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Home Colunas

Os baianinhos do samba

Por Lenin Novaes
27 de junho de 2023 - 09:13
em Colunas

Eckener (Divulgação) - 

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– Marineth, ocê sabe o que os sambistas Eládio Gomes dos Santos e Eckener Francisco da Silveira tinham em comum? Ambos eram conhecidos por apelido idêntico: Baianinho. Com Eládio, um dos autores de “Ê baiana”, sucesso na voz de Clara Nunes, convivi no condomínio Cidade do Som, conhecido como Conjunto dos Músicos, em Inhaúma/Engenho da Rainha. E, com Eckener, atuamos juntos na Associação da Velha Guarda das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Eládio era Baianinho da Em Cima da Hora e, Eckener, Baianinho da Grande Rio.

– Eles foram contemporâneos e conterrâneos, Athaliba? O que levou ocê a focar neles?

– Marineth, os baianinhos do samba foram contemporâneos, sim. Conterrâneos, não sei. E me culpo pela “barrigada” ao entrevistar Eckener, não o identificando como manda o manual de imprensa. Fui remetido a recordar deles devido à pergunta que me fez o Eduardo Pontin Ferreira de Araújo. Curioso, tenho, também, Araújo no final do nome. Será possível que existe algum grau de parentesco embutido nessa coincidência?

– Vai saber Athaliba! Mas, o que ele quis saber de ocê sobre o Eckener?

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– Eduardo Pontin, pesquisador competente do gênero samba, Marineth, perguntou-me se o Baianinho da Grande Rio foi tocador de cuíca. Aí, vasculhando edições do jornal Vanguarda do Samba, órgão oficial da Associação da Velha Guarda das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, me deparei com a entrevista que fiz com Eckener. Tá publicada na pág. 7, no Nº 1, janeiro/1997, na seção Gente Nossa.

– E ele, Athaliba, afinal foi exímio tocador de cuíca?

– Sim, Marineth. E, confesso, não recordava desse detalhe que abre a matéria assim: “O ronco da cuíca de Baianinho da Grande Rio sempre foi destaque no som da bateria, com gemido inconfundível”. Iniciou na Tupy de Brás de Pina (lembro do amigo Nelson Cebola, que se mudou para Santos, em São Paulo), década de 1950. Depois foi diretor de bateria da Unidos da Capela e presidente da ala de compositores. No 1º desfile da Unidos de Lucas – fusão da Unidos da Capela e Aprendizes de Lucas -, teve o samba ”Cidade feita de memórias”, parceria com Lady e Lecy, cantado por Agnaldo Timóteo, no desfile.

– Ele integrou o conjunto musical Lá vai samba, né, Athaliba?

– Isso mesmo, Marineth. Eckener é autor de “Carinhos”, com Jones Santos, no único disco gravado pelo conjunto, que se apresentou na França, Itália, Suécia e Portugal. Depois assumiu a presidência da Velha Guarda da Grande Rio. Dizia-se orgulhoso de ter o nome inserido no livro Escolas de samba em desfile, de Amaury Jório e Hiram Araújo. Uma das últimas recordações dele foi numa peixada que preparou em Duque de Caxias, onde estive na companhia do saudoso amigo e jornalista Paulo Francisco Magalhães, o PF. E folhear as edições do Vanguarda do Samba me trouxe boas recordações, mas, também tristes lembranças.

– Como assim, Athaliba?

– Marineth, a publicação foi uma proposta minha, quando o PF me convidou para ajuda-lo naquela associação. Fiz sete edições, periodicidade mensal, de janeiro a setembro de 1997. No expediente, a colaboração do meu filho Vladimir Novaes, professor de Educação Física, vítima de “bala perdida”, em 2007. A violência só cresce no Rio de Janeiro, com supremacia do narcotráfico e da milícia que obriga delegacias policiais a funcionar com portas trancadas. E PMs, imagine, já não circulam fardados e, quando à paisana, escondem a identidade policial na sola do sapato.

– Sei, Athaliba, da dor imensa que o angustia. Mas, não perca a ternura. A vida segue com a perspectiva do poder popular, no horizonte. Fala-me do Baianinho da Em Cima da Hora.

– Eládio foi tocador de clarineta e requinta, na escola onde estudou em Salvador, capital da Bahia, Marineth. Nasceu em 3/9 de 1936. Na década de 1940 mudou-se para Cavalcanti, no Rio de Janeiro. E, em 1959, com alguns amigos músicos, fundou a Em Cima da Hora. Nos anos de 1963, 1964 e 1973, a escola desfilou com sambas de autoria dele. “Insurreição pernambucana”, “Apoteose econômica e financeira do Império” (ambos parceria com Zeca do Varejo) e “O sabor poético da literatura de cordel”. Morreu aos 83 anos, em 2020.

– Athaliba, ele foi o primeiro ganhador do prêmio Estandarte de Ouro, na categoria samba-enredo, com “O saber poético da literatura de cordel”.

– É, Marineth. Até hoje guardo a imagem dele na Roda de Samba do MIS. Gente boa!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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