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Do “já ganhou” à derrota: Flávio montava governo enquanto esquerda preparava virada histórica

Após liderar o primeiro turno por 2,2 milhões de votos, campanha discutia ministérios, mais de 200 decretos e revogação de cerca de mil atos; três semanas depois, Lula venceu por 4,4 milhões

Por Redação
30 de outubro de 2026 - 09:58
em Brasil
Do “já ganhou” à derrota: Flávio montava governo enquanto esquerda preparava virada histórica

Foto: Joédson Alves/ABR

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial surpreendeu adversários, analistas e até integrantes de sua própria campanha.

O candidato do PL recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos válidos, contra 53.876.617 de Lula, 45,16%, e abriu uma vantagem de 2.227.651 votos.

Ainda na noite da apuração, Flávio declarou que o resultado representava o “fim da era do PT” e passou a falar abertamente sobre o governo que pretendia comandar a partir de janeiro.

Nos dias seguintes, o ambiente de confiança cresceu.

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Aliados começaram a discutir ministérios, presidências da Câmara e do Senado e a composição de um eventual governo. Em Brasília, dirigentes de partidos do Centrão já levavam nomes para ocupar a Esplanada, enquanto integrantes da campanha avaliavam antecipar o anúncio de ministros antes mesmo do segundo turno.

O clima chegou ao ponto de provocar um alerta dentro da própria candidatura.

Integrantes do núcleo operacional recomendaram que Flávio e seus aliados abandonassem a sensação de “já ganhou”. O aviso era de que falar antecipadamente em ministérios, Presidência da Câmara e Presidência do Senado poderia transmitir arrogância e, principalmente, desmobilizar o eleitorado.

A preocupação não era abstrata.

Ministério já tinha nome e disputa interna avançava

Flávio já havia anunciado publicamente o médico Cláudio Lottenberg para o Ministério da Saúde.

Outros nomes começaram a circular nos bastidores.

A ex-presidente da Caixa Daniella Marques, uma das coordenadoras da campanha, trabalhava com a perspectiva de comandar um novo Ministério da Prosperidade, que concentraria políticas sociais, trabalho, empreendedorismo e outras áreas atualmente espalhadas por diferentes pastas.

Na área econômica, nomes como Roberto Campos Neto e Mansueto Almeida eram discutidos para o Ministério da Fazenda.

Para Segurança Pública apareciam alternativas como Guilherme Derrite e Ronaldo Caiado. Tereza Cristina era citada para Relações Exteriores, enquanto diferentes partidos aliados disputavam espaço na Agricultura e em outras pastas.

Um economista da Faria Lima que acompanhou algumas dessas conversas resumiu o ambiente:

“Parecia que o segundo turno já tinha acontecido. Estavam montando gabinete.”

A percepção também apareceu em pesquisas qualitativas realizadas durante os debates. Eleitores identificaram em Flávio uma postura de confiança excessiva e, em alguns momentos, de arrogância ao se comportar como se a vitória já estivesse assegurada.

O próprio Flávio precisou tentar interromper publicamente a corrida por cargos. Em 11 de outubro, publicou que qualquer pessoa que estivesse prometendo ministérios em seu nome era “picareta”.

A discussão sobre o futuro governo, porém, continuou.

Mais de 200 decretos já estavam redigidos

A preparação não se limitava à escolha de ministros.

Aliados de Flávio informaram que a equipe havia elaborado mais de 200 decretos para serem assinados caso ele assumisse a Presidência.

Grande parte tratava de legislação trabalhista, incluindo regulamentações relacionadas à redução da jornada e ao fim da escala 6×1.

O plano era iniciar um “decretaço” já no primeiro dia de governo.

Paralelamente, integrantes responsáveis pelo programa econômico trabalhavam em um “revogaço” de aproximadamente mil decretos, portarias, resoluções e instruções normativas dos governos anteriores.

Parte dessas medidas seria revogada logo nos primeiros dias; outra parcela, nos primeiros 90 dias de governo.

Enquanto Flávio e seus aliados avançavam sobre a formação de governo, do outro lado da disputa o resultado do primeiro turno produzia uma reação completamente diferente.

A derrota no primeiro turno acordou a esquerda

O ambiente na campanha de Lula na noite de 4 de outubro foi de choque.

