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Home Colunas

Luiz Gê e “O Balão”

Por Ediel Ribeiro
23 de setembro de 2019 - 09:14
em Colunas

Luiz Geraldo Ferrari Martins, Luiz Gê (Foto: Divulgação)

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Rio –  No final da década de 70, quando se mudou com seus personagens para São Paulo, Henfil dizia: “As coisas estão acontecendo em São Paulo. Tudo acontece lá. Na área cultural e política”.

E estava.

No Rio de Janeiro, tinha a patota do “Pasquim”. Só.

Em São Paulo nascia a ADesp (Associação dos Desenhistas do Estado de São Paulo) e a ABD (Associação Brasileira de Desenhistas). 

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Lá, Jayme Cortez e Miguel Penteado fundavam a Editora Continental com revistas 100% nacionais. A editora produziu dezenas de quadrinhos de humor, terror e combate. Descobrindo novos quadrinistas e gerando emprego para muitos artistas daquela época.

E Toninho Mendes criava a seminal “Circo”.

Foi nesse cenário que, abrigados em universidades como a FAU e a ECA, dezenas de artistas se mobilizavam e criavam uma efervecência cultural. Nas artes plásticas e nos quadrinhos, principalmente.

Entre eles, o cartunista Luiz Geraldo Ferrari Martins.  

Luiz Gê, como era conhecido, nasceu na cidade de Ribeirão Pires (SP), em 1951, e ainda criança se mudou para São Paulo.

Foi no meio acadêmico que Luiz Gê conheceu Laerte Coutinho. 

Laerte tinha a idéia de criar uma revista em quadrinhos; idéia que também passava pela cabeça do Gê, desde os tempos em que trabalhou na “Versus”. 

Juntos com a Lúcia – a então mulher do Laerte – Lorde K e Fausto – dois amigos do Laerte que logo em seguida abandonaram o meio – fizeram uma reunião onde criaram uma revista que romperia com os modelos das HQs vigentes à época. 

Nascia, em novembro de 1972, “O Balão”, a primeira revista Undergroud brasileira, com capa de Luiz Gê.

A revista abordava temas emblemáticos: futebol, mulheres, drogas, o universo contracultural, o universo universitário, os conflitos familiares e as lutas de classes.

A partir da experiência pioneira da “O Balão”, as histórias em quadrinhos deixaram de ser direcionadas exclusivamente para o público infantil e adolescente e adquiriram conteúdo critico, iniciando a gênese dos modernos quadrinhos adultos brasileiros.

Depois que saiu o primeiro número, a revista, hoje raridade, começou a aglutinar talentos, revelando uma brilhante geração de quadrinistas, cartunistas e ilustradores brasileiros como  Laerte, Luiz Gê, Alcy, Angeli, Magnani, Paulo Santos, Xalberto, Sian, Miaidara, Paulo e Chico Caruso, entre outros.

“O Balão” era vendido de mão em mão pelos próprios artistas em bares, filas de cinemas, sinais de trânsito ou era deixado em consignação em poucas e raras livrarias especializadas.

A revista crescia de forma espantosa, e com o sucesso veio a primeira divergência no grupo: uma parte dos desenhistas, liderados pelo Luiz Gê, era favorável que a revista fosse para as bancas e outra facção, encabeçada pelo Laerte, na época bastante engajado em ações políticas e culturais tinha uma visão completamente diferente.

Está oposição de concepções causou um racha na redação. Laerte deixou o grupo, Paulo Santos – na época marido da Conceição Cahú – voltou para Recife e Chico Caruso veio para o Rio trabalhar na redação do jornal Opinião.

Acabava alí, na nona edição, a trajetória da “O Balão”.

O Sonho de Luiz Gê, de uma revista de banca, só foi retomado anos mais tarde na revista “Circo”, do Toninho Mendes.

Se não tivesse feito mais nada, só a criação da “O Balão” já daria a Luiz Gê um lugar de destaque no mundo do cartum e da história em quadrinhos brasileira.

Mas Luiz Gê fez mais: foi jornalista, cartunista, editor, e professor de desenho.  Trabalhou nos jornais “Folha de São Paulo”, “Estado de São Paulo”, “Jornal da Tarde”, “Jornal do Brasil”, “Folha de Londrina”, “Movimento”, “Versus”, “Pasquim” e nas revistas “Circo”, “Status”, “Veja”, “Visão”, “Isto É” e “Placar”, entre outras.

Anos mais tarde quando o cartunista Fortuna lançou sua revista “O Bicho”, contou para Luiz Gê que tinha se baseado na experiência da “O Balão”. 

Luiz Gê, então, disse: “Gostei de ouvir isto! O que me assegura que entramos para a história”.

Entrou mesmo.

Tags: Coluna do Edielluiz gêo balãoquadrinhosRio de Janeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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