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Lula e Flávio apresentam propostas, trocam ataques e encerram debates antes do segundo turno

Presidente explorou realizações de seus governos e histórico do adversário, enquanto senador concentrou críticas no custo de vida, endividamento e segurança; confronto teve pedido de desculpas, discussão sobre Banco Master e informações falsas

Por Redação
24 de outubro de 2026 - 10:38
em Brasil
Lula e Flávio apresentam propostas, trocam ataques e encerram debates antes do segundo turno

Foto: Globo/Manoella Mello

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Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) fizeram na noite de sexta-feira (23), na TV Globo, o último debate antes do segundo turno da eleição presidencial. O encontro teve mais espaço para propostas do que o confronto realizado pela Band, mas terminou novamente marcado por ataques pessoais, acusações envolvendo pessoas próximas aos candidatos e informações posteriormente contestadas por agências de checagem.

Mediado por César Tralli, o debate teve quatro blocos. Nos três primeiros, temas definidos pela emissora obrigaram os candidatos a passar por economia, infraestrutura, políticas sociais, saúde, educação, segurança pública e questões relacionadas às diferentes regiões do país. O último bloco foi de tema livre. A Globo também limitou a circulação pelo estúdio para impedir que um candidato permanecesse atrás do outro enquanto o adversário falava, como ocorreu no debate da Band.

O formato levou Lula e Flávio a apresentar um número maior de propostas e posições de governo, embora os dois frequentemente aproveitassem as perguntas para deslocar a discussão para outros temas.

Lula baseou boa parte de sua estratégia na comparação entre seus governos e a gestão de Jair Bolsonaro. Citou salário mínimo, Bolsa Família, investimentos públicos, obras de infraestrutura, combate à fome, universidades, institutos federais e expansão de programas sociais.

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Flávio concentrou suas críticas principalmente no preço dos alimentos, endividamento das famílias, carga tributária, juros e segurança pública. Também buscou se desvincular de posições anteriores e apresentou propostas próprias para programas sociais, transporte, saúde, infraestrutura e combate ao crime.

Salário mínimo leva a momento mais tenso

Um dos principais confrontos da noite começou durante uma discussão sobre salário mínimo.

Ao criticar os efeitos dos impostos e da inflação sobre a renda, Flávio afirmou que Lula “dá com uma mão e tira com nove dedos”, em referência ao dedo perdido pelo presidente em um acidente de trabalho quando era torneiro mecânico.

Lula reagiu no bloco seguinte.

Disse que começou a trabalhar ainda criança, relembrou sua trajetória como operário e o acidente sofrido aos 17 anos. Em seguida, afirmou que milhões de trabalhadores também sofrem acidentes no exercício da profissão e exigiu um pedido de desculpas.

“Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”, disse Lula.

Flávio pediu desculpas.

“Lula, se eu te ofendi, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender”, afirmou.

Na sequência, voltou a atacar o governo e questionou se Lula também pediria desculpas às famílias endividadas, às pessoas em situação de rua e às mulheres vítimas da violência.

A expressão “miliciano”, utilizada por Lula, também provocou pedidos de direito de resposta. Ao longo do debate, a Globo concedeu três direitos de resposta a Flávio e um a Lula.

Economia, dívidas e programas sociais

O custo de vida foi uma das principais linhas utilizadas por Flávio.

O candidato responsabilizou a política econômica do governo pelo endividamento e pelos juros elevados e apresentou uma proposta para utilizar a Caixa Econômica Federal na compra de dívidas de pessoas físicas e empresas junto aos bancos.

Segundo ele, pessoas físicas teriam seis meses antes de iniciar os pagamentos, enquanto empresas teriam prazo de um ano.

Lula respondeu citando o Desenrola e outras iniciativas de renegociação adotadas durante seu governo. Também voltou a defender a política de valorização real do salário mínimo.

Flávio afirmou que, se eleito, manterá reajustes do salário mínimo e das aposentadorias acima da inflação.

Outro tema foi a tarifa zero nos transportes públicos aos fins de semana, proposta apresentada por Lula durante a campanha. Questionado pelo presidente, Flávio disse ser favorável à medida.

Os programas de transferência de renda também apareceram.

Lula lembrou declarações antigas em que Flávio utilizou a expressão “bolsa-farelo” ao falar de programas sociais. O senador prometeu manter e reajustar o Bolsa Família e criar uma regra de transição para beneficiários que conseguirem emprego formal ou abrirem uma empresa.

Lula também questionou Flávio sobre o voto contrário, quando deputado estadual no Rio de Janeiro, a um projeto que ampliava de 120 para 180 dias a licença-maternidade das servidoras estaduais.

Diferentemente do debate da Band, Flávio respondeu diretamente.

Disse que acreditava, na época, que a ampliação poderia dificultar a contratação de mulheres e reconheceu que sua avaliação estava errada.

“Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância da mãe estar perto do filho”, afirmou.

SUS, educação, Nordeste e infraestrutura

Na saúde, Lula defendeu o SUS e voltou a questionar a condução da pandemia durante o governo Jair Bolsonaro.

Flávio também defendeu a manutenção do sistema público, mas criticou as filas de consultas e cirurgias. Prometeu atualizar a tabela de procedimentos do SUS e renegociar dívidas das Santas Casas.

Na educação, Lula prometeu ampliar o ensino em tempo integral e estender o Pé-de-Meia. Flávio disse que manteria o programa e defendeu auxílio-creche, ensino técnico e maior presença de novas tecnologias no currículo.

Os candidatos também discutiram infraestrutura no Nordeste.

