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Home Colunas

LEON ELIACHAR, UM CAIROCA

Por Ediel Ribeiro
17 de abril de 2020 - 00:10
em Colunas

Leon Eliachar - Divulgação

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Rio de Janeiro – Outro dia, numa entrevista que dei, me perguntaram sobre as minhas influências no desenho de humor.

Falei de Robert Crumb, Palomo e Angeli. 

Mas também tenho meus ídolos e influências na minha escrita. Sou fã de João Saldanha, Nelson Rodrigues, Jaguar e Ruy Castro. Mas, os que mais influenciaram no meu estilo de escrever humor foram Art Burchard, Woody Allen, Luiz Fernando Veríssimo, Carlos Eduardo Novaes e Leon Eliachar.

Tenho quase todos os livros dos três últimos. Aliás, do Leon Eliachar, tenho todos. Até porque sua carreira foi interrompida prematuramente, quando estava no auge.

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Foi assassinado, no Rio de Janeiro, num quarto de hotel, a mando de um marido traído. 

O escritor escreveu “O Homem ao Quadrado” (1960), “O Homem ao Cubo” (1963), “A Mulher em Flagrante” (1965), “O Homem ao Zero” (1967) e “O Homem ao Meio” (1979). 

Além desses, escreveu, em parceria com Millôr, Fortuna, Ziraldo , Jaguar, Claudius, Zélio, Henfil, Vagn e Stanislaw Ponte Preta, o clássico “10 em Humor”, de 1968.

Leon Eliachar nasceu no Cairo, no Egito, no dia 12 de outubro de 1922. Veio com 10 meses para o Brasil. Nunca se naturalizou, mas era tão brasileiro quanto qualquer brasileiro. 

Foi um dos nossos melhores jornalistas de humor. Começou aos 16 anos escrevendo textos para jornais. Trabalhou em diversos jornais e revistas, entre elas, “Manchete”, “Cruzeiro”, “Fatos & Fotos”, “Cigarra”, “Revista da TV”, “Fon-Fon”, “Pif-Paf”, “Diário de Notícia” e “Ùltima Hora”, onde mantinha uma página com o título de “Penúltima Hora”.

Trabalhou ainda nas TVs “Tupi”, “Excelsior”, “Globo”, “SBT” e nas rádios, “Tupi” e “Mayrink Veiga”.

O “Cairoca”, como se auto-denominava, tinha um humor “non sense”, espirituoso, inteligente e cáustico. Escrevia admiravelmente bem. Leia seu necrológio, escrito por ele mesmo.

Ei-lo: “O meu quem faz sou eu, que não sou bobo. Detesto a pressa dos jornalistas que querem fechar a página do jornal de qualquer maneira e acabam enchendo o espaço com os lugares-comuns do sentimentalismo. Nada de ‘coitadinho, era um bom rapaz’ nem que ‘era tão moço’. 

Há muito deixei de ser um bom rapaz e nem sou tão moço assim. Quero que o meu necrológio seja sincero, porque de nada me valerá a vaidade depois de eu morrer. Há não ser a vaidade de estar morto. Fui mau filho, mas isso não quer dizer que meus pais fossem melhores filhos que eu se fosse eu o pai. 

Não fui mau marido e acredito que seja porque não tivesse chance de ser, vontade não me faltou. Nunca roubei, nunca menti: esses os meus piores defeitos. Minha grande qualidade era ter todos os outros defeitos. 

Fui egoísta toda vida, como todo mundo, mas nunca revelei nada a ninguém, como todo mundo. Passei a vida tentando fazer os outros rirem de si mesmos: É possível que agora riam de mim. Fui valente e fui covarde. Nunca tive medo de mim mesmo, o que prova a minha valentia. Nunca amei ao próximo como a mim mesmo, em compensação nunca ninguém me amou como eu mesmo. 

Tive milhões de complexos e venci-os todos, um por um, com exceção do complexo de morrer: esse morre comigo. Nunca dei nem tomei nada de ninguém, mas faço questão de deixar tudo o que não tenho para os que têm menos do que eu. Nunca cobicei a mulher do próximo: só a do afastado. 

Jamais entendi perfeitamente o que era o ‘bem’ e o ‘mal’, embora a maioria das pessoas me achasse um homem de bem e este era o mal. Defendi a minha vida como pude, mas nunca arrisquei a vida para defendê-la. Nunca me preocupei com dinheiro, pois sempre tive pouco. Acreditei mais nos inimigos do que nos amigos, porque os amigos nem sempre se preocupam com a gente. 

Jamais tive um segredo, passei todos adiante. Conquistei muitas mulheres, algumas com os olhos, outras com os lábios e outras com o braço. Tive pavor dos médicos, porque eles sempre descobrem as doenças que a gente nem sabia que tinha há tanto tempo. Me orgulho de ter vivido oitenta anos em apenas quarenta. Finalmente, me livrei dessa maldita insônia.”

Leon Eliachar se foi há 33 anos. Em boa hora, diria ele, com seu humor sem auto-piedade.

Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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