“Meu caro amigo, me perdoe, por favor/
Se eu não lhe faço uma visita/
Mas como agora apareceu um portador/
Mando notícias nessa fita/
Aqui na terra, tão jogando futebol/
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll/
Uns dias chove, noutros dias bate sol/
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta/
Muita mutreta pra levar a situação/
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça/
Que a gente vai tomando e também sem a cachaça/
Ninguém segura esse rojão”
– Marineth, os versos são da música que também dá título ao disco, Meus caros amigos, de Chico Buarque de Hollanda, lançado em 1976, há 50 anos. É parceria do cantor com o Francis Hime. A letra da canção, em formato carta cantada, foi direcionada ao dramaturgo Augusto Boal, amigo do artista, então, no período da ditadura militar, exilado em Portugal. Ele enviou a música, em fita cassete, através de portador, driblando a censura. E Boal a ouviu, emocionado, ao lado de outros exilados, os saudosos Darcy Riberio e Paulo Freire.
– Athaliba, essa música, que finaliza o repertório do disco, faz citações familiares, como o próprio Francis Hime, a Cecília (esposa do Boal) e a Marieta (Severo), então esposa do Chico. O artista, aliás, é parceiro do Augusto Boal, em “Mulheres de Atenas”, uma das faixas do LP, que é título de peça teatral escrita pelo dramaturgo durante o exílio. E, com o Francis, o Chico compôs a música título do filme A noiva da cidade, dirigido por Alex Vianny, com roteiro de Miguel Borges e Humberto Mauro. A película é estrelada por Elke Maravilha e tem Grande Otelo no elenco.
– Marineth, integram o repertório as músicas “O que será?” (À flor da pele), “Olhos nos olhos”, “Vai trabalhar, vagabundo”, “Corrente” e “Basta um dia”, de Chico Buarque. E dele, ainda, “Você vai me seguir”, em parceria com Ruy Guerra; e “Passaredo”, parceria com Francis Hime. O arranjo do disco foi dividido entre Francis Hime, Luís Cláudio Ramos e Perinho Albuquerque, com eles tocando piano, violão e cordas. A capa do disco tem foto de Orlando Abrunhosa. E, entre os músicos, estão Artur Verocai, Luizão, Elber Berlack, Zé Bodega, Antônio Adolfo e o MPB-4.
– Athaliba, não esqueça que Milton Nascimento, o Bituca, tem participação excepcional no disco, fazendo dueto com Chico Buarque na música “O que será?”. A canção foi composta para a trilha sonora do filme Dona Flor e seus dois maridos. E tornou-se um marco da história da MPB – Música Popular Brasileira. Símbolo de resistência contra a ditadura militar, originada pelo golpe empresarial-militar que vigorou no Brasil no período de 1964 a 1985.
– É verdade, Marineth! A música foi uma das mais tocadas nas emissoras de rádio em todo o Brasil. E isso aumentou a popularidade do Chico Buarque, inclusive, na América Latina. Aliás, ele teve as músicas proibidas de serem tocadas na Argentina durante a ditadura do general Jorge Rafael Videla, entre 1976/1981. Lá, o regime militar vigorou até 1983, a partir do golpe que depós a presidente Maria Estela Martinez de Perón (Isabelita Perón), em 24 de março de 1976. Durante o regime militar, estima-se que entre 10.000 e 30.000 pessoas foram mortas ou desapareceram.
– Athaliba, o Chico também é escritor. É autor de Estorvo, Benjamim, Budapeste, Leite derramado, O irmão alemão, Essa gente, Bambino a Roma e Fazenda modelo, romances. E Anos de chumbo e outros contos, em coletânea de contos; passando pela literatura infantil e poesia com Chapeuzinho amarelo (1979) e A bordo do Rui Barbosa (1981) e nas modalidades Teatro e Ópera, com os livros Roda viva (1967), Calabar, o elogio da traição (1973), parceria com Ruy Guerra; Gota d’água (1973), com Paulo Pontes e Ópera do malandro (1978). – Marineth, sobre a canção “O que será?”, à época do lançamento do LP, eu trabalhava no jornal O Globo e fazia a cobertura jornalística da região da Baixada Fluminense. E Duque de Caxias era a base operacional. Ao chegar ao município, perto da estação ferroviária, tinha uma loja de vendas de discos. Então pedia a um vendedor para tocar a música na vitrola. Ele repetia várias vezes. Por duas semanas seguidas tive o pedido atendido para ouvir “O que será?”.


