Enquanto temporais, granizo e grandes volumes de chuva atingem diferentes áreas do Sul e do Sudeste, outras regiões do Brasil enfrentam sol intenso, baixa umidade e temperaturas próximas dos 40°C. O início de novembro expõe, ao mesmo tempo, duas faces de um país submetido a condições meteorológicas cada vez mais contrastantes.
Nesta terça-feira (3), áreas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná estão sob risco de chuva intensa, ventos fortes e granizo. No Sudeste, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo também têm previsão de pancadas e trovoadas em diferentes pontos. No Nordeste, porém, predomina o tempo seco e quente, com temperaturas que podem se aproximar dos 40°C em algumas áreas.
O contraste não termina nesta semana. A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para novembro aponta chuvas acima da média em áreas da Região Sul, Mato Grosso do Sul e São Paulo, ao mesmo tempo em que grande parte do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e setores do Sudeste podem receber volumes inferiores ao normal.
A temperatura apresenta tendência mais uniforme: deve ficar acima da média em praticamente todo o Brasil. Em partes de Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Tocantins, Bahia e Piauí, os desvios podem chegar a 2°C acima da média histórica para novembro.
O cenário reúne dois fenômenos diferentes, mas que neste momento atuam simultaneamente: um El Niño de intensidade excepcional e um planeta que já está mais quente em consequência do aumento das concentrações de gases de efeito estufa.
El Niño ajuda a explicar o contraste
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração interfere na circulação atmosférica e modifica os padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo.
O fenômeno está fortalecido em 2026. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou em outubro que a temperatura do Pacífico equatorial estava muito acima do normal e que existe elevada probabilidade de o El Niño permanecer forte ou muito forte até o início de 2027.
No Brasil, o Painel El Niño, elaborado conjuntamente por Inmet, Inpe, ANA, Cemaden, Defesa Civil Nacional e outros órgãos, projeta para novembro, dezembro e janeiro chuva acima da média no Sul e em partes do Sudeste e Centro-Oeste, enquanto Norte e partes do Nordeste tendem a registrar precipitações abaixo do normal.
As temperaturas devem permanecer acima da média em quase todo o país.
Esse comportamento ajuda a compreender por que uma parte do Brasil pode enfrentar excesso de água enquanto outra convive com seca, calor e baixa umidade no mesmo período.
O El Niño, porém, não explica sozinho o que vem acontecendo com o clima.
El Niño não é aquecimento global
É importante separar os dois fenômenos.
El Niño e La Niña existem naturalmente há milhares de anos. Eles fazem parte das oscilações do sistema oceano-atmosfera e provocam períodos de aquecimento ou resfriamento temporário em determinadas regiões.
O aquecimento global tem outra origem.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) concluiu que a influência humana sobre o aquecimento da atmosfera, dos oceanos e dos continentes é inequívoca. A principal causa é o aumento das emissões de gases de efeito estufa provocado pela queima de carvão, petróleo e gás, além do desmatamento, das mudanças no uso do solo e de diferentes atividades industriais e agropecuárias.
Na prática, os dois processos podem atuar juntos.
O El Niño altera temporariamente o funcionamento do clima. O aquecimento global eleva a temperatura de fundo sobre a qual essas oscilações naturais acontecem.
Isso significa que um El Niño forte ocorre hoje em uma atmosfera e em oceanos mais quentes do que aqueles de décadas atrás.

Mais calor significa mais energia no sistema climático
Uma atmosfera mais quente consegue reter mais vapor d’água. Oceanos mais quentes também fornecem mais calor e umidade para o sistema climático.
Essas condições podem contribuir para aumentar a intensidade de determinados episódios de precipitação. Ao mesmo tempo, temperaturas mais elevadas aumentam a evaporação e podem agravar secas e ondas de calor onde a chuva diminui.
O IPCC afirma que a mudança climática provocada pelo homem já está afetando extremos de temperatura, chuvas intensas e secas em todas as regiões do planeta.
Não significa que cada temporal, enchente ou onda de calor seja provocado exclusivamente pelo aquecimento global. Eventos meteorológicos individuais dependem de vários fatores.
O que mudou é o ambiente em que esses fenômenos acontecem.
Onze anos mais quentes da história
Os sinais desse aquecimento aparecem nas medições globais.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou que 2015 a 2025 foram os 11 anos mais quentes já registrados.
Em 2025, a temperatura média global ficou aproximadamente 1,43°C acima do nível observado entre 1850 e 1900, período utilizado como referência para o clima anterior à industrialização em larga escala.
