O bloqueio de R$ 6,15 milhões em bens do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos), determinado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), lança novos holofotes sobre um personagem que tenta reconstruir sua carreira política longe do estado onde construiu sua trajetória.
Depois de quatro mandatos como deputado federal pelo Rio de Janeiro, da cassação do mandato, da prisão na Operação Lava Jato e de uma candidatura frustrada por São Paulo em 2022, Cunha agora aposta em Minas Gerais para tentar retornar à Câmara dos Deputados.
Desta vez, sua estratégia passa pela aproximação com o eleitorado evangélico mineiro, segmento que marcou o início de sua ascensão política no Rio de Janeiro e que volta a ocupar posição central em seu projeto eleitoral.
Rádios evangélicas e articulação religiosa
Nos últimos meses, Eduardo Cunha ampliou sua presença em Minas Gerais por meio da aquisição de emissoras de rádio com programação voltada ao público evangélico e da compra de horários em outras emissoras religiosas. Segundo reportagens publicadas ao longo deste ano, o movimento reproduz a estratégia utilizada por ele no início da carreira política no Rio de Janeiro, quando construiu forte influência junto ao segmento evangélico.
Além da expansão no setor de radiodifusão, Cunha passou a aparecer com frequência em agendas públicas ao lado de pastores e lideranças religiosas em diferentes cidades mineiras, participando de cultos e eventos promovidos por igrejas com atuação em diversas regiões do estado. Também tem utilizado essas emissoras para divulgar entrevistas e agendas políticas.
O objetivo é ampliar seu conhecimento junto ao eleitorado mineiro, já que toda sua trajetória parlamentar foi construída fora de Minas.
Do Rio para Minas
Natural do Rio de Janeiro, Eduardo Cunha foi deputado federal entre 2003 e 2016 sempre eleito pelo estado fluminense.
Foi naquele ambiente político que alcançou o comando da Câmara dos Deputados, ganhou projeção nacional ao conduzir o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e, posteriormente, viu sua carreira ruir em meio às investigações da Operação Lava Jato.
Após perder espaço no Rio de Janeiro, onde seu grupo político deixou de exercer a influência de outros tempos, Cunha buscou um novo caminho eleitoral.
Em 2022 tentou uma vaga na Câmara por São Paulo, mas teve votação inexpressiva recebendo apenas 5.044 votos.
Agora, aposta em Minas Gerais, estado onde tenta criar seu primeiro vínculo político.
Investigação reforça questionamentos
A tentativa de estabelecer uma base política em Minas ocorre justamente enquanto Cunha é investigado por supostamente direcionar recursos públicos para municípios mineiros sem possuir mandato parlamentar.
Segundo a Polícia Federal, ele teria utilizado a estrutura administrativa da Câmara dos Deputados para indicar, de forma indireta, 21 emendas parlamentares, que somam aproximadamente R$ 6,15 milhões.
As indicações teriam sido operacionalizadas por meio da servidora Mariângela Fialek, a Tuca, responsável pelo registro das emendas parlamentares, embora somente deputados e senadores em exercício possam realizar oficialmente esse procedimento.
Foi com base nesses elementos que Flávio Dino determinou o bloqueio dos bens do ex-deputado.
“Nunca teve vinculação política com Minas”
Na decisão, Flávio Dino chamou atenção justamente para a ausência de vínculos políticos de Eduardo Cunha com Minas Gerais.
Segundo o ministro, o ex-presidente da Câmara nunca exerceu atividade parlamentar pelo estado e os elementos reunidos pela investigação não demonstram uma atuação política legítima que justificasse a influência na destinação de recursos públicos.
Dino foi além ao registrar que Cunha, em mensagens analisadas durante a investigação, demonstrava pouca identificação com o estado.
“Nunca teve vinculação política com o Estado de Minas Gerais. Pelo contrário, em algumas passagens simboliza manter pouco apreço pelo Estado e pelos prefeitos com quem mantinha interlocução”, escreveu o ministro na decisão.
Defesa nega irregularidades
A defesa de Eduardo Cunha afirmou que o ex-deputado ainda não havia sido chamado a prestar esclarecimentos no inquérito e negou qualquer irregularidade na indicação de emendas.
Os advogados sustentam que ele não praticou atos ilícitos e afirmam que a defesa apresentará sua manifestação no decorrer da investigação.


