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Home Colunas

QUANDO O OLHAR NOS TRAI

Por Nilson Lattari
11 de fevereiro de 2022 - 07:55
em Colunas

Foto: Karina Vorozheeva on Unsplash -  

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“O que os olhos não veem, o coração não sente”. Quantas vezes ouvimos essa frase e não pensamos exatamente o que ela diz. Talvez porque de tanto olharmos para alguma coisa que nos atrai ela pareça não nos dizer nada de novo, e eles se tornam insensíveis. Quem sabe, não seja assim?

O que os nossos olhos não veem o coração não pode sentir porque não elaboramos o que foi visto do ponto de vista da emoção, basicamente, ou então a mente também não é capaz de raciocinar sobre uma ausência, talvez especular. Não ver algo é não elaborar sobre ele, emocional e mentalmente. Quando não vemos, esse algo não existe, nunca existiu e não nos afeta.

Mas, sem perceber, isso acontece toda hora e é justamente quando o olhar nos trai. Quando somos enganados, principalmente pela aparência. Aparência de alguém bem vestido que nos causa boa impressão, e por conseguinte nos traz confiança. E é nessa janela que o meliante entra no nosso mundo e nos ilude.

No mesmo nível, a propaganda e o aspecto visual entram no intuito de atrair nosso olhar e nosso compreendimento, ou nossa compreensão, diante de um produto qualquer. E, de alguma maneira, parecemos não sentir, porque os olhos não veem a amplitude da imagem.

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Quando hierarquizamos as cores, o vermelho é o sinal de alerta, o amarelo atenção e o verde passagem livre, memorizamos sem sentir. Quando entramos em um estabelecimento industrial não precisamos perguntar o cargo do funcionário com o qual estamos tratando, quer seja pela cor do macacão, quer seja na cor do capacete, ou outro dado qualquer. Apenas nos automatizamos,

Nas situações onde segurança para nós seja exigida, as cores servem como um alerta. Na propaganda ela é mais atuante, nesse tom de iludir.

A propaganda envolve bem mais do que cores e possui uma realidade mais complexa. Pessoas rindo e rostos jovens em ambientes domésticos  como a cozinha, local de trabalho, ou mesmo o banheiro ou o depósito de tralhas, o nosso olhar nos trai quando se sente aliviado diante das composições no texto da propaganda e principalmente no visual, mostrando um outro aspecto do ambiente, mais agradável.

Nas propagandas de produtos de limpeza, por exemplo, ou de assuntos mais desconfortáveis, os atores profissionais são escalados para expor as qualidades dos produtos e o nosso olhar então os identifica e conforma a mente e o coração para ouvi-los, o que não aconteceria com algum desconhecido, mesmo sendo um técnico(a) profundo conhecedor(a) do assunto.

Nas propagandas de pneus, nas borracharias principalmente, uma mulher em trajes mínimos apresentava as qualidades de um pneumático. Pensando bem, o que tem uma mulher vestida em trajes mínimos ou ausente deles a se qualificar como vendedora daquele material? Nada. Ou tudo, até porque ninguém prestaria atenção à propaganda se ela não estivesse ali, mas nossos olhos não viam a exploração da mulher.

“O que os olhos não veem o coração não sente”. Porém, no tratamento do olhar, aquilo que eles não veem, com certeza afeta nossa consciência de alguma maneira e deveria nos fazer pensar.

Tags: ColunaNilson Lattari
Nilson Lattari

Nilson Lattari

Crônicas e Contos. NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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