A jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay foi anunciada nesta sexta-feira (9) como vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2026. Aos 85 anos, ela foi reconhecida por sua trajetória na defesa dos direitos humanos, da justiça internacional e da responsabilização por crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade.
Segundo o Comitê Norueguês do Nobel, Pillay recebeu o prêmio por seus esforços para promover a paz e o direito internacional em uma carreira que atravessou a luta contra o apartheid na África do Sul e alguns dos principais tribunais internacionais criados para julgar atrocidades cometidas nas últimas décadas.
Pillay foi juíza do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, onde participou de uma decisão considerada um marco do direito internacional: o julgamento de Jean-Paul Akayesu, ex-prefeito da comuna de Taba, condenado em 1998 por genocídio e crimes contra a humanidade durante o massacre de tutsis em Ruanda.
A decisão foi a primeira de um tribunal internacional a estabelecer que o estupro e outras formas de violência sexual podem constituir atos de genocídio quando praticados com a intenção de destruir, total ou parcialmente, determinado grupo. Também foi a primeira condenação internacional de uma pessoa por estupro como crime contra a humanidade.
Pillay integrou o colegiado de três magistrados que julgou Akayesu. O tribunal concluiu que a violência sexual contra mulheres tutsis havia sido parte integrante do processo de destruição daquele grupo durante o genocídio de 1994.
A jurista permaneceu no Tribunal para Ruanda por oito anos e presidiu a Corte entre 1999 e 2003. Em seguida, tornou-se juíza do Tribunal Penal Internacional, em Haia, onde atuou entre 2003 e 2008.
Do apartheid à ONU
Nascida em 1941, na África do Sul, Pillay é descendente de indianos tâmeis e iniciou sua carreira jurídica durante o regime do apartheid.
Em 1967, tornou-se a primeira mulher a abrir um escritório de advocacia na província de Natal. Durante anos, defendeu ativistas contrários ao apartheid e sindicalistas perseguidos pelo regime. Também participou da fundação da organização Equality Now, voltada à defesa dos direitos das mulheres.
Depois do fim do apartheid, tornou-se a primeira mulher não branca a atuar na Suprema Corte da África do Sul.
Entre 2008 e 2014, ocupou o cargo de alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, uma das principais funções da ONU na área.
O atual alto comissário, Volker Türk, afirmou que a concessão do Nobel a Pillay representa uma vitória coletiva para os defensores dos direitos humanos, da justiça e da responsabilização internacional.
Atuação recente em Gaza
Nos últimos anos, Pillay também ganhou projeção à frente da Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado.
Em relatório divulgado em 2025, a comissão presidida por ela concluiu que Israel havia cometido atos de genocídio na Faixa de Gaza e apontou responsabilidade de autoridades israelenses. O governo de Israel rejeitou as conclusões e classificou as acusações como falsas e tendenciosas.
O Comitê Norueguês ressaltou que a premiação ocorre em um momento de aumento das pressões sobre instituições internacionais responsáveis pela investigação e julgamento de crimes graves.
Pillay recebeu a notícia enquanto participava de uma conferência jurídica em Nuremberg, na Alemanha, cidade que se tornou símbolo da construção do direito penal internacional após os julgamentos de líderes nazistas no fim da Segunda Guerra Mundial.
O Nobel da Paz será entregue em 10 de dezembro, em Oslo, data do aniversário da morte de Alfred Nobel. O prêmio deste ano é acompanhado de 12 milhões de coroas suecas, cerca de US$ 1,2 milhão.


