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Home Colunas

LÚCIO RANGEL, UM CARIOCA

Por Ediel Ribeiro
19 de maio de 2026 - 09:00
em Colunas

Lúcio Rangel / Acervo IMS

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Rio de Janeiro – Lúcio Rangel não foi só o pai da crítica musical brasileira.

Foi mais.

Homem de vasta cultura, Lúcio do Nascimento Rangel, foi jornalista, escritor, crítico, musicólogo, historiador, boêmio incorrigível e um apaixonado pelo Rio de Janeiro.

Era filho de uma família burguesa, teve formação escolar e universitária. Aos 14 anos já tinha lido Machado de Assis e Flaubert, em francês. Era um dos maiores conhecedores de literatura francesa do século XVIII. Fez curso de direito na antiga Universidade do Brasil e defendeu trabalho sobre a influência da filosofia alemã nas escolas de direito penal italiano.

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Apesar dessa formação, Lúcio resolveu viver plenamente a boêmia, o ambiente artístico e a crítica de música popular numa época em que ela não tinha o menor prestígio.

Era um misto de trabalhador, intelectual e boêmio. No entanto, ele jamais deixou de frequentar rodas de letrados e manter contato com dezenas de intelectuais reconhecidos, como Mário de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Vinícius de Moraes, entre tantos outros.

Bebedor de uísque, Lúcio era frequentador assíduo do Bar Villarino. O bar era parada obrigatória dos boêmios cariocas, no final da tarde. O poeta Manuel Bandeira e Lúcio Rangel iam a pé, pois moravam no mesmo prédio, na Av. Beira Mar.

Foi no Villarino, numa dessas tardes etílicas, de maio de 1956, que Vinicius de Moraes foi apresentado a Tom Jobim, pelo Lúcio Rangel. Vinicius precisava de alguém para musicar a peça “Orfeu da Conceição”. Tom Jobim aceitou o convite na hora. E, já com um copo de uísque na mão, perguntou baixinho a Lúcio: “Tem um dinheirinho aí?”

Em uma entrevista para o jornal “Cartoon”, que eu, Jaguar, Ykenga, Ferreth e Leonardo fizemos com Otélo Caçador, amigo de Lúcio Rangel, Otélo  conta, entre outras coisas, que  marcava encontro com  Lúcio Rangel  no antigo “Bar Progresso” e dizia: “Lá no Degrau. Aquele bar que tem um degrau.” Porque tinha um degrau que todo mundo caía, ou na entrada ou na saída. E “Degrau” acabou virando o nome do famoso bar do Leblon.

A bebida preferida da turma era o uísque. O uísque foi trazido pelo Lúcio Rangel que cunhou a frase:  “A melhor bebida do mundo é o uísque”. Depois, é o uísque falsificado.”

A “turma” era Luiz Jatobá, Silveira Sampaio, Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Ary Barroso, Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria e Lúcio Rangel.  O “pole-position” da boêmia era o Lúcio Rangel. Não só da boêmia, era um cara muito culto. “Eu aprendi muito com Lúcio Rangel. Quem nunca tomou um porre com Lúcio Rangel não pode ser considerado carioca” – disse Otélo Caçador.

Lúcio esperava o ‘Bofetada’ abrir, sentado na calçada. No ‘Zepellin’ (outro bar carioca), ao lado da cadeira do Lúcio, passava o encanamento do gás da cozinha, e estava vazando. Como ele era o primeiro a chegar nós já o encontrávamos de porre. Aí ele dizia: “Mas é o meu primeiro uísque, porra!” O porre era de gás – contou, Otélo.

Lúcio era tio do cronista e jornalista Sérgio Porto, sogro do jornalista Sérgio Augusto e pai da jornalista Maria Lucia Rangel. Foi padrinho – uma honra, na época – da Banda de Ipanema. Banda  fundada em 1965, por nomes como Albino Pinheiro, Ziraldo, Fredy Carneiro e o cartunista Jaguar, entre outros.

Embora tenha tido contato com a música, desde a infância, foi pelo jornalismo e pela boêmia que Lúcio Rangel se aproximou de fato da música popular do Rio de Janeiro e de seus artistas.

Lúcio acompanhou Noel Rosa comendo ovos quentes no “Chave de Ouro”. Mário Reis, Vadico, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Sérgio Cabral, João  da Baiana e Cartola pelos bares e morros da cidade. Frequentou a casa de Pixinguinha, Cartola e Paulo da Portela, no subúrbio de Osvaldo Cruz.

Como jornalista, passou por dezenas de redações de jornais e revistas e escreveu centenas e centenas de artigos, construindo influência e ganhando importância como crítico musical.

Lúcio foi também leitor e escritor incansável. Apesar do enorme interesse pela literatura e pela música, Lúcio não se preocupou em escrever livros. Sua única obra, “Sambistas e Chorões”, uma coletânea de textos já escritos e divulgados na imprensa, foi escrita em 1962.

O outro livro – uma nova coletânea de textos publicados em jornais e revistas -, apareceu postumamente em 2007, por esforço de seu genro, o jornalista e crítico Sérgio Augusto, intitulado “Samba, Jazz & Outras Notas” .

Na entrevista dada a O Pasquim, em 1970, Lúcio revelou que o início de sua coleção e fascínio material pelo disco começou ainda muito jovem: “Em 1925, com 11 anos, deixava de ir ao cinema para comprar discos. Era o início de uma paixão que me levou a conviver com intérpretes e compositores do cancioneiro e a escrever sobre eles, em mais de 2 mil artigos, e a criar, em 1954, a Revista da Música Popular” – disse.

A importância de Lúcio Rangel para a música era tanta que  Sérgio Augusto sugeriu que ele teria sido, à época, uma espécie de “google bípede”.

Lúcio Rangel nasceu em 17 de maio de 1914 e faleceu em 13 de dezembro de 1979, há 46 anos, em Nova York.

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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