Minas Gerais confirmou no segundo turno uma das principais viradas da eleição presidencial. Depois de perder para Flávio Bolsonaro (PL) no estado por quase 589 mil votos no primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reverteu a diferença e terminou a votação deste domingo (25) com 109.313 votos de vantagem.
No primeiro turno, Flávio recebeu 5.777.548 votos, ou 48,24% dos válidos, contra 5.188.936 votos, 43,33%, de Lula. A vantagem do candidato do PL era de 588.612 votos.
Três semanas depois, o cenário mudou. Lula chegou a 6.351.099 votos, 50,43%, enquanto Flávio terminou com 6.241.786 votos, 49,57%. O petista acrescentou 1.162.163 votos à votação do primeiro turno. Flávio ganhou outros 464.238.
Minas Gerais foi o único estado do país em que houve mudança do vencedor entre os dois turnos. Lula também virou sobre Flávio em 76 municípios mineiros e terminou na frente em 528 das 853 cidades do estado.
A mudança ocorreu em um segundo turno no qual não havia mais disputa pelo governo estadual, encerrada no primeiro turno com a eleição de Cleitinho Azevedo (Republicanos). Lula manteve a mobilização de sua estrutura partidária e realizou atos em Minas, incluindo Juiz de Fora e Ipatinga.
Do outro lado, Flávio chegou ao segundo turno com o apoio declarado de Cleitinho e também do ex-governador Romeu Zema (Novo), que após ser eliminado da disputa presidencial anunciou voto no candidato do PL e afirmou que sua prioridade era derrotar Lula e o PT.
Zema recebeu 0,82% em Minas
O resultado do segundo turno acrescentou mais um dado ao desempenho eleitoral do grupo político ligado a Romeu Zema em 2026.
Depois de deixar antecipadamente o governo de Minas para disputar a Presidência, Zema recebeu apenas 326.488 votos em todo o Brasil, equivalentes a 0,27% dos votos válidos.
O desempenho foi ainda mais significativo quando observado seu principal reduto eleitoral. Em Minas Gerais, estado que governou por sete anos e onde havia sido reeleito governador em primeiro turno quatro anos antes, Zema recebeu 98.407 votos, ou 0,82% dos válidos. Não venceu em nenhum município mineiro.
Eliminado no primeiro turno, ele passou a fazer campanha para Flávio Bolsonaro. “Voto contra o PT, voto no Flávio Bolsonaro”, afirmou ao anunciar formalmente seu apoio no dia seguinte à votação.
A transferência de apoio, porém, não impediu que Flávio perdesse justamente Minas Gerais, onde havia terminado o primeiro turno com quase 589 mil votos de vantagem.

Projeto de continuidade também foi derrotado
O resultado da disputa pelo governo mineiro já havia produzido outro revés para o grupo de Zema.
Mateus Simões (PSD), vice-governador eleito ao lado de Zema em 2022 e que assumiu definitivamente o Palácio Tiradentes em março, apresentou sua candidatura como continuidade da administração anterior. O próprio Zema, ao deixar o governo, declarou que Simões era o nome capaz de dar sequência ao projeto iniciado por sua gestão.
Simões entrou na eleição com a maior coligação da disputa e o maior tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão, com 2 minutos e 46 segundos em cada bloco.
Nas urnas, porém, recebeu 530.284 votos, 4,65% dos válidos, e terminou em quarto lugar. Cleitinho foi eleito no primeiro turno com 55,40% e mais de 6,3 milhões de votos. Patrus Ananias (PT) ficou em segundo, com 26,34%, seguido por Flávio Roscoe (PL), com 6,97%.
O resultado deixou o candidato associado à continuidade da gestão Zema atrás até mesmo do candidato do PL, apesar da estrutura partidária maior e do maior tempo de televisão.
Oposição a Lula marcou últimos anos de governo
Romeu Zema transformou a oposição ao governo federal em um dos principais eixos de sua atuação política nos últimos anos. Durante a própria campanha presidencial, chegou a afirmar que sua “vida política” era combater o PT e manteve esse discurso ao aderir a Flávio no segundo turno.
Um dos episódios de maior repercussão ocorreu em fevereiro de 2025, quando Zema publicou um vídeo comendo banana com casca para ironizar a alta dos preços dos alimentos e criticar o governo Lula. O governador dizia que consumir a fruta daquela maneira poderia ser uma alternativa para economizar.
A gravação provocou críticas inclusive dentro da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Parlamentares questionaram a abordagem adotada pelo governador e cobraram respostas para problemas estaduais. O episódio voltou a aparecer posteriormente na disputa política mineira.
Adversários também recuperaram durante o período eleitoral o reajuste salarial aprovado durante o governo Zema. Em 2023, ele defendeu uma proposta que elevava gradualmente seu salário de aproximadamente R$ 10,5 mil para R$ 41,8 mil, variação de cerca de 298%.
Na campanha de 2026, Patrus Ananias chegou a utilizar tanto o episódio da banana quanto o aumento salarial em peças eleitorais contra o grupo político do então ex-governador.
Três resultados para Zema
As urnas de 2026 deixaram três números objetivos para medir o desempenho eleitoral do projeto político liderado por Romeu Zema em Minas.
O ex-governador recebeu 0,82% dos votos para presidente entre os mineiros. Mateus Simões, seu sucessor e candidato da continuidade ao governo estadual, terminou com 4,65%. E Flávio Bolsonaro, candidato que recebeu seu apoio no segundo turno, perdeu em Minas depois de começar a disputa com vantagem de quase 589 mil votos sobre Lula.
Lula fez o caminho inverso: saiu de 5,18 milhões para 6,35 milhões de votos em Minas, ganhou mais de 1,16 milhão de votos entre os turnos e transformou a derrota do primeiro turno em uma vitória por 109.313 votos.


