A Polícia Federal deflagrou na manhã desta terça-feira (23) a Operação Miragem, que investiga suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).
A operação mobilizou mais de 50 policiais federais para o cumprimento de nove mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça Federal em São Paulo. Também foram determinadas medidas de bloqueio e sequestro de bens que podem alcançar R$ 670,3 milhões, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.
Embora não tenha sido alvo de mandado de busca, Edir Macedo aparece entre os investigados em razão de sua condição de controlador da instituição financeira. Segundo informações da investigação, ele também foi incluído nos pedidos de bloqueio patrimonial e de afastamento de sigilos. Como reside fora do Brasil, a Polícia Federal não solicitou medidas de busca em sua residência.
Relatórios do Banco Central deram origem à investigação
As apurações tiveram início a partir da análise de documentos e relatórios produzidos pelo Banco Central do Brasil, que apontaram indícios de graves irregularidades na condução dos negócios da instituição.
Segundo a Polícia Federal, há suspeitas de que administradores do banco tenham promovido manipulações sistemáticas de balanços e demonstrações financeiras para ocultar a real situação econômica da empresa e transmitir ao mercado uma aparência de solidez financeira.
Os investigadores afirmam que ativos teriam sido supervalorizados e receitas registradas de forma artificial, criando uma percepção de solvência incompatível com a realidade financeira da instituição.
A suspeita é que essas práticas tenham movimentado centenas de milhões de reais ao longo dos últimos anos.
Banco pertence ao fundador da Igreja Universal
O Digimais está sob controle de Edir Macedo desde 2020, quando o empresário e líder religioso assumiu integralmente a instituição financeira.
Fundador da Igreja Universal do Reino de Deus em 1977, Macedo construiu ao longo das últimas décadas um conglomerado que reúne atividades religiosas, veículos de comunicação, empresas de tecnologia e operações financeiras.
Antes de receber a marca Digimais, o banco operava como Banco Renner, instituição criada em Porto Alegre e posteriormente adquirida pelo grupo ligado ao bispo.
Nos últimos anos, o Digimais passou a concentrar sua atuação no segmento digital, oferecendo contas, cartões, crédito e serviços financeiros para pessoas físicas e empresas.
Comparações com outros casos do setor financeiro
A investigação também apura operações consideradas de alto risco e supostamente realizadas em benefício da empresa controladora da instituição.
Segundo a Polícia Federal, algumas práticas identificadas apresentam características semelhantes às investigadas em outros casos recentes envolvendo instituições financeiras de médio porte.
Além das suspeitas de gestão fraudulenta, os investigadores analisam possíveis inserções de dados falsos em sistemas regulatórios e operações de crédito que poderiam contrariar normas do Sistema Financeiro Nacional.
Negociação de venda ficou no caminho
O banco vinha passando por um processo de reestruturação e mudança de controle nos últimos anos.
Em abril deste ano, o BTG Pactual anunciou a assinatura de um acordo para aquisição do Digimais. A operação, no entanto, dependia da aprovação dos órgãos reguladores e da conclusão de etapas previstas no processo de venda.
Até o momento, a transferência de controle não foi concluída.
Investigação está em fase inicial
Os investigados poderão responder por crimes como gestão fraudulenta de instituição financeira, inserção de informações falsas em demonstrativos contábeis e realização de operações vedadas pela legislação bancária.
A Polícia Federal ressalta que a investigação ainda está em andamento e que os fatos serão aprofundados a partir da análise dos documentos e equipamentos apreendidos durante a operação desta terça-feira.
Até o momento, não houve denúncia formal apresentada pelo Ministério Público nem julgamento sobre os fatos investigados.





