O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, criticou duramente nesta sexta-feira (29) a atuação de integrantes da família Bolsonaro junto ao governo dos Estados Unidos para defender a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Durante agenda em Caraguatatuba, Alckmin afirmou que a movimentação teria sido utilizada como uma tentativa de desviar a atenção das denúncias envolvendo o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro.
“Infelizmente, membros do clã Bolsonaro pensam mais em si do que no país. Para sair desse tema do Banco Master, o maior caso de corrupção e sonegação de tributos, ficam gerando factoides”, declarou o vice-presidente.
A fala ocorreu um dia após o governo dos Estados Unidos anunciar oficialmente a inclusão do PCC e do Comando Vermelho na lista de organizações terroristas estrangeiras, medida que passará a valer a partir de 5 de junho.
Governo vê risco para economia e sistema financeiro
Além das críticas políticas, Alckmin demonstrou preocupação com possíveis impactos econômicos decorrentes da decisão americana.
Segundo ele, a medida não representa avanço concreto no enfrentamento ao crime organizado e pode gerar consequências para o sistema financeiro brasileiro.
“Isso é ruim para o Brasil. Pode ter consequências na área do sistema financeiro, na área da economia. Não vai resolver nada em termos de combate ao crime e pode prejudicar a economia”, afirmou.
Nos bastidores do governo federal, integrantes da área econômica e diplomática acompanham com preocupação os desdobramentos da decisão anunciada por Washington.
A avaliação é que a classificação pode ampliar mecanismos de controle financeiro internacional, elevar exigências para operações bancárias e aumentar a pressão sobre instituições que mantenham relações com setores eventualmente investigados por autoridades americanas.
Encontro de Flávio com Trump antecedeu anúncio
A decisão dos Estados Unidos ocorreu poucos dias após o senador Flávio Bolsonaro se reunir em Washington com o presidente Donald Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio.
O próprio senador afirmou publicamente que solicitou ao governo americano que classificasse PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas.
A medida foi anunciada oficialmente dois dias após o encontro.
O episódio ampliou a tensão política entre governo e oposição e gerou críticas de integrantes do Palácio do Planalto, que passaram a acusar aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro de buscar apoio externo para pautas relacionadas à segurança pública brasileira.
Banco Master entra no centro da disputa política
As declarações de Alckmin também recolocaram o caso do Banco Master no centro do debate político.
Nas últimas semanas, reportagens publicadas pelo The Intercept Brasil divulgaram mensagens e áudios de Flávio Bolsonaro em negociações com Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Segundo as reportagens, o projeto previa investimentos de aproximadamente R$ 134 milhões, dos quais parte já teria sido liberada.
O caso passou a ser explorado por adversários políticos como um dos principais focos de desgaste da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
Debate sobre soberania ganha força
A classificação das facções brasileiras como organizações terroristas também provocou reações dentro do governo Lula por outro motivo: o temor de que a medida abra espaço para maior interferência americana em assuntos internos do Brasil.
Especialistas em relações internacionais e integrantes do governo avaliam que a nova classificação fortalece instrumentos jurídicos utilizados pelos Estados Unidos para atuar em investigações financeiras internacionais e ampliar ações ligadas ao combate ao chamado “narcoterrorismo”.
A preocupação aumentou porque a política externa do segundo mandato de Donald Trump tem ampliado o uso desse conceito em operações na América Latina.
Nos últimos meses, forças americanas realizaram ações militares no Caribe sob justificativa de combate ao terrorismo ligado ao tráfico internacional. A operação que resultou na captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro também foi apresentada por Washington dentro dessa estratégia de enfrentamento ao narcoterrorismo.
Embora não exista qualquer indicação oficial de ação semelhante envolvendo o Brasil, integrantes do governo avaliam que a nova classificação cria um precedente diplomático considerado delicado para a soberania nacional.
Governo defende combate interno às facções
Apesar das divergências sobre a medida americana, o governo brasileiro sustenta que o combate ao PCC e ao Comando Vermelho já vem sendo ampliado por meio de operações policiais, ações de inteligência financeira e novas legislações.
Alckmin destacou que o país aprovou recentemente a chamada Lei Antifacção e afirmou que as instituições brasileiras possuem capacidade para enfrentar o crime organizado sem necessidade de interferência externa.
“O combate ao crime organizado é feito por terra, mar e ar”, declarou o vice-presidente.






