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Home Colunas

LEON ELIACHAR, UM ‘CAIROCA’

Por Ediel Ribeiro
29 de maio de 2023 - 11:35
em Colunas

Arquivo - 

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Rio de Janeiro – Outro dia, numa entrevista que dei, me perguntaram sobre as minhas influências no desenho de humor.

Falei de Robert Crumb, Palomo e Angeli. 

Mas também tenho meus ídolos e influências na minha escrita. Sou fã de João Saldanha, Nelson Rodrigues, Jaguar e Ruy Castro. Mas, os que mais influenciaram no meu estilo de escrever humor foram Art Burchard, Woody Allen, Luiz Fernando Veríssimo, Carlos Eduardo Novaes e Leon Eliachar.

Tenho quase todos os livros dos três últimos. Aliás, do Leon Eliachar, tenho todos. Até porque sua carreira foi interrompida prematuramente, quando estava no auge.

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Foi assassinado, no seu apartamento, no Rio de Janeiro, em 29 de maio de 1987, a mando de um marido traído. 

O escritor escreveu “O Homem ao Quadrado” (1960), “O Homem ao Cubo” (1963), “A Mulher em Flagrante” (1965), “O Homem ao Zero” (1967) e “O Homem ao Meio” (1979). 

Além desses, escreveu, em parceria com Millôr, Fortuna, Ziraldo , Jaguar, Claudius, Zélio, Henfil, Vagn e Stanislaw Ponte Preta, o clássico “10 em Humor”, de 1968.

Leon Eliachar nasceu no Cairo, no Egito, no dia 12 de outubro de 1922. Veio com 10 meses para o Brasil. Nunca se naturalizou, mas era tão brasileiro quanto qualquer brasileiro. 

Foi um dos nossos melhores jornalistas de humor. Começou aos 16 anos escrevendo textos para jornais. Trabalhou em diversos jornais e revistas, entre elas, “Manchete”, “Cruzeiro”, “Fatos & Fotos”, “Cigarra”, “Revista da TV”, “Fon-Fon”, “Pif-Paf”, “Diário de Notícia” e “Ùltima Hora”, onde mantinha uma página com o título de “Penúltima Hora”.

Trabalhou ainda nas TVs “Tupi”, “Excelsior”, “Globo”, “SBT” e nas rádios, “Tupi” e “Mayrink Veiga”.

O “Cairoca”, como se auto-denominava, tinha um humor “non sense”, espirituoso, inteligente e cáustico. Escrevia admiravelmente bem. Leia seu necrológio, escrito por ele mesmo. 

Ei-lo: “O meu quem faz sou eu, que não sou bobo. Detesto a pressa dos jornalistas que querem fechar a página do jornal de qualquer maneira e acabam enchendo o espaço com os lugares-comuns do sentimentalismo. Nada de ‘coitadinho, era um bom rapaz’ nem que ‘era tão moço’. 

Há muito deixei de ser um bom rapaz e nem sou tão moço assim. Quero que o meu necrológio seja sincero, porque de nada me valerá a vaidade depois de eu morrer. Há não ser a vaidade de estar morto. 

Fui mau filho, mas isso não quer dizer que meus pais fossem melhores filhos que eu se fosse eu o pai. 

Não fui mau marido e acredito que seja porque não tivesse chance de ser, vontade não me faltou. 

Nunca roubei, nunca menti: esses os meus piores defeitos. Minha grande qualidade era ter todos os outros defeitos. 

Fui egoísta toda vida, como todo mundo, mas nunca revelei nada a ninguém, como todo mundo. Passei a vida tentando fazer os outros rirem de si mesmos: É possível que agora riam de mim. 

Fui valente e fui covarde. Nunca tive medo de mim mesmo, o que prova a minha valentia. Nunca amei ao próximo como a mim mesmo, em compensação nunca ninguém me amou como eu mesmo. 

Tive milhões de complexos e venci-os todos, um por um, com exceção do complexo de morrer: esse morre comigo. 

Nunca dei nem tomei nada de ninguém, mas faço questão de deixar tudo o que não tenho para os que têm menos do que eu. 

Nunca cobicei a mulher do próximo: só a do afastado. 

Jamais entendi perfeitamente o que era o ‘bem’ e o ‘mal’, embora a maioria das pessoas me achasse um homem de bem e este era o mal. 

Defendi a minha vida como pude, mas nunca arrisquei a vida para defendê-la. Nunca me preocupei com dinheiro, pois sempre tive pouco. Acreditei mais nos inimigos do que nos amigos, porque os amigos nem sempre se preocupam com a gente. 

Jamais tive um segredo, passei todos adiante. Conquistei muitas mulheres, algumas com os olhos, outras com os lábios e outras com o braço. 

Tive pavor dos médicos, porque eles sempre descobrem as doenças que a gente nem sabia que tinha há tanto tempo. Me orgulho de ter vivido oitenta anos em apenas quarenta. 

Finalmente, me livrei dessa maldita insônia.”

N.A.: Leon Eliachar se foi há 36 anos. Em boa hora, diria ele, com seu humor sem auto-piedade.
 

Tags: ColunaEdiel Ribeiro
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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