O deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), alvo de uma operação da Polícia Federal nesta segunda-feira (14), publicou poucos dias antes das buscas um vídeo afirmando que seu celular havia sido furtado em São Paulo.
A coincidência entre o desaparecimento do aparelho e a operação chamou atenção depois que vieram a público os detalhes da investigação que envolve o parlamentar.
Segundo Cezinha, o celular foi levado na sexta-feira (11), na Avenida Paulista, apenas três dias antes do cumprimento dos mandados autorizados pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
No vídeo publicado nas redes sociais durante o fim de semana, o deputado relatou que os criminosos teriam conseguido acessar rapidamente informações armazenadas no aparelho.
“Em apenas 15 minutos, eles acessaram todas as minhas contas, cartão de crédito, trocaram a senha do meu WhatsApp, a senha do meu celular. E foi uma devastação total”, afirmou.
A proximidade entre os dois acontecimentos levantou questionamentos sobre a possibilidade de o parlamentar ter recebido alguma informação antecipada sobre a operação.
Até o momento, porém, não há informação pública de que a Polícia Federal tenha identificado vazamento da operação ou concluído que o episódio envolvendo o celular tenha relação com a investigação.
O caso ganha relevância porque telefones celulares e mensagens extraídas de aparelhos apreendidos foram justamente algumas das principais fontes de provas utilizadas pela PF para chegar ao deputado e às pessoas que estariam envolvidas no suposto esquema.
PF investiga venda de influência no STF
Cezinha é investigado por suspeitas de tráfico de influência, corrupção, exploração de prestígio e lavagem de dinheiro.
Flávio Dino retirou nesta segunda-feira o sigilo da decisão que autorizou as buscas.
Segundo a investigação, o parlamentar teria utilizado sua posição política e o acesso a integrantes dos tribunais superiores para transmitir a clientes a ideia de que poderia interferir em processos judiciais.
Na decisão, Dino afirmou haver indícios de que Cezinha “aparenta utilizar a ascendência de sua função parlamentar para incutir em terceiros a percepção de influência sobre magistrados de Tribunais Superiores”.
A Polícia Federal chegou ao suposto esquema depois de analisar mensagens encontradas no celular da advogada Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, ex-assessora da Câmara dos Deputados investigada em apurações sobre emendas parlamentares.
As conversas mostram negociações entre Mariângela e a advogada Valéria Rodrigues Linhares, mulher de Cezinha.
Segundo a PF, elas discutiam contratos de honorários relacionados a processos nos quais o deputado faria contatos com ministros de tribunais superiores.
Valores poderiam chegar a R$ 2 milhões
Os investigadores identificaram negociações envolvendo honorários milionários e pagamentos condicionados ao resultado de processos.
Em um dos casos, havia previsão de pagamento de R$ 1 milhão, com valores adicionais que poderiam chegar a R$ 2 milhões em caso de sucesso.
Cezinha apareceria como responsável por abrir portas e estabelecer contatos com ministros, embora não seja advogado.
Entre os magistrados mencionados nas conversas estão Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Gilmar Mendes. Outros documentos também fazem referência a Edson Fachin.
A Polícia Federal, entretanto, faz uma ressalva expressa: não há elementos indicando que qualquer ministro tenha solicitado, aceitado ou recebido vantagem indevida.
Os magistrados aparecem na investigação como possíveis destinatários das tentativas de influência atribuídas ao grupo, e não como suspeitos dos crimes investigados.
Em pelo menos três processos, a PF encontrou indícios de atuação do grupo para tentar obter decisões favoráveis em causas sob responsabilidade de Nunes Marques.
Um deles envolvia a tentativa de libertação de um cliente acusado de desviar mais de R$ 112 milhões de recursos destinados à educação.
R$ 510 mil foram encontrados com mulher do deputado
Valéria Linhares já havia entrado no radar da investigação antes das buscas desta segunda-feira.
Em 25 de agosto, a Polícia Federal encontrou R$ 510 mil em dinheiro vivo com a advogada no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
A defesa afirmou na ocasião que o dinheiro era proveniente de pagamentos por serviços advocatícios.
A PF passou a considerar a possibilidade de que pagamentos relacionados ao esquema fossem realizados em espécie, dificultando o rastreamento pelo sistema bancário.
Dino decidiu assumir a relatoria do procedimento relacionado à apreensão do dinheiro e autorizou novas diligências.
O ministro, entretanto, rejeitou um pedido da Polícia Federal para realizar buscas no gabinete de Cezinha na Câmara. Segundo Dino, não havia fundamentação suficiente indicando que o local estivesse sendo utilizado para cometer crimes ou esconder provas.
Cezinha tem trânsito entre bolsonarismo, evangélicos e STF
Cezinha de Madureira construiu sua influência política principalmente a partir da bancada evangélica.
Pastor ligado à Assembleia de Deus Ministério de Madureira, ele já presidiu a Frente Parlamentar Evangélica e foi vice-líder do governo Jair Bolsonaro.
Durante o governo Bolsonaro, tornou-se um dos principais articuladores no Congresso para a aprovação da indicação de André Mendonça ao Supremo.
Cezinha participou ao lado de Michelle Bolsonaro e de lideranças religiosas da comemoração pela aprovação do nome de Mendonça pelo Senado, em dezembro de 2021.
O parlamentar também apareceu ao lado de Jair Bolsonaro em motociatas e manteve interlocução direta com integrantes do núcleo político do ex-presidente.
Em março deste ano, deixou o PSD e se filiou ao PL.
A relação com Mendonça voltou ao centro das atenções recentemente por outro episódio.
Cezinha foi o responsável por intermediar, em março de 2025, um encontro secreto entre André Mendonça e Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.
O encontro ocorreu no Instituto Iter, em São Paulo, antes de Mendonça assumir a relatoria das investigações relacionadas ao banco.
Mendonça confirmou posteriormente a reunião e afirmou que o assunto tratado foi relacionado a precatórios.
Operação ocorre em momento de tensão no Supremo
As buscas contra Cezinha acontecem em um momento particularmente delicado dentro do STF.
Mendonça está no centro da crise envolvendo as investigações sobre o Banco Master e Alexandre de Moraes.
Nesta terça-feira (15), o plenário do Supremo realizará uma sessão extraordinária para analisar o relatório da Polícia Federal produzido a partir do celular de Daniel Vorcaro e que contém mensagens envolvendo Moraes.
Nos bastidores, Mendonça interpretou a operação contra Cezinha como uma tentativa de intimidação relacionada ao confronto instalado dentro da Corte.
A investigação contra o deputado, entretanto, é anterior à atual crise do Master e surgiu a partir da análise de mensagens encontradas no celular de Mariângela Fialek em apurações sobre emendas parlamentares.
A Polícia Federal cumpriu quatro mandados de busca e apreensão nesta segunda-feira em São Paulo e no Distrito Federal.
Agora, entre os pontos que poderão ser esclarecidos pela investigação está o destino do telefone que Cezinha afirma ter perdido três dias antes das buscas e se o episódio teve alguma relação, ou foi apenas uma coincidência, com a operação que já estava em preparação.


