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Home Colunas

Quando se faz poesia

Por Redação
17 de abril de 2026 - 07:58
em Colunas

Crédito: Sarah Mae | Unsplash

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Quando a gente faz poesia, a gente inventa. Inventa histórias, romances e lugares aonde nunca iremos. Às vezes, até inventamos uma coisa triste só para poder falar de tristezas quando, logo depois, vamos para um lugar alegre, deixando a tristeza para quem lê. Ou inventamos alegrias só para esconder nossas tristezas, e as gentes acreditam que estamos alegres, só que não estamos não.

Às vezes, inventamos que alguém nos ouve, a bailar com as palavras doces, buscando rimas, formando versos, esperando a hora de dizer nos ouvidos certos, o improviso que a gente já fez antes.

Às vezes a gente só está querendo desabafos, desses que parecem gritar pelas janelas, mas falta coragem. Outras vezes a gente só vai escrevendo versos e palavras, que no fundo não querem dizer nada, só um poema que vai desenrolando como se fosse um novelo pelo chão a distrair um gato. O duro é quando a gente cisma que isso é poesia, quando, no fundo, é só versalhada.

Outras vezes parece que é uma coisa ritmada, que vai numa cadência, parece que numa batucada, e vai ficando pra lá de animada, essa coisa lúdica, brincada, e descobrimos que estamos fazendo letra de música, e de poesia não tem nada.

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E a papelada vai se acumulando, com um monte de versos a subir na mesa, que a gente esquece que é poeta e, no fundo, somos apenas escribas a enganar a gente mesmo.

Tem de tudo nesta vida e todo mundo, de repente, sabe de tudo: é receita de médico que cura tudo, essas coisas de doença, é solução dos problemas do mundo, economia, antropologia, sociologia, todo mundo tem o caminho certo, para que o mundo melhore. Tem gente que até a vontade de Deus sabe, e cabe direitinho no que a pessoa pensa.

Mas, poeta, gente, é diferente. Não acha pelos cantos, ou sai da faculdade, pronto. O poeta não nasce, ele é nascido, já vem de berço, quando a menina ou o menino parecem enxergar diferente o que o mundo acha o mesmo.

O poeta é um tipo de fênix que se deixa queimar por dentro e começa a brotar palavras, como brotoeja que se alastra, uma alergia que não cabe dentro de si. O poeta é um mágico que tira da cartola, da manga, sei lá de onde, uma maneira de falar que não esconde, um espírito que lhe adentra, se assenta e deita a falar de mundos distantes.

Fala de amantes que teve e que nunca tocou, e parece que deu beijos longos e deixou saudades que não houve. Poeta aparece assim, de repente, nem ele sabe que é. E sai inventando histórias de amor que não teve, fala em três palavras tanta coisa, que parece aquela pílula que a gente toma, danada de pequena, mas que quando entra dá um alívio estranho e se espalha no corpo da gente.

É um médico, o poeta, só ele que fabrica o remédio e nem sabe quem toma. Somente quando se abre o livro, é que o paciente percebe que uma doença que não sabe existir, lhe toma.

Tags: ColunaliteraturaNilson LattaripoesiaReflexão
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