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Bernardo Mucida: as decisões de 2020 e o preço pago nas urnas

Líder das pesquisas para prefeito em 2019, Mucida abriu mão da disputa de 2020, indicou o último colocado como sucessor e, anos depois, viu sua votação na cidade cair de 27 mil para pouco mais de 9 mil votos

Por Geraldo Ribeiro
13 de outubro de 2026 - 12:54
em Colunas
Bernardo Mucida: as decisões de 2020 e o preço pago nas urnas

Foto: Willian Dias/ALMG

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Para entender o resultado eleitoral mais recente de Bernardo Mucida em Itabira, talvez seja preciso voltar sete anos e reconstruir uma sequência de decisões tomadas às vésperas da eleição municipal de 2020.

Isoladamente, cada movimento pode ter uma explicação. Colocados em ordem cronológica, porém, eles ajudam a entender por que parte do eleitorado e até integrantes do próprio campo de oposição passaram a questionar o comportamento político de Mucida naquele período.

A história começa em agosto de 2019.

Pesquisa do Instituto DataMG, realizada entre os dias 2 e 8 daquele mês, colocou Bernardo Mucida na liderança isolada da corrida pela Prefeitura de Itabira, com 22,1% das intenções de voto.

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Bem atrás aparecia o ex-prefeito João Izael, com 8,5%. O então prefeito Ronaldo Magalhães, que buscaria a reeleição no ano seguinte, tinha 4,4%.

Depois deles apareciam outros nomes com percentuais ainda menores. Na última posição estava Marco Antônio Lage, com apenas 0,3%.

Naquele momento, o desenho político parecia relativamente claro: Mucida despontava como principal nome da oposição e carregava consigo o capital político construído a várias mãos em 2016, quando havia recebido 27.375 votos e terminado a eleição para prefeito muito próximo de Ronaldo Magalhães.

Além da liderança nas pesquisas, Bernardo começava a reunir em torno de seu nome partidos e lideranças que trabalhavam pela construção de uma frente de oposição.

O primeiro sinal

Foi em novembro de 2019 que o cenário começou a mudar.

Mesmo liderando com ampla vantagem, Mucida passou a admitir publicamente a possibilidade de não disputar a Prefeitura.

Em entrevistas, afirmou não ter vocação para ser “salvador da pátria” e passou a falar no surgimento de outros nomes dentro da oposição.

A declaração causou inquietação entre aliados que vinham trabalhando sua candidatura. Àquela altura, vários partidos já haviam manifestado disposição de caminhar com Bernardo.

Apesar das declarações, Mucida continuou sustentando publicamente sua condição de pré-candidato.

Politicamente, havia uma explicação para isso. Uma desistência antecipada poderia desmontar o grupo formado em torno de seu nome e levar partidos e lideranças a procurar imediatamente outra alternativa.

Foi também naquele período que Bernardo passou a falar na possibilidade de assumir uma cadeira na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, caso surgisse uma vaga dentro de sua composição política.

Começava aí a primeira dúvida.

Por que um candidato com 22,1% das intenções de voto, cinco vezes o percentual do prefeito que tentaria a reeleição, considerava abandonar aquela disputa?

Os olhos se voltam para João Izael

Com a possibilidade de Mucida ficar fora, naturalmente outro nome começou a ganhar força: João Izael.

O ex-prefeito aparecia em segundo lugar, com 8,5%, tinha experiência eleitoral, capital político próprio e também fazia oposição ao governo Ronaldo Magalhães.

João, entretanto, também deixava em aberto se seria candidato.

Foi nesse contexto que surgiu o Partido Progressista (PP).

Seu principal líder no município, Luiz Carlos de Ipoema, ligado também ao grupo de Ronaldo Magalhães, foi quem articulou a ida de João Izael para o partido.

Segundo relatos de pessoas que acompanharam aquelas movimentações, o ex-prefeito teria recebido a garantia de que teria voz ativa nas decisões e encontraria dentro da legenda espaço para disputar a Prefeitura.

João acabou se filiando ao PP em março de 2020, pouco antes do encerramento do prazo partidário.

Houve, entretanto, quem enxergasse risco naquela movimentação.

Um aliado próximo teria alertado João para a possibilidade de ficar politicamente preso ao partido depois do encerramento do prazo para mudança de legenda.

O temor ganharia importância poucos meses depois.

O tabuleiro muda depois do prazo

Com João já filiado e sem possibilidade de procurar outra legenda depois do encerramento do prazo legal, o comportamento do PP mudou.

O partido anunciou que não teria candidatura própria e decidiu integrar a base que apoiaria a reeleição de Ronaldo Magalhães.

Na prática, João Izael estava fora da disputa.

