O Peru iniciou nesta terça-feira (28) um novo capítulo de sua história política. Keiko Fujimori tomou posse como presidente da República para o mandato de 2026 a 2031, tornando-se a primeira mulher eleita pelo voto popular para comandar o país e devolvendo ao poder o fujimorismo, movimento político que dominou o cenário peruano nos anos 1990 sob a liderança de seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori.
A cerimônia ocorreu no Congresso peruano, em Lima, diante de chefes de Estado, representantes internacionais e parlamentares. Ao prestar juramento, Keiko prometeu defender a Constituição, fortalecer a democracia, recuperar a segurança pública e trabalhar pela reconstrução da confiança nas instituições do país.
Em seu primeiro discurso como presidente, a nova chefe de Estado também defendeu a reconciliação nacional, reconhecendo que assume um país profundamente dividido após uma das eleições mais disputadas da história recente do Peru.
Vitória apertada encerrou longa trajetória eleitoral
A posse representa o desfecho de uma trajetória marcada por derrotas e persistência política.
Depois de disputar a Presidência em diversas ocasiões sem sucesso, Keiko Fujimori venceu o segundo turno das eleições de junho por uma margem extremamente estreita sobre o candidato de esquerda Roberto Sánchez.
Segundo o Jurado Nacional de Eleições (JNE), a candidata da Fuerza Popular recebeu 9.223.396 votos, contra 9.173.755 do adversário — uma diferença de cerca de 49,6 mil votos, equivalente a pouco mais de 50,1% dos votos válidos.
A disputa foi marcada por questionamentos da oposição, acusações de fraude rejeitadas pelas autoridades eleitorais e forte polarização entre o interior andino, majoritariamente favorável à esquerda, e os grandes centros urbanos, onde Keiko concentrou sua vantagem.
Retorno de uma dinastia que marcou a política peruana
A chegada de Keiko ao Palácio de Governo simboliza o retorno ao poder de uma das famílias mais influentes da política peruana.
Seu pai, Alberto Fujimori, governou o país entre 1990 e 2000. Durante seu mandato, implementou reformas econômicas liberais, controlou a hiperinflação e liderou a ofensiva que enfraqueceu grupos guerrilheiros como o Sendero Luminoso, conquistando amplo apoio popular.
Ao mesmo tempo, seu governo ficou marcado por graves denúncias de violações de direitos humanos, corrupção e autoritarismo. Após deixar o poder, Alberto Fujimori foi condenado pela Justiça peruana por crimes relacionados a execuções extrajudiciais e outros abusos cometidos durante seu governo.
Ao longo da campanha, Keiko procurou diferenciar sua futura administração dos episódios mais controversos do pai, embora tenha mantido o discurso de valorização das políticas econômicas implementadas durante a década de 1990.
Segurança e economia dominam prioridades
Em sua campanha, Keiko Fujimori concentrou as propostas em dois temas considerados prioritários pelos peruanos: o combate ao avanço do crime organizado e a retomada do crescimento econômico.
Entre os compromissos anunciados estão o fortalecimento das forças de segurança, a construção de um megapresídio inspirado no modelo adotado por El Salvador, o endurecimento do combate ao narcotráfico e à mineração ilegal, além de medidas para estimular investimentos privados e ampliar a geração de empregos.
Na área econômica, a presidente nomeou o economista Elmer Cuba para o Ministério da Economia e Finanças e prometeu preservar a estabilidade macroeconômica de um dos países com maior produção de cobre do mundo.
País tenta superar uma década de instabilidade
Keiko assume o comando de um país que vive um dos períodos de maior instabilidade institucional de sua história recente.
Em apenas dez anos, o Peru teve nove presidentes, resultado de sucessivos processos de impeachment, renúncias, dissoluções do Congresso e crises políticas que abalaram a confiança da população nas instituições democráticas.
Apesar do histórico recente, a nova presidente chega ao poder em uma posição política mais confortável que a de seus antecessores. Seu partido, a Fuerza Popular, conquistou uma das maiores bancadas do novo Congresso bicameral, o que tende a facilitar a aprovação de parte da agenda do governo, embora não elimine os desafios de negociação com outras forças políticas.
Posse reuniu líderes internacionais
A cerimônia de posse contou com a presença de diversas autoridades estrangeiras, entre elas o rei Felipe VI, da Espanha, além dos presidentes Daniel Noboa (Equador), Santiago Peña (Paraguai), José Raúl Mulino (Panamá), Yamandú Orsi (Uruguai) e representantes dos Estados Unidos e de outros países.
Enquanto apoiadores celebravam o retorno do fujimorismo ao poder, grupos contrários realizaram protestos em Lima, mantendo viva a polarização que marcou todo o processo eleitoral.


