O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da China, Xi Jinping, conversaram por telefone na noite de domingo (26) e reafirmaram o interesse em aprofundar a parceria estratégica entre os dois países. A ligação, que durou mais de uma hora, teve como principal destaque a decisão de acelerar as tratativas para um futuro acordo comercial entre o Mercosul e a China, iniciativa considerada uma das prioridades da política externa brasileira para ampliar mercados e reduzir a dependência de parceiros tradicionais.
Segundo nota divulgada pelo Palácio do Planalto, os dois líderes concordaram sobre a necessidade de avançar nas negociações “com as necessárias flexibilidades”, reconhecendo que um eventual acordo deverá atender às particularidades econômicas dos países do bloco sul-americano e da economia chinesa.
A conversa ocorre em um momento de mudanças no cenário do comércio internacional, marcado pelo aumento das tensões geopolíticas e pela busca do governo brasileiro por diversificar mercados para as exportações nacionais. Nos últimos meses, Lula tem defendido a ampliação da rede de acordos comerciais do Mercosul, que já negocia entendimentos com Japão, Canadá, Índia e Vietnã, além de demonstrar interesse em iniciar formalmente as negociações com a China.
Cooperação em tecnologia ganha prioridade
Além do comércio, Lula e Xi reiteraram o compromisso de ampliar a cooperação em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento econômico dos dois países.
Entre os setores destacados estão:
- inteligência artificial;
- tecnologia de satélites;
- beneficiamento de minerais críticos;
- comércio de fertilizantes.
A aproximação ocorre em um contexto de crescente competição tecnológica entre China e Estados Unidos e reforça a intenção brasileira de ampliar investimentos em inovação e infraestrutura, mantendo diálogo com diferentes parceiros internacionais.
Os presidentes também avaliaram positivamente iniciativas bilaterais já implementadas, como a isenção recíproca de vistos para viagens de curta duração, em vigor desde maio, e as atividades promovidas pelo Ano Cultural Brasil-China 2026, voltadas ao intercâmbio cultural, turístico e acadêmico entre os dois países.
Xi manifesta apoio ao Brasil diante de “interferências externas”
De acordo com a agência oficial chinesa Xinhua, Xi Jinping afirmou que Pequim apoia o Brasil na defesa de sua soberania e independência e se opõe a “interferências externas”. Embora o comunicado chinês não cite diretamente os Estados Unidos, a declaração ocorre em meio às recentes tensões comerciais entre Brasília e Washington e ao aumento das tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros.
Xi também afirmou que Brasil e China, como importantes representantes do Sul Global, devem fortalecer a coordenação estratégica tanto nas relações bilaterais quanto nos organismos multilaterais e desempenhar papel mais ativo na reforma da governança global.
Conflitos internacionais preocupam líderes
Durante a conversa, Lula e Xi dedicaram parte significativa do diálogo aos principais conflitos internacionais e seus reflexos sobre a economia mundial.
Os dois presidentes demonstraram preocupação com a continuidade da crise humanitária na Faixa de Gaza e alertaram para os impactos da instabilidade no Oriente Médio sobre a segurança alimentar, energética e o comércio internacional.
Os líderes também chamaram atenção para as restrições à navegação nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb, rotas consideradas estratégicas para o transporte global de petróleo e mercadorias, cuja instabilidade pode provocar aumento dos custos logísticos e pressionar os preços internacionais.
Defesa do multilateralismo
Outro tema discutido foi a guerra entre Rússia e Ucrânia.
Lula e Xi voltaram a defender o papel do Grupo de Amigos da Paz, iniciativa diplomática liderada por Brasil e China no âmbito das Nações Unidas para incentivar negociações entre as partes e buscar uma solução negociada para o conflito.
Os dois presidentes também criticaram a dificuldade do Conselho de Segurança da ONU em responder às crises internacionais e reafirmaram o compromisso com o fortalecimento do multilateralismo e da coordenação entre os países em fóruns como a ONU e o BRICS.
A conversa reforça a aproximação entre Brasília e Pequim em um momento de reconfiguração das relações econômicas globais. Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Brasil e responde por uma parcela significativa das exportações brasileiras, especialmente de soja, minério de ferro, petróleo e proteínas animais. A perspectiva de um acordo entre Mercosul e China poderá representar um dos maiores avanços da agenda comercial do bloco sul-americano nas próximas décadas, embora as negociações ainda estejam em fase inicial.