O próprio ex-prefeito confirmaria posteriormente sua divergência com a decisão partidária ao explicar que não acompanhou o PP no apoio a Ronaldo.

O efeito político era evidente.

O segundo colocado na pesquisa de 2019, que aparecia com 8,5%, já não possuía uma legenda disposta a lançá-lo candidato.

Restava saber o que faria o primeiro colocado.

Bernardo também sai

A resposta veio pouco depois.

Mucida confirmou que não disputaria a Prefeitura de Itabira.

A justificativa passava pela expectativa de assumir uma cadeira na Assembleia Legislativa, possibilidade que dependia de acontecimentos políticos que não estavam sob seu controle.

Um ponto chamou atenção: geralmente, deputados deixam seus cargos para disputar prefeituras, como fez Marília Campos. Bernardo escolheu o caminho inverso. Abriu mão de uma eleição praticamente ganha para assumir, caso surgisse a vaga, apenas dois anos de mandato na Assembleia.

Com sua saída, desaparecia também da eleição o candidato que havia registrado 22,1% das intenções de voto.

Mas foi o movimento seguinte que tornou aquele episódio ainda mais difícil de compreender.

Mucida apresentou como alternativa para comandar a oposição Marco Antônio Lage.

Era justamente o último colocado daquela pesquisa, com apenas 0,3%.

A escolha provocava uma questão inevitável.

Por que saltar todos os demais nomes daquele levantamento e escolher justamente o candidato que registrava 0,3%?

E é nesse ponto que a formação apresentada pelo próprio Bernardo torna o episódio ainda mais curioso.

Mucida é advogado e sempre destacou também sua formação em Ciência Política.

Por isso, a pergunta feita naquele momento por muitos de seus antigos apoiadores não era apenas por que ele desistiu.

Era outra: um advogado e cientista político, conhecedor das engrenagens eleitorais, poderia ter cometido uma sequência tão grande de erros de cálculo?

Primeiro, cogitar abandonar uma eleição liderando com larga vantagem.

Depois, manter o grupo mobilizado enquanto a possibilidade de desistência já havia sido colocada publicamente.

Por fim, sair da disputa e escolher para substituí-lo justamente o último colocado da pesquisa.

Teriam sido apenas erros?

Ou havia uma estratégia que o eleitor não conseguia enxergar?

O cenário que se formou

Foi a combinação desses acontecimentos que alimentou as dúvidas.

Primeiro, o segundo colocado, com 8,5%, ficou dentro de um partido que decidiu apoiar a reeleição do prefeito.

Depois, o candidato que liderava com 22,1% desistiu.

E, no lugar deles, a principal força de oposição passou a ter como candidato um nome que aparecia com 0,3%.

Enquanto isso, Ronaldo Magalhães, que registrava 4,4% naquela pesquisa, continuava candidato.

Olhando apenas para aquele momento do tabuleiro, o caminho para a reeleição do prefeito parecia ter se tornado muito fácil.

Foi essa sucessão de movimentos, e não apenas a desistência de Bernardo, que colocou uma pulga atrás da orelha de integrantes da própria oposição.

O que havia acontecido nos bastidores para que os dois nomes mais bem colocados da pesquisa terminassem fora da disputa?

A decisão de Mucida fazia parte apenas de um projeto pessoal de chegar à Assembleia?

Houve simplesmente uma sucessão de erros de leitura política ou existiam articulações que não eram visíveis para todos?

Não é possível afirmar que aqueles movimentos fizeram parte de um acordo destinado a favorecer a reeleição de Ronaldo Magalhães. Mas também não é possível ignorar que essa sequência explica por que tantas dúvidas surgiram naquele período e por que essa hipótese passou a circular no meio político itabirano.

E então aconteceu algo que talvez ninguém naquele tabuleiro tivesse previsto.

João entra na campanha de Marco

Depois de ficar sem espaço para disputar pelo PP, João Izael decidiu não acompanhar o partido no apoio a Ronaldo Magalhães.

Escolheu Marco Antônio Lage.

E não foi um apoio apenas formal.

João entrou na campanha como se ele próprio fosse o candidato e trouxe consigo todo seu grupo político. Participou das caminhadas, foi para as ruas, discursou e colocou seu capital político a serviço de Marco.

Também aderiram lideranças e militantes que já estavam organizados para a candidatura de Bernardo Mucida.

Foi essa estrutura, formada principalmente pelo grupo de João e pelas forças de oposição já mobilizadas antes da desistência de Mucida, que passou a carregar a campanha do candidato até então praticamente desconhecido do eleitorado.

Bernardo tomou caminho diferente.

Depois de indicar Marco Antônio Lage como seu substituto, afastou-se da linha de frente.

