego Comprido o relatório consta sete mata-burros mas apenas três foram construídos. Também na região de Gorduras o relatório apresentado aponta a construção de dois mata-burros, sendo na verdade apenas um. O relatório da Sanec consta ainda a construção de dois mata-burros em uma região chamada Cabral, que segundo Reginaldo não existe no distrito.
Depois de informado sobre essas irregularidades Damon pediu a Reginaldo que deixasse com ele os documentos e assim o fez. A partir daí começou contra ele a perseguição. Para Reginaldo, Gomes marcou a reunião com Damon apenas para mostrar o perigo que ele representava para eles dentro do governo e por fazer a denúncia foi considerado por eles como "X-9" (jargão usado no meio policial para se referir a quem denuncia práticas criminosas). "Hoje eu tenho certeza que o Gomes marcou aquela reunião com o Damon só pra mostrar a ele quem era o X-9 do Governo, e eu inocente acabei falando todas as irregularidades que eu tinha constatado, achando que estava falando com as pessoas que iam resolver o problema. Estava enganado.", lamenta o ex-administrador.
Reginaldo disse que a partir desse encontro com Gomes e Damon começaram contra ele as perseguições, até a denúncia do desaparecimento dos bloquetes no distrito que culminou com a sua exoneração. Segundo ele, o caso foi investigado pelo próprio Damon, que chegou ao Carmo acompanhado de seu irmão Dalton, que é policial florestal, e do atual secretário de governo, Ermiton Machado Gomes “Marmita”. Damon disse para Reginaldo que uma grande quantidade de bloquetes havia desaparecido no distrito mas que ele os havia encontrado em uma fazenda no município de Itambé chamada Rego D'água. Reginaldo disse que ficou surpreso com a informação de Damon de que havia encontrado os bloquetes em uma fazenda no município de Itambé. Foi então que percebeu que alguma coisa estava errada pelo comportamento de Damon e dos que o acompanhavam o que o deixou intrigado, pensando como Damon teria conseguido chegar nesta fazenda. Segundo ele, tudo leva a crer que Damon já sabia onde estava este material, por isso deduz que tudo não passa de uma armação.
Outra coisa que Reginaldo questiona é porque Damon, que já havia ido ao local e sabia onde estavam os bloquetes desaparecidos, ordenou que o procurador Daniel Lança fizesse a denúncia, sem no entanto informar à Polícia a localização do material, limitando em informar o desaparecimento, sem suspeito, para que a Polícia começasse a investigação do zero. Outra dúvida levantada pelo ex-administrador é onde foi parar a parte diária do caminhão da Santa Fé que transportou estes bloquetes até a fazenda. Reginaldo disse que tomou conhecimento de que o motorista que conduziu o caminhão é um operador de máquinas da Santa Fé, por nome de Eduardo, o que também é do conhecimento de Damon. Aliás, segundo Reginaldo, a referida fazenda apontada por Damon como local onde os bloquetes foram encontrados pertence ao pai do operador da Santa Fé.
Ele entende que Damon, se tivesse realmente interesse nessas investigações, teria antecipado essas informações para facilitar o trabalho da Polícia. Se o prefeito sabia quem transportou e onde estava o material, a ocorrência não deveria constar o desaparecimento sem suspeito. Por isso acredita que esta atitude do prefeito é para amedrontá-lo e evitar que ele torne público as denúncias que havia feito para Gomes e Damon na reunião que aconteceu no gabinete.
Outras irregularidades
Fotos mostram claramente a diferença entre os materiais usados na construção das duas pontes. Segundo Reginaldo, ambas foram faturadas como sendo material armco. (fotos: Ageu Ebert)
Em uma volta que demos no distrito, encontramos na região da Mata Grande uma escola construída durante o governo do ex-prefeito Olímpio Pires Guerra – Li, que serviu a comunidade e hoje esta abandonada com vidros quebrados. Nesta escola há uma sala onde antes funcionou um consultório odontológico, e nela ainda estão instalados e cheios de poeira todos os equipamentos que poderiam estar servindo a comunidade. A escola, contendo várias salas, quadra de futebol e pátio coberto está totalmente abandonada. No local funciona apenas um bar identificado como “Bar do Nenego”. De acordo com Reginaldo, o proprietário do bar é correligionário e apoiador do vereador Zé Mauro (PV).
Durante a visita que fizemos pelo distrito constatamos também que a farra com material da prefeitura não se limita a bloquetes. Em várias fazendas particulares encontramos manilhas, blocos, brita e areia que segundo o ex-administrador foram doados aos proprietários pela Prefeitura. A reclamação dos moradores do distrito é de que Damon estaria distribuindo materiais apenas para fazendeiros, enquanto os carentes não conseguem nada com a prefeitura e muitos vivem em casas precárias. Esta prática é comum porque os políticos acreditam que os fazendeiros carregam consigo os votos de seus empregados e dos pequenos sitiantes da região.
Outra denúncia do ex-administrador é que no Salgado de Baixo foi construída uma ponte sobre o córrego usando um tubo que é, de acordo com ele, feito a partir de um tanque de gasolina, material de pouca duração, mas que foi cobrado do município como se fosse o tubo armco. Já na entrada do Angico o mesmo modelo de ponte foi construída mas desta vez com tubo armco que é apropriado para este tipo de obra por ter maior durabilidade. As fotos não deixam dúvidas quanto a diferença dos materiais que foram usados. A denúncia do administrador é que a prefeitura não poderia ter colocado o tanque de gasolina como se fosse o material armco. Ele acredita que em pouco tempo a prefeitura terá que refazer a obra construída com material impróprio.
Reginaldo disse que agora essas investigações tem que ir até o fim e quer que estas e outras irregularidades sejam todas investigadas. Disse por fim que quer ser ouvido pelo Ministério Público, pela Policia Civil e se possível até pela Federal. “Eu quero ser investigado, quero que investiguem tudo, quero ser ouvido pela Policial Civil, pelo Ministério Público e até pela Policial Federal. Quero que tudo seja passado a limpo.”, finalizou
Veja abaixo a galeria de fotos dos materiais doados pela Prefeitura e encontrados nas fazendas da região, além de outras irregularidades denunciadas.