A expectativa era de que o presidente terminasse o primeiro turno na frente. A vantagem de mais de 2 milhões de votos de Flávio obrigou o comando da campanha a rever estratégia, comunicação e presença nas ruas.

O que havia sido uma campanha relativamente discreta no primeiro turno se transformou rapidamente.

Lula mudou parte da equipe de comunicação, ampliou a participação de Rafael Fonteles e Camilo Santana, passou a gravar vídeos em formatos que antes evitava, chamou influenciadores para a campanha e aumentou a presença em manifestações públicas.

Uma parte importante dessa mobilização surgiu fora da estrutura tradicional do PT.

Estudantes, jovens, movimentos sociais, artistas, influenciadores e eleitores passaram a organizar atos e campanhas digitais.

O canal “Exército de Lula”, comandado por André Janones, tinha cerca de 50 mil integrantes no primeiro turno. Na véspera da votação decisiva, ultrapassava 10,8 milhões de participantes.

O canal distribuía diariamente tarefas de mobilização, compartilhamento de vídeos, hashtags, busca de informações e enfrentamento às campanhas digitais adversárias.

A reação também chegou às ruas.

No primeiro turno, os atos pró-Lula haviam sido relativamente modestos. No segundo, manifestações foram registradas em pelo menos 11 capitais, com forte participação de estudantes e jovens.

Em São Paulo, manifestações ocuparam vários quarteirões da Avenida Paulista. Em Florianópolis, atos favoráveis a Lula chegaram a reunir dezenas de milhares de pessoas.

A mobilização surpreendeu até integrantes da campanha do presidente.

Na noite da eleição, membros da equipe atribuíram parte importante da recuperação justamente à movimentação espontânea nas ruas e nas redes.

A vantagem mudou de lado em 6,6 milhões de votos

A mudança apareceu nas urnas.

No primeiro turno:

Flávio Bolsonaro: 56.104.268 votos
Lula: 53.876.617 votos

Flávio terminou 2.227.651 votos à frente.

No segundo:

Lula: 64.256.232 votos
Flávio Bolsonaro: 59.826.041 votos

Lula venceu por 4.430.191 votos.

Entre uma votação e outra, Lula conquistou cerca de 10,38 milhões de votos adicionais.

Flávio acrescentou aproximadamente 3,72 milhões.

A diferença entre os dois candidatos se deslocou em 6.657.842 votos em apenas três semanas.

Também houve maior participação do eleitorado. A abstenção, que havia sido de 21,08% no primeiro turno, caiu para 19,2% no segundo, com 128,2 milhões de brasileiros comparecendo às urnas.

Foi uma virada inédita numa eleição presidencial brasileira desde a redemocratização: o candidato derrotado no primeiro turno conseguiu reverter uma diferença superior a 2 milhões de votos e terminar o segundo com vantagem superior a 4 milhões.

Duas campanhas em movimentos opostos

Os 21 dias entre os dois turnos acabaram mostrando movimentos quase inversos.

A campanha que saiu derrotada da primeira votação reagiu como quem ainda precisava ganhar a eleição.

Mudou comunicação, reorganizou comando, ocupou as ruas, ampliou a mobilização digital e buscou eleitores que haviam se abstido ou votado em outros candidatos.

A campanha que saiu vencedora começou a discutir o que faria depois da posse.

Ministérios eram negociados. Nomes circulavam para cargos. Mais de 200 decretos estavam preparados. Uma lista de cerca de mil atos administrativos era analisada para revogação.

O alerta interno para evitar a aparência de vitória antecipada chegou ainda na primeira semana do segundo turno.

Não foi suficiente para impedir que o ambiente se instalasse.

Quando as urnas fecharam no dia 25 de outubro, o governo que começava a ser desenhado nos bastidores não existiria.

Flávio, que três semanas antes havia anunciado o “fim da era do PT”, terminou derrotado.

Lula, que iniciou o segundo turno 2,2 milhões de votos atrás, encerrou a eleição 4,4 milhões à frente.

Tags: André Janonescampanha eleitoralDaniella Marqueseleições 2026Flávio BolsonaroLulaMinistériosPLPTsegundo turnovirada eleitoral
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