Um dia depois de Donald Trump usar a tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas para atacar instituições multilaterais, denunciar perseguições contra cristãos e rejeitar controles internacionais sobre a inteligência artificial, o presidente argentino Javier Milei seguiu por caminho semelhante nesta quarta-feira (23), em Nova York.
Em cerca de 19 minutos de discurso, Milei criticou duramente a ONU, defendeu Israel, atacou o que chamou de “terrorismo islâmico”, falou em “genocídios de cristãos na África”, rejeitou agendas ambientais, de gênero e migratórias e se posicionou contra a interferência de organismos internacionais no desenvolvimento da inteligência artificial.
O presidente argentino também deixou explícito o alinhamento internacional de seu governo. Disse que a Argentina fez uma “escolha geopolítica” e se alinhou “sem ambiguidades” ao Ocidente, especialmente aos Estados Unidos e a Israel.
Ao abordar a inteligência artificial, foi ainda mais direto ao citar o presidente americano: “Nisso compartilhamos plenamente a visão do presidente Trump”.
A referência ocorreu um dia depois de Trump defender, na mesma Assembleia, que os Estados Unidos rejeitam qualquer tentativa de criar um esquema internacional para controlar a inteligência artificial.
Da perseguição de cristãos aos ataques à ONU
A semelhança entre os dois discursos apareceu também na área de direitos humanos.
Trump havia acusado o Conselho de Direitos Humanos da ONU de dar pouca atenção à perseguição de cristãos, afirmando que eles são perseguidos em diferentes partes do mundo.
Milei retomou o tema, mas fez uma afirmação mais específica. Ao atacar a atuação das Nações Unidas, disse que os supostos defensores dos direitos humanos apoiaram ditaduras e regimes que apedrejam mulheres e votaram sistematicamente contra Israel.
Na sequência, afirmou que a organização permaneceu em silêncio diante do “terrorismo islâmico” e de “genocídios de cristãos na África”.
O presidente argentino não citou países africanos nem apresentou, durante o discurso, dados ou episódios específicos para sustentar a referência.
A fala se inseriu em um ataque mais amplo às Nações Unidas. Milei classificou a organização como “inútil” e afirmou que ela serve para sustentar uma “casta de parasitas” formada por burocratas.
Segundo ele, a ONU fracassou justamente nas tarefas para as quais foi criada — garantir segurança coletiva, soberania e direitos humanos — enquanto avançou sobre questões que deveriam permanecer sob decisão dos Estados nacionais.
Milei repete agenda de Trump
As semelhanças com o discurso de Trump não ficaram restritas à questão religiosa.
Na terça-feira (22), o presidente americano atacou o Tribunal Penal Internacional, criticou órgãos de direitos humanos da ONU, condenou políticas migratórias, rejeitou estruturas supranacionais e afirmou que não existe um “governo global”.
Trump também declarou que não existe um direito humano à imigração ilegal e defendeu o direito dos países de preservarem sua soberania.
Milei apresentou argumentos próximos ao criticar a Agenda 2030, políticas de gênero, aquilo que chamou de “extremismo ambiental” e a “imigração descontrolada”.
Também atacou o crescimento da burocracia internacional e afirmou que a ONU tenta decidir como os povos devem viver.
No caso da inteligência artificial, a convergência foi expressamente reconhecida pelo próprio argentino. Milei defendeu que o Ocidente lidere o desenvolvimento da tecnologia e rejeitou regulações que, segundo ele, possam limitar a inovação.
“Nisso compartilhamos plenamente a visão do presidente Trump”, afirmou.
Argentina aparece principalmente pelas Malvinas
Apesar de discursar como presidente argentino, Milei dedicou grande parte de sua exposição a questões internacionais e ao funcionamento das Nações Unidas.
A principal pauta diretamente ligada à Argentina foi a disputa com o Reino Unido pelas Ilhas Malvinas, que ganhou espaço significativo no pronunciamento.
“Malvinas é para nós uma causa nacional”, repetiu Milei.
O presidente acusou a ONU de não fazer cumprir suas próprias resoluções e criticou a continuidade da exploração de petróleo na região sob licenças britânicas.
