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Home Notícias Brasil

Voto distrital misto pode mudar força dos ‘puxadores de votos’ e redesenhar eleições no Brasil

Hugo Motta quer levar reforma à votação ainda em 2026; modelo reduziria capacidade de candidatos com milhões de votos de eleger grandes bancadas, mas não impediria que eles próprios conquistassem uma cadeira

Por Redação
2 de novembro de 2026 - 12:30
em Brasil
Hugo Motta defende decisão de Flávio Dino que suspende “penduricalhos” no serviço público

Crédito: Fábio Rodrigues Pozzebom | ABR

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Uma mudança no sistema eleitoral brasileiro discutida há décadas voltou ao centro das articulações na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), quer votar ainda em 2026 uma proposta para substituir o atual sistema proporcional pelo voto distrital misto nas eleições para deputados federais, estaduais e vereadores.

A intenção anunciada por Motta é trabalhar com uma transição em 2030 e implantar o novo modelo em 2034. As regras definitivas, porém, ainda não estão fechadas e dependem de negociação entre os partidos e da apresentação e aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).

A discussão ganhou força depois das eleições de 2026, quando candidatos com grande presença nas redes sociais alcançaram votações milionárias e contribuíram diretamente para ampliar as bancadas de seus partidos.

O voto distrital misto não impediria esses candidatos de serem eleitos. A principal mudança estaria em outro ponto: os milhões de votos recebidos individualmente deixariam de produzir o mesmo efeito sobre a eleição de outros candidatos da legenda.

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Como funciona hoje

Atualmente, deputados federais, estaduais, distritais e vereadores são escolhidos pelo sistema proporcional.

O eleitor vota em um candidato ou diretamente no partido. Os votos recebidos por todos os candidatos da legenda ou federação são somados e ajudam a determinar quantas cadeiras aquele grupo terá direito a ocupar.

Depois, as vagas conquistadas são distribuídas entre os candidatos mais votados da legenda, seguindo as regras do quociente eleitoral e partidário.

Isso significa que um candidato extremamente popular pode reunir votos suficientes não apenas para garantir a própria eleição, mas também para aumentar significativamente a bancada de seu partido.

Foi o que ocorreu de forma especialmente visível em Minas Gerais nas eleições deste ano.

Nikolas Ferreira (PL) recebeu 3.119.318 votos para deputado federal. O quociente eleitoral mineiro ficou em 214.720 votos por cadeira. O PL terminou a eleição com 21 das 53 vagas de Minas na Câmara, contra 11 conquistadas em 2022.

Um levantamento feito a partir dos resultados eleitorais calculou que, retirados os votos de Nikolas e mantidos os demais resultados, o PL cairia de 21 para 11 cadeiras no estado. Nesse cálculo, além da própria vaga, sua votação teria sido determinante para outras nove cadeiras.

Em São Paulo ocorreu fenômeno semelhante. Lucas Pavanato (PL) recebeu 3.038.438 votos. Os dois candidatos, juntos, ultrapassaram 6,1 milhões de votos.

É justamente esse fenômeno que colocou novamente os chamados “puxadores de votos” no centro da discussão sobre a reforma eleitoral.

O que mudaria com o voto distrital misto

No modelo discutido atualmente na Câmara, uma parte das vagas seria preenchida por representantes escolhidos diretamente em distritos e outra continuaria vinculada à votação partidária.

Uma possibilidade em discussão é dividir as cadeiras pela metade.

Minas Gerais, por exemplo, seria dividida em distritos eleitorais. Para determinada parcela das vagas, cada eleitor escolheria um candidato que estivesse concorrendo naquele território. O mais votado do distrito ficaria com a cadeira.

A outra parcela seria preenchida por meio do voto em partidos e de listas partidárias.

O eleitor, portanto, teria dois votos: um para escolher seu representante no distrito e outro para escolher um partido.

Os detalhes ainda precisam ser definidos pelo Congresso, inclusive a forma de composição das listas e de delimitação dos distritos.

Arte – O Folha de Minas

Um candidato com 3 milhões de votos continuaria eleito?

Provavelmente sim, desde que fosse o mais votado no distrito em que disputasse a eleição.

A diferença é que os votos recebidos fora daquele distrito não seriam acumulados da mesma maneira para determinar quantas cadeiras outros candidatos de sua legenda receberiam.

Esse é um ponto fundamental da mudança.

Um político com milhões de seguidores poderia continuar sendo extremamente competitivo e conquistar sua cadeira. O que seria reduzido é sua capacidade de transformar uma votação pessoal gigantesca em diversas cadeiras adicionais para o partido.

Hoje, um influenciador político pode buscar votos em todo o estado. No modelo distrital, na parcela das vagas disputadas territorialmente, sua eleição dependeria dos votos concentrados em uma região específica.

