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Home Colunas

Réveillon das Mulheres Aguerridas de Alucard

Por Lenin Novaes
12 de dezembro de 2018 - 12:11
em Colunas
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– A reunião das Mulheres Aguerridas de Alucard aconteceu, Athaliba, no Dia Mundial dos Direitos Humanos, 10/12, mesma data da diplomação do presidente eleito, na casa de Dona Esmeralda, no bairro Praia, contando com a adesão de 52 mulheres, arregimentadas por Miraflores, Mary Help, Angelina, as gêmeas Ivonete e Francinete e Anabela. O local foi conseguido através de Núbia, neta da anfitriã e professora municipal.

– Boa largada, heim, Marineth! O movimento foi deflagrado e vai ganhar as ruas.

– Não tenha duvida disso, Athaliba. Fui convidada a assistir a reunião, como observadora, sem direito a voto, já que não tenho endereço oficial em Alucard. A avó de Núbia confeitou bolos de chocolate, preparou sanduiches de presunto e de queijo, sucos de laranja, goiaba e acerola, e café em garrafas térmicas. No quintal dos fundos da casa, em conjunto de mesas e cadeiras para 70 pessoas, o ambiente lembrava festa familiar em fim-de-semana.

– Então, Marineth, depois de muito se infiltrar nas esferas da estrutura da cidade conseguiu ser agregada à sociedade. Parabéns, pois, afinal, seu mérito está na relação sincera com as pessoas.

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– Grata, Athaliba, pelo reconhecimento. A vida é relação e, na relação, trocamos uns com os outros, venerando a identidade de cada um. Grado dimais docê, mas vamos ao que interessa. A dona da casa deu boas-vindas às visitantes, desejou sucesso nos trabalhos e se colocou como integrante voluntária no movimento. E Anabela, surpreendentemente, tomou a palavra e preceituou a dinâmica do encontro. Apresentou pauta e encaminhou a proposta de escolha de comissão provisória de presidente e secretária, sugerindo teto para finalizar a reunião, quando, então, todas poderiam atacar os quitutes de D. Esmeralda.

– Ohsó que trem lindo. Nuémezzz, Marineth?

– Cê não faz ideia, Athaliba. A postura de Anabela é de enchê os zóio. Depois de Angelina a propor como presidente da reunião, ela indicou Núbia para secretariar. A proposta foi aprovada por aclamação, encaminhada por Mary Help. Em seguida, Anabela fez exposição de questões pertinentes que justificavam a criação do núcleo Mulheres Aguerridas de Alucard. Encaminhou sugestões de ordem estrutural, como vestindo um esqueleto; e pediu a Nadja, web-designer, a criação de site oficial do movimento na Internet, com a tarefa de organizar as militantes. O site passará orientações programáticas às mulheres atuarem no setor de trabalho, clubes, nas mobilizações de protestos públicos e nos processos eleitorais, etc.

– Tô boquiaberto com a desenvoltura dessa moça. Marineth.

– Do cantinho, à esquerda, da enorme mesa em formato horizontal, assisti Anabela de pé, com gestos delicados das mãos e suaves movimentos laterais do corpo, propondo e conduzindo as sugestões à votação. Ivonete, no início da reunião, tinha sugerido que ficasse à cabeceira da mesa, mas agradeceu de forma elegante dizendo que “de onde estou sou observada por todas, sem a necessidade de estar à frente da mesa para ser ouvida e notada”.

– Bão, mar bão mermo, Marineth!

– Bunidimais, Athaliba. Em determinado momento observei as gêmeas cochichando ao pé-de-ouvido, com o olhar fixo em Anabela. Ouvi quando uma delas disse que “a bela é uma fera”. Vale destacar ainda que a presidente esclarecia todos os questionamentos com exatidão nos argumentos, como se conversasse numa ceia angelical. A voz vibrava forte quando enfatizava as diferenças discriminatórias que mulheres sofrem na política, no mercado de trabalho e até em ambiente domiciliar, cumprindo várias jornadas de atividades.

– Mas, Marineth, como foi encerrada a reunião?

– Cê qué cafungada no cangote para calmar, Athaliba?

– Deixa de bestage, Marineth. Conta o que ficou definido, traçado, aprovado.

– Tadim docê. O encontro terminou com a aprovação de realização de réveillon do núcleo dia 22 de dezembro, e nova reunião 5 de janeiro do próximo ano, véspera de Dia de Reis. Mary Help não teve aprovada a proposta defendida de bandeira e lema do movimento. O caso pode ser relembrando no link http://ofolhademinas.com.br/materia/30832/aguerridas-de-alucard-montam-aparelho. Anabela argumentou que a questão era prematura, assim como a eleição da direção do núcleo, dizendo que “esses e outros assuntos podemos deliberar nas reuniões de janeiro, na estruturação final do núcleo, em convenção, tendo maior representatividade, com presença de mulheres de todos os bairros da cidade”.

Anabela pediu maior empenho às companheiras para mobilizar mais mulheres à próxima reunião, entre outros assuntos. Núbia fez a leitura da ata, assinada por todas. A avó dela liberou o lanche, ao sinal de Anabela, após se dizer honrada em servir ao grupo, e ofereceu sua casa para o réveillon.

– Muito bem, Marineth. A estratégia de Anabela é de invejar e revela a líder nata que desponta no Mulheres Aguerridas de Alucard. Ela mostra elevada capacidade na condução do processo de criação do movimento. No bom sentido, torço para que o núcleo se torne uma praga e se espalhe por toda a Região do Médio Piracicaba e pelo interior das Gerais. Ofereço às mulheres o poema Vida sem medo, dedicado à memória da vereadora carioca Marielle Franco, covarde e brutalmente assassinada a tiros junto com o motorista Anderson Pedro Gomes, numa emboscada, em 14 de março, no Rio de Janeiro.

 

Palmadinha na bundinha, quando nasci,

Soou como protesto, manifestação de luta.

Minha mãe conta para todos que até sorri,

Que, quando adulta fosse, não seria puta.

 

Lembro-me muito bem que quando cresci

Tentaram inútil alcunhar-me mulher-fruta.

Tantas vezes disse não e nunca me omiti,

Abriguei os que desejei, no sexo da gruta.

 

Afronto adversidade despojada de rancor,

Nem cultuo ódio quando me tentam impor

Fêmea submissa e de predicado inferior.

 

Cabeça erguida e batendo tudo pela frente,

Deixo pelo caminho o que me é indiferente.

Vida sem medo. Ah! Ratifico que sou gente. 

 

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional Poesias de jornalistas, homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS.

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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