O calor também está sendo armazenado nos oceanos.
Em 2025, o conteúdo de calor oceânico atingiu o maior nível registrado em 66 anos de observações. A OMM calcula que os oceanos vêm absorvendo enorme parte do excesso de energia acumulado no sistema climático.
Esse processo interfere no nível dos mares, nos ecossistemas, nas correntes oceânicas e na quantidade de energia disponível para fenômenos meteorológicos.
A participação humana
A relação entre atividade humana e aquecimento global passa principalmente pelo efeito estufa.
Esse fenômeno existe naturalmente e é indispensável à vida. Gases presentes na atmosfera retêm parte do calor recebido do Sol e mantêm o planeta em uma temperatura habitável.
O problema é o aumento artificial da concentração desses gases.
Desde a Revolução Industrial, a humanidade ampliou em grande escala o uso de combustíveis fósseis. Carvão, petróleo e gás natural liberam dióxido de carbono quando queimados.
Ao mesmo tempo, o desmatamento elimina árvores capazes de retirar CO₂ da atmosfera e libera parte do carbono armazenado na vegetação e no solo.
A pecuária, os aterros sanitários e atividades ligadas à produção de petróleo e gás também liberam metano, outro gás de forte efeito estufa.
Segundo a OMM, as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso atingiram em 2024 os maiores níveis observados em pelo menos 800 mil anos.

Desmatamento agrava problema
No Brasil, a preservação das florestas tem importância adicional.
A retirada da vegetação libera carbono, altera a umidade do solo, modifica a evapotranspiração e interfere na circulação de água entre a superfície e a atmosfera.
A Amazônia exerce papel importante no transporte de umidade para outras regiões do continente. Grandes áreas florestais liberam vapor d’água para a atmosfera, participando da formação e circulação das chuvas.
Por isso, reduzir desmatamento e queimadas não significa apenas preservar biodiversidade. É também parte da estratégia brasileira para reduzir emissões e manter serviços ambientais que participam da regulação do clima.
O que precisa ser feito
A ciência climática aponta que reduzir os riscos futuros depende de diminuir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa.
O IPCC afirma que limitar o aquecimento exige reduções profundas, rápidas e sustentadas das emissões durante esta década, acompanhadas pela diminuição das emissões de metano e pela busca de emissões líquidas de CO₂ próximas de zero.
Isso envolve várias frentes simultâneas:
- substituir progressivamente carvão, petróleo e gás por fontes de energia com baixa emissão de carbono;
- ampliar energia solar, eólica e outras fontes renováveis;
- melhorar a eficiência energética de indústrias, prédios e equipamentos;
- expandir transporte coletivo e eletrificação da frota;
- reduzir desmatamento e queimadas;
- recuperar áreas degradadas e ampliar a proteção das florestas;
- diminuir emissões de metano da produção de petróleo e gás, resíduos e agropecuária;
- tornar cidades mais preparadas para calor, enchentes e deslizamentos.
Mesmo com reduções nas emissões, parte dos efeitos das mudanças climáticas já está em curso. Por isso, governos também precisam investir em adaptação.
Nas cidades, isso significa ampliar drenagem urbana, preservar áreas permeáveis, impedir ocupações em áreas de risco, recuperar cursos d’água, aumentar arborização e criar sistemas eficientes de alerta e evacuação.
No campo, inclui proteção de mananciais, manejo do solo, planejamento de safras e técnicas agrícolas mais resistentes à seca e ao calor.
O desafio dos próximos anos
O Brasil vive neste início de novembro uma demonstração clara de como o clima pode produzir realidades completamente diferentes dentro do mesmo território.
Enquanto moradores de algumas regiões acompanham alertas de temporais, enxurradas e granizo, milhões de brasileiros convivem com calor intenso, baixa umidade e escassez de chuva.
O El Niño ajuda a explicar a distribuição desses extremos em 2026. Mas ele acontece sobre um planeta que já está mais quente.
A própria previsão oficial para novembro resume esse novo cenário: mesmo com excesso de chuva previsto em algumas áreas e falta em outras, as temperaturas devem permanecer acima da média em todas as regiões brasileiras.
A redução das emissões não elimina El Niños, tempestades ou períodos de seca. Esses fenômenos sempre fizeram parte do clima terrestre.
O que está em discussão é quanto mais quente o planeta ainda ficará e até que ponto as sociedades conseguirão reduzir a intensidade dos riscos e se preparar para os eventos extremos que já fazem parte dessa nova realidade climática.