Teve participação discreta e pouco apareceu na campanha que havia ajudado a construir politicamente.

Esse detalhe é importante porque o resultado de 2020 acabou sendo creditado, muitas vezes, à escolha feita por Mucida. Mas quem esteve nas ruas, mobilizou apoiadores e emprestou capital eleitoral à candidatura de Marco foi principalmente João Izael e o conjunto de lideranças que já desejava uma alternativa ao governo Ronaldo.

Marco, portanto, herdou uma candidatura.

Mas precisou ser carregado por uma estrutura que já existia antes de seu nome chegar ao topo da chapa.

E o eleitor mudou o roteiro

A expectativa de uma eleição relativamente tranquila para Ronaldo não se confirmou.

Marco Antônio Lage cresceu durante a campanha e venceu a eleição com 33.141 votos, 50,59% dos votos válidos.

Ronaldo Magalhães recebeu 28.395, ou 43,34%.

O candidato que havia aparecido com apenas 0,3% tornou-se prefeito de Itabira.

O resultado confirmou algo que a pesquisa de 2019 já indicava: havia um eleitorado disposto a mudar o comando da Prefeitura.

E talvez seja justamente esse o ponto que torne as decisões de Bernardo Mucida em 2019 e 2020 ainda mais intrigantes quando revisitadas hoje.

Se um candidato que havia começado com 0,3% conseguiu, depois de receber o apoio das forças de oposição, derrotar Ronaldo Magalhães, o que teria acontecido se o próprio Bernardo, que já partia de 22,1%, tivesse permanecido na disputa?

A história não permite responder.

Mas os acontecimentos posteriores permitem avaliar o que ocorreu com o capital político que Bernardo possuía naquele momento.

O preço das escolhas

Mucida chegou a 2020 como uma das maiores lideranças políticas de Itabira.

Em 2016, quando disputou a Prefeitura, recebeu 27.375 votos na cidade, alcançando 40,73% dos votos válidos. Ficou a pouco mais de 2,6 mil votos de Ronaldo Magalhães.

Nas eleições de 2022, já como candidato a deputado estadual, ainda demonstrava força eleitoral em sua principal base: recebeu 16.482 votos em Itabira. A cidade respondeu por mais de 40% de toda a votação obtida por ele naquele ano.

Quatro anos depois, a realidade foi outra.

Na eleição de 2026 para deputado federal, Bernardo recebeu 9.061 votos em Itabira. Foi menos de 15% dos votos válidos destinados aos candidatos ao cargo no município.

Em números absolutos, perdeu cerca de 45% dos votos que havia conquistado na cidade apenas quatro anos antes.

Quando a comparação é feita com a eleição municipal de 2016, a diferença é ainda maior: dos 27.375 votos daquela disputa para 9.061 em 2026, Bernardo perdeu aproximadamente dois terços de sua votação em Itabira.

E isso ocorreu em uma campanha na qual não faltaram recursos para levar sua mensagem ao eleitor.

Os dados declarados à Justiça Eleitoral apontam mais de R$ 1 milhão em receitas para sua campanha de deputado federal, sendo a maior parte proveniente de recursos partidários e do Fundo Eleitoral.

Portanto, não se tratava de um candidato sem estrutura, sem recursos ou desconhecido da população.

Era um ex-vereador, ex-candidato a prefeito que já havia recebido mais de 27 mil votos na cidade, candidato pela terceira eleição consecutiva a uma cadeira legislativa e com recursos suficientes para apresentar seu nome ao eleitorado.

Ainda assim, terminou 2026 com apenas 9.061 votos em sua principal base eleitoral.

Talvez seja aí que esteja uma possível resposta para a pergunta que atravessa toda essa história: quanto custaram politicamente a Bernardo Mucida as escolhas que fez quando estava no ponto mais alto de sua força eleitoral?

As urnas não dizem por que ele tomou aquelas decisões em 2020.

Também não provam que sua queda eleitoral tenha uma única causa.

Mas registram uma sequência difícil de ignorar.

Bernardo tinha 27.375 votos em Itabira em 2016.

Em 2018, recebeu 24.996.

Em 2022, foram 16.482.

Em 2026, restaram 9.061.

Para um político que se apresenta como advogado e cientista político, talvez esse seja hoje o dado mais importante para analisar.

Não apenas por que desistiu quando liderava.

Mas por que, depois daquela escolha, tantos dos eleitores que um dia estiveram com ele deixaram de estar.

Tags: BERNARDO MUCIDAeleições 2020eleições 2026Eleições em Minas GeraisItabiraJoão IzaelMarco Antônio LagePolítica de ItabiraPREFEITURA DE ITABIRARonaldo Magalhães
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