A quinta fase da Operação Compliance Zero colocou o senador Ciro Nogueira no centro do maior escândalo financeiro investigado atualmente pela Polícia Federal. Autorizada pelo ministro André Mendonça, a nova etapa da operação avançou sobre o chamado “núcleo político” do esquema envolvendo o antigo Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro.
A investigação aponta suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Pela primeira vez desde o início da Compliance Zero, a PF mira diretamente um senador da República e presidente nacional de um dos principais partidos do Centrão.
Na manhã desta quinta-feira (7), agentes federais cumpriram mandados de busca e apreensão ligados ao parlamentar no Distrito Federal e no Piauí. A operação também teve ações em São Paulo e Minas Gerais, além da prisão temporária do empresário Felipe Cançado Vorcaro, primo e operador financeiro do banqueiro Daniel Vorcaro.
Segundo documentos enviados pela PF ao STF, os investigadores identificaram mensagens que indicariam pagamentos mensais recorrentes destinados ao senador. Em diálogos interceptados entre Daniel Vorcaro e Felipe Cançado, os investigados discutem atrasos em repasses e valores destinados a “Ciro”. Em uma das conversas, Felipe pergunta ao banqueiro: “Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”, em referência ao suposto valor da chamada “mesada”.
As investigações apontam que os pagamentos ocorreriam por meio de estruturas empresariais ligadas à BRGD S.A., empresa controlada pela família Vorcaro, e pela CNLF Empreendimentos, ligada ao entorno familiar do senador. O irmão de Ciro Nogueira, Raimundo Nogueira, também foi alvo de mandados de busca na operação desta quinta-feira.
Além das suspeitas de repasses financeiros, a Polícia Federal afirma ter identificado indícios de utilização do mandato parlamentar em favor dos interesses do Banco Master. O principal foco da investigação é uma emenda apresentada por Ciro Nogueira à PEC 65/2023, protocolada no Senado em agosto de 2024.
A proposta previa elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Segundo a PF, a medida beneficiaria diretamente o Banco Master, que operava oferecendo títulos com rentabilidade acima da média do mercado, sustentados justamente pela proteção do FGC.
Os investigadores afirmam que o texto da emenda teria sido elaborado pela própria assessoria do banco e entregue pessoalmente ao senador em um envelope. Em mensagens interceptadas, Daniel Vorcaro teria comemorado que a proposta “saiu exatamente como mandei”. Integrantes do banco avaliavam que a mudança poderia “sextuplicar” os negócios da instituição.
Além da atuação legislativa, a PF também apura operações societárias consideradas suspeitas envolvendo empresas ligadas ao senador. Uma delas envolve a compra de participação na Green Investimentos S.A. por um valor considerado incompatível com o mercado, o que pode configurar vantagem patrimonial indevida.
A decisão do ministro André Mendonça também determinou medidas cautelares contra Ciro Nogueira, incluindo proibição de contato com investigados e testemunhas da operação. O STF ainda autorizou bloqueio de R$ 18,85 milhões em bens, direitos e valores ligados aos alvos da nova fase da Compliance Zero.
Deflagrada inicialmente em 2025, a Operação Compliance Zero investiga um esquema bilionário envolvendo emissão de títulos sem lastro, manipulação financeira, lavagem de dinheiro e uso político de estruturas empresariais ligadas ao Banco Master. O banqueiro Daniel Vorcaro já foi preso em fases anteriores da investigação, assim como operadores financeiros, empresários e ex-dirigentes do sistema bancário.
Ao longo das primeiras fases da operação, a Justiça já determinou bloqueios patrimoniais que ultrapassam R$ 27 bilhões. A investigação também alcançou o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, preso preventivamente em abril deste ano.
Em nota divulgada à imprensa, a defesa de Ciro Nogueira afirmou que o senador está à disposição das autoridades e que pretende colaborar para esclarecer os fatos. Os advogados sustentam que o parlamentar “não teve qualquer participação em atividades ilícitas”.





