A divulgação de imagens do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), desembarcando de um jatinho ligado a Daniel Vorcaro virou munição para a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O senador compartilhou o vídeo, atacou o ministro e relacionou o episódio às revelações envolvendo o ex-controlador do Banco Master.
Dias depois, uma nova informação colocou o próprio Flávio dentro da mesma aeronave.
O senador havia viajado dos Estados Unidos para Brasília, em janeiro de 2025, no mesmo Legacy 650, prefixo PP-NLR, utilizado meses depois por Moraes e pela mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes.
Quando Flávio fez a viagem, uma empresa que tinha Vorcaro como sócio já possuía participação no avião. Naquele mesmo período, o senador negociava com o banqueiro um financiamento de até US$ 24 milhões para “Dark Horse”, filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro.
Vídeo de Moraes virou arma da campanha
A sequência começou no último fim de semana, quando vieram a público imagens registradas em agosto de 2025 mostrando Moraes e Viviane desembarcando do PP-NLR.
O escritório Barci de Moraes confirmou a utilização de aeronaves operadas pela Prime Aviation. Em nota, informou que contrata serviços de táxi aéreo de diferentes empresas e afirmou que Daniel Vorcaro ou outras pessoas alheias ao escritório não estavam presentes nos voos realizados por seus integrantes.
Flávio rapidamente levou o episódio para a campanha eleitoral.
No domingo (20), compartilhou o vídeo nas redes sociais e utilizou as imagens para atacar Moraes. Em sua manifestação, chamou o ministro de responsável pela volta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder e afirmou que Moraes teria “aparelhado o Estado”. Na mesma publicação, usou o termo “máfia” ao se referir à atuação do ministro.
A ligação da aeronave com Vorcaro era o elemento central da crítica.
Naquele momento, porém, ainda não havia sido divulgado que Flávio também tinha viajado no mesmo avião — e antes de Moraes.
Flávio usou o mesmo avião sete meses antes
A nova informação foi publicada pela revista piauí nesta quarta-feira (23).
A reportagem cruzou registros históricos de tráfego aéreo, movimentações aeroportuárias e dados do Registro Aeronáutico Brasileiro e identificou que o avião utilizado por Flávio em 19 de janeiro de 2025 era justamente o PP-NLR.
O Legacy decolou de Fort Lauderdale, na Flórida, e pousou em Brasília. Flávio estava acompanhado da mulher, Fernanda Bolsonaro, das duas filhas e do advogado Willer Tomaz.
A Prime You, empresa da qual Vorcaro era sócio, já havia adquirido sua participação na aeronave no fim de 2024, antes da viagem de Flávio. A empresa também fazia a gestão operacional do jatinho por meio da Prime Aviation.
Portanto, a cronologia mostra que Flávio utilizou o avião ligado a Vorcaro cerca de sete meses antes de Moraes ser filmado desembarcando da mesma aeronave.
Procurado pela piauí antes da publicação da reportagem, Flávio não respondeu aos questionamentos sobre o voo.
Após a revelação, nesta quinta-feira (24), o senador se manifestou nas redes sociais. Flávio afirmou que, à época, considerava que o avião pertencia ao advogado Willer Tomaz e ironizou a repercussão:
“Ainda bem que na época o avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes.”
Viagem ocorreu em plena negociação com Vorcaro
A data do voo acrescenta outro elemento à relação entre Flávio e Vorcaro.
Quando o senador retornou dos Estados Unidos, estava em andamento a negociação para que o então controlador do Banco Master financiasse “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro.
O projeto previa financiamento de US$ 24 milhões.
O cronograma estabelecia que a primeira parcela, de US$ 2 milhões, deveria ser liberada em 20 de janeiro de 2025 — exatamente um dia depois de Flávio desembarcar em Brasília no jatinho ligado a Vorcaro.
Na própria data prevista para o pagamento, Flávio enviou mensagem a Thiago Miranda, intermediário das negociações, pedindo que desse “um gás na resposta do jurídico do investidor”.
Miranda então procurou Vorcaro:
“Cara, hoje é a data-limite daquele primeiro aporte do filme. Preciso acelerar.”
O dinheiro não foi liberado naquele dia. A primeira transferência ocorreu em 13 de fevereiro, quando US$ 2 milhões foram enviados pela Entre Investimentos e Participações ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.
Ao menos US$ 12,3 milhões acabaram sendo transferidos ao fundo relacionado ao financiamento de Dark Horse, conforme pagamentos confirmados às autoridades por Antonio Freixo, o Mineiro, em acordo de colaboração premiada homologado.
Do ataque a Moraes à revelação sobre Flávio
A sequência das revelações mudou o contexto político em poucos dias.
Primeiro, vieram a público as imagens de Moraes e Viviane desembarcando do avião ligado a Vorcaro. Flávio utilizou o episódio para atacar o ministro durante a campanha presidencial.
Depois, descobriu-se que o senador também havia viajado no PP-NLR e antes de Moraes.
No caso de Flávio, a viagem ainda coincide com um período em que ele mantinha interlocução para conseguir um financiamento milionário de Vorcaro destinado a Dark Horse. O primeiro pagamento previsto no cronograma deveria ocorrer no dia seguinte ao desembarque do senador em Brasília.
A relação de Flávio com o financiamento do filme já aparece em investigação no STF. Documentos obtidos pela Polícia Federal registram contatos e cobranças do senador relacionadas aos aportes de Vorcaro. Segundo a Folha, Flávio é formalmente investigado no inquérito relacionado ao longa.
A revelação sobre o voo acrescenta agora a utilização da mesma aeronave que, poucos dias antes, havia sido explorada pela própria campanha de Flávio para questionar a relação de Alexandre de Moraes com estruturas empresariais ligadas ao ex-controlador do Banco Master.