Milei mencionou especificamente o projeto Sea Lion, que prevê exploração de petróleo na Bacia das Malvinas Norte, e afirmou que a Argentina considera ilegais as atividades realizadas sem autorização de Buenos Aires.
O governo argentino adotou nas últimas semanas uma postura mais dura sobre a questão, incluindo sanções contra empresas envolvidas na exploração de petróleo na região.
Milei afirmou que o país não ficará esperando uma ação das Nações Unidas e que pretende utilizar instrumentos jurídicos e econômicos para enfrentar atividades que considera realizadas em território argentino sob ocupação britânica.
A questão das Malvinas ganhou espaço na agenda do governo justamente em um período de desgaste doméstico de Milei. Adversários do presidente têm acusado o governo de intensificar o tema para recuperar apoio interno. O governo, por sua vez, apresenta a ofensiva diplomática como defesa de uma reivindicação histórica da Argentina.
Vaca Muerta e alinhamento com EUA e Israel
Outra referência direta à economia argentina ocorreu quando Milei apresentou Vaca Muerta como oportunidade para investimentos internacionais.
“Venham. Invistam. Desenvolvam. Façam isso conosco”, afirmou ao setor energético.
O presidente disse ainda que a Argentina abandonou um período em que, em suas palavras, “administrava a decadência, a pobreza, o isolamento e a irrelevância”.
Citou a abertura econômica, o capitalismo de livre iniciativa, investimentos em recursos estratégicos, desenvolvimento tecnológico e reconstrução das Forças Armadas como pilares de sua administração.
Não apresentou, entretanto, durante o discurso, um balanço detalhado de indicadores econômicos e sociais de seu governo.
Na política externa, afirmou que a Argentina escolheu se alinhar aos Estados Unidos e a Israel, países com os quais disse compartilhar valores e interesses estratégicos.
Milei também condenou o Irã e lembrou os atentados contra a Embaixada de Israel, em 1992, e a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em 1994.
Pandemia foi chamada de “genocídio”
Um dos ataques mais duros de Milei foi direcionado à atuação de organismos internacionais durante a pandemia de Covid-19.
Ele acusou instituições vinculadas à ONU de promover políticas de confinamento que teriam destruído empregos e prejudicado a educação.
Milei classificou as medidas adotadas durante a emergência sanitária como um “experimento global de controle social disfarçado de ciência” e utilizou o termo “genocídio” para descrevê-las.
Também afirmou que o medo foi utilizado como “ferramenta de governo” durante a pandemia e citou a experiência argentina como uma das razões para sua decisão de retirar o país da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Discurso ocorre em momento de desgaste interno
A participação de Milei na ONU ocorre enquanto diferentes pesquisas mostram desaprovação superior à aprovação de seu governo na Argentina.
Levantamento AtlasIntel/Bloomberg realizado em agosto apontou 58% de desaprovação e 38,1% de aprovação. Em julho, a rejeição havia alcançado 62,4%. A pesquisa indicou pequena melhora no mês seguinte, mas manteve uma diferença de quase 20 pontos entre desaprovação e aprovação.
Outro levantamento, da Universidade de San Andrés, realizado entre 3 e 9 de setembro com 1.004 adultos conectados à internet, encontrou 61% de desaprovação e 35% de aprovação do governo.
A Poliarquía apresentou números menos negativos para Milei, mas também registrou dificuldade de recuperação: a aprovação presidencial ficou em 42% em setembro, mesmo percentual observado em julho e agosto, depois de uma queda durante o primeiro semestre.
Os levantamentos utilizam metodologias diferentes e, por isso, seus percentuais não são diretamente comparáveis. Em comum, registram aprovação abaixo de 50% e um cenário de desgaste maior do que aquele observado em períodos anteriores do governo.
Foi nesse ambiente interno que Milei levou à ONU um discurso predominantemente voltado para a ordem internacional. As Malvinas ocuparam o principal espaço reservado especificamente à Argentina, enquanto boa parte dos demais temas colocou o presidente argentino em sintonia com bandeiras apresentadas por Trump um dia antes na mesma tribuna.


