A situação do ministro André Mendonça como relator das investigações sobre o Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (2), após vir a público que ele próprio também manteve uma reunião privada com Daniel Vorcaro.
O encontro foi revelado pelo jornalista Paulo Motoryn em reportagem publicada pelo ICL Notícias. A apuração, baseada em mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro, mostra que a aproximação com Mendonça foi articulada durante semanas pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).
Após a publicação, Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro “uma única vez”, em março de 2025, e afirmou que se limitou a ouvi-lo.
A revelação chama atenção porque Mendonça é atualmente o relator das investigações do caso Master e, nos últimos dias, determinou o aprofundamento das apurações sobre os contatos mantidos por Vorcaro com outras autoridades, principalmente o ministro Alexandre de Moraes.
Na terça-feira (1º), Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal produzido a partir do celular apreendido com Vorcaro. Um dia depois, tornou-se público que o próprio relator também havia mantido contato pessoal com o banqueiro.
A reunião ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, e teria durado cerca de duas horas. O encontro não aconteceu no gabinete de Mendonça no Supremo, mas no endereço do Instituto Iter, entidade privada fundada pelo próprio ministro.
Outro ponto que chama atenção é a forma como a reunião foi organizada.
Segundo a apuração de Paulo Motoryn, o advogado Ciro Rocha Soares atuou durante semanas para aproximar Vorcaro de Mendonça. Em fevereiro, enviou ao banqueiro uma fotografia ao lado do ministro e disse que estava “trabalhando” para ele.
Em outro contato, Ciro informou a Vorcaro que Mendonça queria recebê-lo. O advogado também afirmou ter contado ao ministro sobre a situação enfrentada pelo Master junto ao Banco Central.
A articulação avançou com a participação direta do deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo.
Foi o parlamentar quem, em 13 de março, enviou a Vorcaro o horário e o endereço da reunião marcada para o dia seguinte, às 17h, em São Paulo. Vorcaro confirmou presença.
No dia do encontro, quando o banqueiro avisou que estava a caminho, Cezinha respondeu que o ministro já o esperava.
REUNIÃO FORA DO STF
Segundo a reportagem de Paulo Motoryn, a reunião entre Vorcaro e Mendonça ocorreu em 14 de março de 2025, no Instituto Iter, em São Paulo, após semanas de articulação do advogado Ciro Rocha Soares e do deputado Cezinha de Madureira (PL-SP). Mendonça afirma que o assunto era um processo que tramitava no próprio Supremo.
A forma como o encontro ocorreu abre espaço para questionamentos porque, segundo a própria versão apresentada por Mendonça, o assunto levado por Vorcaro dizia respeito a um processo que estava sob julgamento no STF.
Em nota divulgada nesta quarta-feira, o ministro afirmou que a conversa tratou da Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, relacionada a créditos de precatórios de interesse do Banco Master.
Mendonça disse que recebeu Vorcaro por iniciativa do próprio empresário e que apenas o ouviu. No mesmo mês, segundo o gabinete, o ministro também recebeu o advogado do banqueiro e mantém registrados os memoriais entregues na ocasião.
O ministro ressaltou ainda que sua atuação no processo acabou sendo contrária à posição defendida pelo Master.
A explicação, no entanto, coloca no centro da discussão as circunstâncias da reunião. Se o assunto era um processo em tramitação no Supremo, o contato ocorreu de forma privada, fora das dependências do tribunal, depois de uma articulação de terceiros para aproximar o empresário do ministro.
Não há informação de que o encontro, por si só, tenha resultado em qualquer favorecimento a Vorcaro. Mendonça também não era, naquela época, relator das atuais investigações sobre o Banco Master.
A reunião ocorreu, porém, em um momento em que o banco já enfrentava problemas e cobranças do Banco Central relacionadas às suas operações. Naquele mês, o Master negociava a venda de 58% de suas ações ao Banco de Brasília (BRB), enquanto operações realizadas entre as instituições já estavam na mira da autoridade monetária.
As mensagens reveladas pela reportagem reforçam esse contexto. Antes da reunião, Ciro Soares disse a Vorcaro que havia explicado a Mendonça a situação do Master no Banco Central.
A revelação ocorre em um momento delicado para o ministro.
Mendonça assumiu a relatoria das investigações do Banco Master em fevereiro deste ano, após a saída de Dias Toffoli da condução do caso. Nos últimos dias, entrou em confronto com a Procuradoria-Geral da República após determinar o aprofundamento das apurações sobre informações encontradas pela Polícia Federal envolvendo Alexandre de Moraes.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, questionou o procedimento e pediu a anulação do relatório produzido pela PF sobre os contatos entre Moraes e Vorcaro, argumentando que uma apuração envolvendo um ministro do Supremo deveria passar previamente pelo plenário da Corte.
Mendonça retirou o sigilo do relatório e indicou que o caso deverá ser submetido aos demais ministros.
Agora, a revelação da reunião privada acrescenta um novo elemento à discussão sobre a condução do caso Master. Mendonça afirma que recebeu Vorcaro para tratar de um processo e que posteriormente decidiu contra os interesses do banqueiro. A reportagem de Paulo Motoryn mostra que o encontro ocorreu fora do STF e foi precedido por uma articulação do advogado Ciro Soares e do deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) para colocar o empresário frente a frente com o ministro.


