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Home Notícias Política

Lula volta às origens no ABC para dar largada à campanha pela reeleição

Presidente escolhe estádio que abrigou históricas assembleias de metalúrgicos para iniciar corrida eleitoral, relembra greves que o projetaram nacionalmente e aposta em soberania, segurança pública e comparação entre governos

Por Redação
17 de agosto de 2026 - 09:53
em Política
Lula volta às origens no ABC para dar largada à campanha pela reeleição

Foto: Ricardo Stuckert

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não escolheu por acaso o lugar onde daria o primeiro passo oficial em busca de mais um mandato na Presidência da República. Para iniciar a campanha eleitoral de 2026, neste domingo (16), ele voltou a São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, cidade onde começou a trabalhar como metalúrgico, tornou-se líder sindical e construiu as bases da trajetória que, décadas depois, o levaria ao Palácio do Planalto.

Mais simbólico ainda foi o palco escolhido: o Estádio Municipal 1º de Maio, a antiga Vila Euclides, cenário das grandes assembleias dos metalúrgicos durante as greves de 1979 e 1980. Foi naquele gramado, diante de milhares de trabalhadores, que o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema se transformou de liderança sindical em personagem nacional da política brasileira.

Quase meio século depois, Lula voltou ao mesmo lugar, agora aos 80 anos, presidente da República e candidato à reeleição.

A própria campanha batizou o ato de “Onde Tudo Começou”.

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O nome resume a estratégia escolhida para a largada eleitoral: antes de falar sobre onde pretende chegar, Lula decidiu lembrar de onde veio.

Das fábricas do ABC ao Palácio do Planalto

A história política de Lula está profundamente ligada ao processo de industrialização do ABC Paulista. Migrante nordestino, tornou-se operário metalúrgico e ingressou no movimento sindical até chegar à presidência do sindicato.

No final da década de 1970, em plena ditadura militar, as paralisações dos metalúrgicos desafiaram tanto empresários quanto o governo e transformaram a região em um dos principais centros de mobilização política do país.

A Vila Euclides tornou-se parte dessa história.

As grandes assembleias realizadas no estádio reuniram trabalhadores para decidir os rumos das greves e ajudaram a projetar nacionalmente o nome de Lula. A mobilização sindical daquele período também antecedeu a criação do Partido dos Trabalhadores, fundado em 1980.

Durante o lançamento da campanha, Lula recuperou justamente essas lembranças.

Ao falar sobre a greve de 1979, recordou que chegou a pedir aos trabalhadores um voto de confiança para suspender o movimento e continuar as negociações. A decisão provocou críticas naquele momento, mas Lula afirmou que a greve seguinte mudou a percepção dos trabalhadores sobre sua atuação.

O passado sindical não apareceu apenas como lembrança pessoal. Funcionou como parte da narrativa política escolhida pela campanha: apresentar o atual presidente como resultado de uma trajetória iniciada entre trabalhadores das fábricas e construída ao longo de quase cinco décadas.

Lula pede comparação entre governos

Se a memória ocupou espaço importante, a disputa com o bolsonarismo também apareceu no discurso.

Lula pediu à militância que compare os resultados de seus governos com os registrados durante a administração de Jair Bolsonaro. A estratégia deve se repetir durante a campanha, especialmente em temas como emprego, renda, educação, inflação e políticas sociais.

O presidente também voltou a falar sobre a pandemia de Covid-19 e criticou a condução da crise sanitária durante o governo anterior.

O discurso durou cerca de 36 minutos, bem menos que os 62 minutos registrados durante a convenção partidária. Segundo a cobertura do evento, havia uma orientação para que a fala fosse mais objetiva.

Segurança pública ganha espaço

Um dos movimentos políticos mais relevantes do lançamento foi a entrada mais incisiva de Lula no debate sobre segurança pública, área em que candidatos de direita tradicionalmente tentam obter vantagem eleitoral.

O presidente voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública separado do Ministério da Justiça.

Segundo Lula, a estrutura permitiria ampliar a participação do governo federal e dividir responsabilidades com estados e municípios no enfrentamento às organizações criminosas.

Também endureceu o vocabulário ao falar sobre facções que exercem controle territorial em comunidades.