Lula citou a transposição do São Francisco, a Transnordestina e a expansão das universidades e institutos federais.

Flávio prometeu concluir a Transnordestina, defendeu uma ferrovia de passageiros ligando capitais nordestinas entre Salvador e São Luís e afirmou que pretende trabalhar em parceria com governadores independentemente do partido. Também prometeu isenção de pedágio para motocicletas em novas concessões rodoviárias.

Agronegócio, crédito rural, saneamento e preservação da Amazônia completaram as discussões regionais.

Segurança coloca caso de Ana Clara no centro do debate

A segurança pública produziu outro dos momentos de maior tensão.

Flávio defendeu redução da maioridade penal para 16 anos, podendo chegar a 14 em casos de estupro, endurecimento das penas, castração química de condenados por crimes sexuais e classificação de PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas.

Lula defendeu a PEC da Segurança Pública, a criação de um Ministério da Segurança e o fortalecimento da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.

O presidente também levou para o debate o caso de Ana Clara Gomes Machado, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil durante uma ação policial em Niterói, em 2021. A mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, acompanhava o debate no estúdio.

Flávio integrou a defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado no processo. Ao responder, manifestou solidariedade à família, mas disse acreditar que o policial que defendeu não foi responsável pelo disparo.

O caso levou Lula a voltar ao histórico de Flávio no Rio de Janeiro e às declarações anteriores do senador sobre milícias.

Bets também entram no confronto

A proibição das plataformas de apostas on-line entrou no debate.

Lula defendeu a medida adotada por seu governo e associou as bets ao endividamento das famílias.

Flávio afirmou que o governo deixou o setor crescer e decidiu proibi-lo somente na reta final da eleição. Também criticou o impacto da medida sobre clubes de futebol patrocinados por empresas de apostas.

A discussão acabou chegando à origem da regulamentação dos jogos on-line, tema que também seria alvo das agências de checagem.

Último bloco volta ao Banco Master

Com tema livre, o quarto bloco mudou o perfil do debate.

As propostas perderam espaço para as investigações e denúncias que marcaram a reta final da campanha.

Lula questionou Flávio sobre sua relação com o advogado Willer Tomaz e sobre uma disputa envolvendo um imóvel em Angra dos Reis. O presidente também voltou ao Banco Master, ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro.

Flávio afirmou que Willer é seu amigo, mas negou sociedade com o advogado. Também negou irregularidades envolvendo o projeto cinematográfico.

Na outra direção, o senador trouxe ao debate Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, acusações envolvendo o INSS e um suposto presente de Daniel Vorcaro a Lula — uma garrafa de uísque que Flávio disse valer R$ 500 mil.

Os dois também voltaram à discussão sobre abertura de sigilos e patrimônio.

O último bloco terminou bem diferente dos três anteriores: menos propostas e mais acusações envolvendo investigações, familiares e pessoas próximas aos candidatos.

Nas considerações finais, Flávio voltou ao custo de vida e à segurança. Lula destacou resultados de seus governos e tratou a eleição como uma escolha sobre a continuidade de seu projeto político.

O que disseram as agências de checagem

A Agência Lupa analisou 35 declarações feitas durante o debate. Segundo o levantamento divulgado na manhã deste sábado (24), 20 foram classificadas como falsas, exageradas ou fora de contexto e 11 como verdadeiras.

Entre as afirmações de Flávio classificadas como falsas, está a de que Lula seria o “pai do Tigrinho”. As apostas de quota fixa foram autorizadas no Brasil por lei sancionada em 2018, durante o governo Michel Temer. Também foi classificada como falsa a afirmação de que Jair Bolsonaro não debochou de pessoas com falta de ar durante a pandemia.

O Aos Fatos também classificou como falsa a afirmação de Flávio de que Lula teria defendido que ladrões roubam celulares para “tomar uma cervejinha”. A frase utilizada nas redes é resultado da distorção de uma declaração sobre torcedores de futebol rivais.

Entre as afirmações verdadeiras de Flávio, o Aos Fatos confirmou que a dívida bruta do governo atingiu cerca de R$ 11 trilhões e que o número de pessoas registradas em situação de rua aumentou significativamente entre 2022 e 2026. Também confirmou que a disputa judicial entre Willer Tomaz e Richarlison envolvendo um imóvel em Angra transitou em julgado.

Lula também teve declarações contestadas. Foi classificada como falsa a afirmação de que a economia brasileira não havia crescido acima de 3% desde 2010. O PIB superou essa marca em anos posteriores. A declaração de que o Brasil havia “erradicado a fome” em 2012 também foi considerada incorreta; o país deixou o Mapa da Fome da ONU em 2014.

Entre as afirmações de Lula confirmadas, as checagens apontaram que as exportações brasileiras alcançaram volume recorde em 2025, que Flávio votou contra a ampliação da licença-maternidade na Assembleia Legislativa do Rio e que o senador utilizou anteriormente a expressão “bolsa-farelo”. Também foram confirmadas as afirmações sobre a existência de mais de 5,6 mil obras de educação paralisadas no início de 2023 e sobre a abertura de cerca de 700 novos mercados para produtos agropecuários.

Lula e Flávio voltam a se enfrentar neste domingo (25), quando os eleitores escolherão o presidente da República para os próximos quatro anos.

Tags: Agência LupaAos FatosBanco MasterDaniel Vorcarodebate presidencialeleições 2026Flávio BolsonaroLulasalário mínimosegundo turnosegurança públicaTV GloboWiller Tomaz
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