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Home Colunas

NOEL ROSA, O POETA DA VILA

Por Ediel Ribeiro
22 de abril de 2024 - 19:30
em Colunas

Noel Rosa (Arquivo) 

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Rio de Janeiro – Frequentei durante muito tempo o ‘Petisco da Vila’, um boteco que ficava na esquina do Boulevard 28 de setembro com a Teodoro da Silva – rua onde nasceu e morreu Noel Rosa.

O nome do bar – uma brincadeira com o samba ‘Feitiço da Vila,’ de Noel Rosa, foi mais uma homenagem do bairro onde nasceu o compositor ao talento de Noel.

Vila Isabel – conhecida como o bairro de Noel – respira Noel. 

Nenhum outro bairro do Rio cultua tanto seus moradores ilustres quanto a Vila Isabel. O bairro tem estátua do compositor – inaugurada no dia 22 de março em 1996.  Tem boteco, shopping, prédios, ruas e avenidas com o nome do compositor e as famosas ‘calçadas musicais’, com as  letras de ‘Feitiço da Vila’ um de seus maiores sucessos (junto com Vadico), impressas em pedras portuguesas brancas e pretas.

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Noel de Medeiros Rosa foi um sambista, cantor, compositor, bandolinista e violonista brasileiro, nascido em Vila Isabel, no dia 11 de dezembro de 1910, um dos maiores e mais importantes artistas da música no Brasil. 

Noel era de uma família de classe média. Estudou no tradicional Colégio de São Bento. Autodidata, ainda adolescente, aprendeu a tocar bandolim de ouvido e tomou gosto pela música e pela boemia. Logo, passou ao violão e cedo tornou-se figura conhecida da noite carioca. 

Em 1929, Noel arriscou as suas primeiras composições, ‘Minha Viola’ e ‘Festa no Céu’, ambas gravadas por ele mesmo. Mas foi em 1930 que o sucesso chegou, com o lançamento de ‘Com que roupa?’, considerada até hoje uma das grandes obras de Noel e de toda a MPB.  O samba foi gravado pelo próprio compositor na gravadora ‘Parlophone’, em dezembro de 1930. 

Na época, ele era apenas um rapaz de 20 anos, boêmio e cativante, que começava a dar seus primeiros passos na música. Entre os intérpretes que passaram a cantar seus sambas, destacam-se Mário Reis, Francisco Alves e Aracy de Almeida.

Filho do mineiro Manuel de Medeiros Rosa (1880-1935) e da carioca Marta Correia de Azevedo (1889-1940), Noel nasceu de um parto muito difícil e complicado, que incluiu o uso de fórceps pelo médico obstetra. Além disso, tinha hipoplasia (desenvolvimento limitado da mandíbula), o que lhe deixou o queixo deformado para o resto da vida. O defeito impediu Noel de tratar dos dentes (que foram se deteriorando cedo) e de comer normalmente.

Pequeno e franzino (pesava 50 quilos), Noel, no entanto, era alegre, cheio de picardia, audacioso e brincalhão. Em 1931 entrou para a Faculdade de Medicina, porém, em pouco tempo Noel abandonou os estudos para se dedicar a vida de artista. Noel foi integrante de vários grupos musicais, entre eles o ‘Bando de Tangarás’, ao lado de João de Barro (o Braguinha), Almirante, Alvinho e Henrique Brito.

O artista revelou-se um talentoso cronista do cotidiano, com uma sequência de canções que primam pelo humor e pela veia crítica. Orestes Barbosa, exímio poeta da canção, seu parceiro em ‘Positivismo’, o considerava o “rei das letras”. 

Noel teve ao mesmo tempo várias namoradas e foi amante de muitas mulheres casadas. Em 1934,  o compositor conheceu seu grande amor, a dançarina Ceci, do ‘Cabaré Apolo’, na Lapa. Com apenas 16 anos, Ceci, que, mesmo na “vida fácil”, era uma dama ao se vestir e se comportar com os homens, deixou Noel totalmente enlouquecido pela sua beleza. A menina inspirou o compositor a compor diversos sambas, entre eles ‘Dama do Cabaré’; ‘Último Desejo’; e ‘Pra Que Mentir’, em parceria com Vadico.

Após mais alguns anos juntos, o ciúme doentio de Noel por Ceci a fez terminar a relação, que ficou entre idas e vindas por um bom tempo, até que se afastaram de vez.

Em dezembro do mesmo ano , Noel casou-se com Lindaura, uma menina de 13 anos, natural de Sergipe – 10 a menos que ele -, por pressão da mãe da garota. Grávida, ela perdeu o filho meses após o casamento. Mesmo casado, Noel não largou a vida boêmia e as noites nos cabarés.

O suicídio de sua avó Belarmina de Medeiros, por enforcamento, em 15 de outubro de 1927; ato repetido por seu pai em 3 de maio de 1935, foi um trauma insuperável para o artista. 

Em depressão, Noel passou os anos travando uma batalha contra a tuberculose. A vida boêmia  à bebida e o cigarro, nas noites cariocas, cercado de muitas mulheres, a maioria, suas amantes, tornou a doença um estorvo na vida do compositor. 

 Em busca da cura, mudou-se com a esposa para Belo Horizonte, para tratar de seu problema pulmonar, ainda inicial. No entanto, a vida boêmia e o fato de não ter parado de beber e fumar, não fazer repouso absoluto e continuar pegando sereno nas madrugadas, pioraram sua tuberculose. 

De volta ao Rio, parou com as medicações, e jurou estar curado, mas poucos dias depois adoeceu fortemente, não conseguindo mais se alimentar e nem levantar da cama. Morreu prematuramente, aos 26 anos, em decorrência da doença. 

Deixou a esposa Lindaura, Dona Martha, sua mãe e um conjunto de pelo menos 50 indiscutíveis obras-primas. Canções que se tornaram clássicos da MPB como:  ‘Com que Roupa’, ‘Até Amanhã’, ‘Feitiço da Vila’, ‘Conversa de Botequim’, ‘Silêncio de Um Minuto’, ‘Dama do Cabaré’, ‘Gago Apaixonado’, ‘O Meu Último Desejo’ e ‘Positivismo’ (com Orestes), entre outras.

Como disse Millôr Fernandes, no prefácio do livro ‘Noel Rosa, uma biografia’ , escrito por Carlos Didier e João Máximo: este é um livro definitivo no que prova que Noel é definitivo.

Tags: ColunaEdiel RibeiroNOEL ROSA
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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