As cenas de destruição das sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF), em 8 de janeiro de 2023, marcaram um dos episódios mais graves da história republicana brasileira. Três anos depois, a data segue como símbolo de uma tentativa organizada de ruptura democrática.
Os ataques não surgiram de forma espontânea. Eles foram o desfecho de um processo iniciado antes mesmo do fim das eleições de 2022, marcado pela negação do resultado das urnas, pela omissão deliberada do então presidente, pelo engajamento político-religioso e por uma sequência de atos golpistas e violentos espalhados pelo país.
A negação do resultado e o silêncio presidencial
No segundo turno das eleições, realizado em 30 de outubro de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva venceu Jair Bolsonaro com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1%. O resultado foi reconhecido por observadores internacionais, tribunais eleitorais e lideranças políticas, mas nunca foi formalmente reconhecido por Bolsonaro.
O então presidente levou dois dias para se pronunciar e, quando o fez, evitou parabenizar o adversário ou reconhecer a derrota. O discurso ambíguo serviu como combustível para narrativas de fraude eleitoral, amplamente difundidas por apoiadores e grupos extremistas.
Em dezembro, Bolsonaro deixou o Brasil e seguiu para os Estados Unidos, recusando-se a participar da cerimônia de posse e da tradicional entrega da faixa presidencial, gesto que simboliza a transição democrática. A ausência reforçou o clima de instabilidade institucional e foi interpretada como mais um sinal de ruptura.
Bloqueios de rodovias após a eleição
Ainda na noite do resultado eleitoral, grupos de caminhoneiros e apoiadores do ex-presidente iniciaram bloqueios de rodovias federais em diversos estados. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, mais de mil interdições totais ou parciais foram registradas nos dias seguintes.
Os bloqueios provocaram atrasos no abastecimento, cancelamentos de voos e transtornos logísticos. Bolsonaro chegou a pedir publicamente a liberação das estradas, mas sem reconhecer a legitimidade da vitória de Lula. Os protestos perderam força ao longo da primeira semana de novembro.

Acampamentos em quartéis e mobilização religiosa
Com o enfraquecimento dos bloqueios, o foco do movimento passou para acampamentos montados em frente a quartéis das Forças Armadas. Mais de cem estruturas foram registradas em todo o país, com destaque para o acampamento instalado diante do Quartel-General do Exército, em Brasília.
Esses locais se transformaram em centros permanentes de mobilização golpista, com pedidos explícitos de intervenção militar. Um elemento central desse processo foi o envolvimento de lideranças religiosas, especialmente de setores do evangelicalismo político.
Pastores e líderes de igrejas evangélicas participaram ativamente da organização dos atos, promovendo cultos nos acampamentos, incentivando a permanência dos fiéis e tratando a disputa eleitoral como uma batalha espiritual. Ônibus foram fretados por igrejas e grupos religiosos para levar manifestantes aos quartéis, segundo investigações posteriores.
A Procuradoria-Geral da República apontou que os acampamentos contaram com tolerância e conivência de autoridades, além de aval direto do então presidente, que os utilizava como instrumento de pressão institucional.
Dezembro violento: atentados e tentativa de caos social
O ambiente de radicalização avançou para violência política aberta em dezembro de 2022. No dia 12, data da diplomação de Lula no Tribunal Superior Eleitoral, Brasília viveu uma das noites mais violentas de sua história recente. Ônibus e carros foram incendiados, vias centrais bloqueadas e houve tentativa de invasão da sede da Polícia Federal.
Poucos dias depois, na véspera de Natal, um episódio ainda mais grave quase resultou em tragédia. Um artefato explosivo foi instalado em um caminhão-tanque carregado de combustível, estacionado nas proximidades do Aeroporto Internacional de Brasília.
A explosão só não ocorreu porque o motorista realizou a inspeção de rotina antes de sair com o veículo e identificou o artefato, acionando a polícia. A falha do plano evitou um desastre de grandes proporções, com potencial de mortes em massa.
As investigações apontaram que os responsáveis estavam ligados ao acampamento golpista do QG do Exército e pretendiam provocar comoção social para justificar uma intervenção militar. Os envolvidos se tornaram réus no STF por tentativa de golpe, associação criminosa e atentado contra a segurança do transporte aéreo.
O 8 de janeiro e a invasão dos Três Poderes
Mesmo após a posse presidencial, em 1º de janeiro de 2023, os acampamentos permaneceram ativos. Uma semana depois, milhares de manifestantes marcharam pela Esplanada dos Ministérios, romperam barreiras policiais e invadiram simultaneamente o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o STF. Um movimento orquestrado.
Obras de arte foram destruídas, prédios históricos depredados e documentos violados. O episódio resultou na prisão de centenas de pessoas e em uma ampla ofensiva judicial que levou à condenação de Bolsonaro e aliados por tentativa de golpe de Estado.
Memória, justiça e democracia
Três anos depois, o Supremo Tribunal Federal e o governo federal realizam cerimônias e atos simbólicos para marcar a data. O objetivo é preservar a memória dos fatos e reafirmar o compromisso com o Estado Democrático de Direito.