Lula afirmou que pretende prender aqueles que se consideram donos de favelas e bairros pobres e apresentou números sobre apreensões de patrimônio do crime organizado para comparar sua gestão à de Bolsonaro.

A presença do tema logo no primeiro grande discurso eleitoral sinaliza que o PT não pretende deixar segurança pública como terreno exclusivo da oposição.

Mulheres e evangélicos entram na estratégia

O evento também apresentou sinais de quais segmentos receberão atenção especial da campanha.

Lula fez acenos às mulheres e ao eleitorado evangélico, dois grupos considerados estratégicos para a disputa presidencial. A violência contra a mulher apareceu entre os assuntos abordados e a primeira-dama Janja ganhou espaço no ato.

Janja também fez uma homenagem a Marisa Letícia, ex-primeira-dama que morreu em 2017.

Ao mesmo tempo, Lula pediu aos eleitores que não concentrem suas escolhas apenas na disputa presidencial. Ele defendeu a eleição de uma bancada maior de deputados e senadores alinhados ao governo.

O recado expõe uma dificuldade enfrentada durante o atual mandato: mesmo ocupando a Presidência, Lula governa diante de um Congresso no qual partidos de centro e de direita possuem grande influência.

Bandeira do Brasil e soberania entram em cena

O patriotismo também apareceu como elemento cuidadosamente trabalhado no lançamento.

Uma enorme bandeira brasileira foi aberta no gramado da Vila Euclides. Lula, Janja, Geraldo Alckmin, Fernando Haddad e outros aliados também carregaram a bandeira antes de se sentarem diante do público.

Pouco depois, Fafá de Belém interpretou o Hino Nacional.

A cena não foi apenas protocolar.

Foto: Ricardo Stuckert

A campanha pretende transformar a defesa da soberania nacional em um de seus eixos eleitorais, especialmente diante das tensões recentes com o governo dos Estados Unidos e da proximidade política entre o bolsonarismo e Donald Trump.

No discurso, Lula voltou a tratar de temas relacionados à soberania econômica, entre eles a exploração de minerais estratégicos e a posição do Brasil diante das grandes potências.

A disputa eleitoral, portanto, deverá ocorrer também em torno de um símbolo que durante anos esteve fortemente associado às manifestações bolsonaristas: a bandeira brasileira.

Palanque reúne ministros, candidatos e sindicalistas

O lançamento também funcionou como demonstração da estrutura política que acompanhará Lula durante a campanha.

Dez ministros, dirigentes partidários, representantes de movimentos sindicais e candidatos de diferentes estados participaram do evento. Entre os nomes no palco estavam as ex-ministras Marina Silva e Simone Tebet, ambas candidatas ao Senado por São Paulo, além de candidatos a governos estaduais e ao Senado de várias regiões do país.

Geraldo Alckmin voltou ao palco como candidato a vice-presidente, repetindo a composição da chapa vencedora de 2022.

O PT informou que cerca de 40 mil pessoas participaram do lançamento. O número, entretanto, deve ser tratado como estimativa dos organizadores. Não houve uma contagem independente equivalente à realizada em alguns outros atos políticos.

Onde tudo começou

Mais do que simplesmente escolher São Bernardo do Campo, Lula procurou transformar a própria biografia em argumento eleitoral.

O operário que chegou ao ABC paulista, tornou-se torneiro mecânico, comandou greves durante a ditadura, ajudou a fundar um partido político, perdeu três eleições presidenciais antes de chegar ao Planalto e posteriormente retornou à Presidência depois de passar 580 dias preso voltou ao palco que ajudou a projetá-lo nacionalmente.

A campanha começou olhando para trás justamente para construir a narrativa do que pretende apresentar pela frente.

A Vila Euclides que recebeu o sindicalista Lula no final dos anos 1970 recebeu agora o presidente Lula em busca de mais um mandato.

Para uma trajetória política construída em grande parte sobre símbolos, dificilmente haveria lugar mais carregado deles para começar outra campanha presidencial.

Tags: campanha presidencialeleições 2026Estádio 1º de MaioGeraldo Alckmingreve dos metalúrgicosLulametalúrgicos do ABCPTreeleição de LulaSão Bernardo do CampoVila Euclides
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