A influência nacional ou estadual das redes sociais continuaria existindo, mas teria de se transformar em maioria dentro daquele distrito.

As redes mudaram o perfil das campanhas

O crescimento das redes sociais ampliou a capacidade de determinados candidatos de ultrapassar as fronteiras dos antigos redutos eleitorais.

Antes da expansão das plataformas digitais, deputados costumavam construir bases principalmente em municípios ou regiões determinadas. Lideranças locais, prefeitos, vereadores e organizações partidárias tinham peso maior na formação dessas bases.

As redes permitem que um candidato fale simultaneamente com milhões de eleitores espalhados por centenas de municípios.

A votação de Nikolas Ferreira ilustra esse fenômeno. Em 2026, ele recebeu votos nos 853 municípios mineiros e foi o candidato mais votado em 304 deles.

A combinação entre alcance digital e sistema proporcional criou uma nova espécie de puxador eleitoral: candidatos capazes de atingir milhões de eleitores sem depender exclusivamente de uma estrutura política regional tradicional.

Reportagens sobre as negociações da reforma apontam justamente a preocupação de partidos tradicionais com o crescimento desse modelo de candidatura e com seu efeito sobre a distribuição das cadeiras.

Motta quer votar mudança ainda neste ano

Hugo Motta anunciou em 28 de outubro que pretende abrir a discussão e tentar votar a reforma ainda em 2026.

Segundo o presidente da Câmara, já ocorreram conversas com União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, federação PSDB-Cidadania, Podemos e outros partidos. A intenção agora é ampliar as negociações com as demais bancadas.

“Chegou o momento de enfrentar esse tema”, afirmou Motta ao anunciar a retomada das discussões.

A proposta enfrentará resistência. Não existe atualmente consenso nem sobre o modelo definitivo nem sobre a regra de transição. Há parlamentares defendendo o distrital misto, outros preferindo o chamado “distritão” e bancadas contrárias à mudança.

Por se tratar de uma alteração constitucional, uma PEC precisaria do apoio de pelo menos 308 dos 513 deputados, em dois turnos, e depois de 49 dos 81 senadores, também em duas votações.

Representação mais próxima do eleitor

Um dos principais argumentos apresentados pelos defensores do voto distrital é a aproximação entre eleitor e representante.

Hoje, um deputado federal mineiro representa formalmente todo o estado. Em uma eleição distrital, cada região teria representantes diretamente associados àquele território.

Para o eleitor, ficaria mais simples identificar quem representa sua região no Congresso e cobrar atuação sobre problemas locais.

Motta tem defendido o distrital misto como uma forma de aumentar essa ligação entre o voto e a representação política. Em março, afirmou que a mudança poderia tornar o sistema mais participativo e reduzir os custos das campanhas.

Há, porém, questões importantes a serem resolvidas.

A primeira delas é quem desenhará os distritos eleitorais e quais critérios serão utilizados. A delimitação precisa obedecer a regras objetivas para evitar que fronteiras sejam manipuladas de maneira a beneficiar partidos ou grupos políticos.

Outra discussão envolve a representação de candidatos ligados a pautas que não possuem concentração geográfica. Hoje, um candidato ambientalista, sindical, religioso, ligado à segurança pública ou a qualquer outra causa pode buscar votos em todo o estado. Em uma disputa distrital, parte desses candidatos passaria a depender de uma base territorial definida.

O sistema misto tenta reduzir esse problema mantendo uma parcela das cadeiras vinculada ao voto partidário.

Não seria o fim dos campeões de votos

A reforma, portanto, não significaria o desaparecimento dos políticos que cresceram pelas redes sociais.

Eles continuariam podendo utilizar as plataformas, construir audiências nacionais, mobilizar seguidores e disputar eleições.

O que mudaria seria a maneira pela qual essa popularidade se transforma em cadeiras no Legislativo.

No sistema atual, milhões de votos concentrados em uma única candidatura podem ampliar fortemente a representação de uma legenda. No distrital misto, parte substancial dessa força eleitoral ficaria limitada à disputa do próprio distrito, enquanto as demais vagas dependeriam da votação partidária.

A discussão que o Congresso começa a fazer, portanto, ultrapassa a escolha de uma nova fórmula matemática para distribuir cadeiras.

Ela envolve uma decisão sobre qual relação o Brasil pretende estabelecer entre eleitor, candidato, partido e território em uma época em que as redes sociais tornaram possível a um único político alcançar milhões de eleitores espalhados por todo um estado.

Tags: Câmara dos DeputadosCongresso NacionaleleiçõesHugo Mottapolíticaredes sociaisReforma políticaSistema eleitoralVoto distritalVoto distrital misto
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