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Home Colunas

Xangô: mestre de harmonia

Por Lenin Novaes
14 de junho de 2023 - 12:41
em Colunas

Competência e liderença marcaram o estilo único de Xangô da Mangueira como diretor de harmonia. Divulgação. - 

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– Marineth, sem qualquer analogia, Xangô da Mangueira está para a Estação Primeira de Mangueira, assim, como Zico para o Flamengo ou Roberto Dinamite para o Vasco da Gama. Ele teve participação direta em muitos dos 20 títulos de campeã da agremiação verde-e-rosa. Olivério Ferreira, que substituiu Cartola à frente de importante quesito nos desfiles, tornou-se uma lenda no samba. Este 2023 marca o centenário de nascimento do sambista, que se consagrou como diretor de harmonia e conquistou o título de Rei do Partido Alto, devido ao talento de compositor.

– Ele foi o cantor oficial de samba-enredo da escola até 1951, Athaliba, antes de Jamelão – José Bispo Clementino dos Santos – assumir a função e ganhar notoriedade, conquistando prêmios de Estandarte de Ouro, entre outros. Bispo detonou a expressão “puxador de samba”, usada indevidamente pela imprensa em geral, a renomeando “intérprete de samba enredo”.

– Foi isso mesmo, Marineth. Em 1952 Xangô ingressou na ala de compositores da escola. É Autor de mais de uma centena de músicas e gravou quatro discos na década 1970. Martinho da Vila, Clara Nunes e Roberto Ribeiro gravaram músicas dele. Imortalizou-se como diretor de harmonia, por mais de meio século conduzindo a escola no desfile. A harmonia é, quiçá, o quesito mais peculiar entre todos no rol de julgamento que afere o desfile da escola. Sincroniza a bateria, o samba-enredo, a evolução, a comissão de frente e a dança do mestre-sala e porta-bandeira. Enfim, a harmonia cobre toda a escola, desde a concentração, atravessando a passarela, até a área de dispersão. Se a harmonia falhar, a escola de samba desanda no conjunto, na evolução.

– Xangô, antes da Mangueira, passou por outras escolas de samba, Athaliba?

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– Marineth, ele nasceu 19/1 de 1923 no Rio de Janeiro, onde morreu em 7/1 de 2009, com 85 anos. O início da trajetória foi na União de Rocha Miranda. Alçou vôo à Portela, tendo proteção de Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela, principal estruturador das escolas de samba. E o seguiu à Lira do Amor, quando ele se desvinculou da azul-e-branco da propalada capital do samba, Madureira. Depois teve a indicação dele para ingressar na Mangueira.

– Athaliba, ele é venerado na agremiação a que se dedicou por mais de meio século, à qual ajudou a conquistar títulos e a popularizar como uma das principais escolas de samba?

– Marineth, o saudoso Waldinar Ranulpho, o Meu Senhor, principal colunista de samba de todos os tempos, no jornal Última Hora, dizia que Xangô vivia no anonimato. É que, à época, a mídia exaltava Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Sargento e Nelson Cavaquinho, em detrimento de outras figuras de expressão. Por exemplo, como meu inesquecível amigo Darcy Fernandes Monteiro, o Darcy da Mangueira, músico, cantor e compositor. Ele é um dos autores dos sambas “O mundo encantado de Monteiro Lobato” e “Samba, festa de um povo” que deram título à escola.

– Athaliba, a porta-bandeira Vilma Nascimento diz que foi o Waldinar que lhe deu o apelido de Cisne da Passarela. Ela substituiu a Dodô da Portela, Maria das Dores Alves Rodrigues, em 1957, que ganhou 11 dos 21 títulos de que participou na azul-e-branco como porta-bandeira. Qual é a origem do apelido do Olivério? Ele tem biografia publicada em livro?

– Marineth, o saudoso jornalista José Carlos Rego, autor do indispensável livro Dança do samba, exercício do prazer, teve interrompido o trabalho de publicar a biografia do sambista. Acompanhei algumas das entrevistas gravadas em fita K-7 no 11º andar do prédio da Associação Brasileira de Imprensa – ABI. Mas, a publicação foi inviabilizada devido a “ruído” incontornável no núcleo familiar do Olivério. O apelido, simbolizado ao orixá, ele recebeu de um colega de trabalho na fábrica de tecidos Nova América, o qual apelidou de Macumba. Este, então, disse a ele: “Já que meu apelido é Macumba, o seu é Xangô”.

– Athaliba, diz-se que o diretor de harmonia era de extraordinária paciência e afabilidade. E que nunca xingou ou desrespeitou componentes da escola no percurso do desfile ou mesmo nos ensaios. Ao contrário de outros, como ocorrera no Salgueiro, em que um diretor utilizava vara de marmelo “para ordenar componentes no desfile”. Ele, depois, se encaixou como luva na Beija-Flor.

– Marineth, o estilo do Xangô em conduzir a escola impressionava pela competência e liderança natural. Era como se estivesse em todas as partes da escola ao mesmo tempo, afinado com auxiliares. Integrantes da escola, inclusive, dizem que ele merecia ser o tema da agremiação no Carnaval de 2024. Ou mesmo a Leci Brandão. Ambos são verde-e-rosa de quatro costados.

Tags: ColunaEstação Primeira de MangueiraJamelãoLenin NovaesXangôXangô da Mangueira
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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