A pressão sobre o ministro André Mendonça para liberar aos demais integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) a íntegra dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro aumentou neste sábado (12).
Depois de Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes cobrarem acesso ao material, Gilmar Mendes também encaminhou ofício ao presidente do STF, Edson Fachin, defendendo que todos os ministros recebam uma cópia integral das informações retiradas do aparelho do ex-controlador do Banco Master.
Gilmar foi além. Caso Mendonça não forneça o material, o decano do Supremo defende que Fachin solicite diretamente à Polícia Federal uma cópia dos dados.
A disputa acontece a três dias da sessão extraordinária marcada para terça-feira (15), quando o plenário deverá analisar um relatório da PF produzido a partir do celular de Vorcaro e que contém mensagens envolvendo Alexandre de Moraes.
Os ministros argumentam que não podem participar do julgamento tendo acesso apenas a relatórios e seleções de mensagens produzidos a partir do aparelho, enquanto a íntegra do material permanece indisponível ao colegiado.
Zanin iniciou cobrança pela íntegra
Cristiano Zanin formalizou na sexta-feira (11) um pedido a Fachin para que todos os ministros tivessem acesso à mídia completa extraída do celular de Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal em novembro de 2025 durante a Operação Compliance Zero.
Até aquele momento, Mendonça havia disponibilizado relatórios produzidos pela PF com base no aparelho, mas não a totalidade dos arquivos.
A diferença é significativa.
A mídia integral pode conter fotografias, vídeos, áudios, notas, documentos, conversas e outros arquivos que não necessariamente aparecem nos relatórios elaborados pelos investigadores.
Zanin argumentou que o conteúdo está diretamente relacionado ao processo que será analisado pelo plenário e que o acesso completo é necessário para que os ministros possam formar suas próprias convicções sobre as provas.
Fachin encaminhou o pedido a Mendonça e solicitou informações sobre a disponibilidade do material.
Mendonça diz que cópia está lacrada
A resposta de Mendonça não resultou na entrega dos dados.
O relator informou que o aparelho original de Vorcaro permanece sob custódia da Polícia Federal e que seu gabinete recebeu apenas uma cópia de segurança dos dados extraídos pela corporação.
Segundo Mendonça, o material foi entregue em um HD criptografado, dentro de um envelope lacrado.
O ministro afirmou que a cópia permanece “lacrada e intocada” desde que chegou ao gabinete.
Mendonça argumentou ainda que a disponibilização indiscriminada dos dados poderia expor informações pessoais e atingir pessoas sem relação com os fatos investigados.
A resposta não convenceu Zanin.
O ministro reiterou o pedido e esclareceu que não estava solicitando o aparelho físico apreendido pela PF, mas justamente a cópia dos dados extraídos dele.
A discussão, portanto, deixou de ser sobre a localização do celular e passou a se concentrar no acesso à mídia digital que contém seu conteúdo.
Gilmar entra na pressão e aponta saída pela PF
Neste sábado, Gilmar Mendes reforçou o pedido de Zanin.
Em ofício enviado a Fachin, o decano afirmou que a situação atual produz uma assimetria entre os integrantes do Supremo.
Gilmar argumenta que todos os ministros precisam conhecer o mesmo conjunto de informações antes de participar do julgamento marcado para terça-feira.
Para ele, permitir que apenas o relator tenha sob sua responsabilidade a íntegra dos dados enquanto os demais recebem relatórios ou “sínteses parciais” compromete a paridade entre os integrantes da Corte e a própria colegialidade do julgamento.
O ministro apresentou ainda uma alternativa caso Mendonça não disponibilize o HD.
Gilmar pediu que Fachin requisite diretamente à Polícia Federal, por meio da Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores, uma cópia dos dados.
O argumento é simples: como o material foi obtido e permanece custodiado pela polícia judiciária, a PF poderia fornecer aos ministros as cópias necessárias independentemente da mídia que se encontra lacrada no gabinete do relator.
Moraes acusa Mendonça de selecionar documentos
A disputa pelo celular ocorre paralelamente a outro confronto sobre o acesso aos documentos do caso Master.
Alexandre de Moraes acusou Mendonça de fazer uma liberação “seletiva e direcionada” do material das investigações.
Segundo Moraes, mesmo depois da determinação de Fachin para ampliar o acesso aos processos, 18 procedimentos e 180 documentos continuavam fora do alcance do colegiado.
Moraes afirmou que não cabe ao relator selecionar quais elementos poderão ser conhecidos pelos demais ministros antes do julgamento.
Mendonça rejeitou a acusação.
Ele afirmou que todas as peças efetivamente disponíveis e que poderiam ser divulgadas foram liberadas e explicou que diferenças entre o número de documentos indicado pelo sistema eletrônico do STF e aqueles acessíveis aos ministros não significam necessariamente ocultação de peças.
Parte dos documentos, segundo o relator, pode ter sido transferida para outros procedimentos, enquanto outros são classificados internamente de maneira diferente.
Mendonça também sustenta que não poderia tornar público todo o conteúdo das investigações porque existem diligências em andamento, além de informações bancárias, fiscais e dados pessoais protegidos por lei.
A controvérsia, porém, ganhou uma dimensão diferente em relação ao celular de Vorcaro.
Os ministros não estão pedindo necessariamente que todo o conteúdo do aparelho seja colocado à disposição do público. A cobrança é para que os próprios integrantes do STF tenham acesso integral às provas antes de julgá-las.
Celular está no centro da crise
O aparelho de Daniel Vorcaro tornou-se uma das principais fontes de provas da investigação sobre o Banco Master.
Foi a partir de mensagens extraídas do celular que vieram à tona contatos do ex-banqueiro com políticos, empresários e integrantes do Judiciário.
Parte desse conteúdo também originou o relatório da Polícia Federal que identificou Alexandre de Moraes como interlocutor de Vorcaro.
A PGR pediu a anulação do documento, enquanto Fachin convocou o plenário para analisar a controvérsia na terça-feira.
É justamente esse julgamento que tornou urgente, para Zanin, Gilmar e Moraes, o acesso à base completa utilizada pelos investigadores.
Gilmar deixou agora uma alternativa sobre a mesa de Fachin: se a íntegra não sair do gabinete de Mendonça, o presidente do Supremo poderá buscá-la diretamente na fonte que realizou a extração e ainda mantém o aparelho original sob custódia, a Polícia Federal.


