A vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial surpreendeu adversários, analistas e até integrantes de sua própria campanha.
O candidato do PL recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos válidos, contra 53.876.617 de Lula, 45,16%, e abriu uma vantagem de 2.227.651 votos.
Ainda na noite da apuração, Flávio declarou que o resultado representava o “fim da era do PT” e passou a falar abertamente sobre o governo que pretendia comandar a partir de janeiro.
Nos dias seguintes, o ambiente de confiança cresceu.
Aliados começaram a discutir ministérios, presidências da Câmara e do Senado e a composição de um eventual governo. Em Brasília, dirigentes de partidos do Centrão já levavam nomes para ocupar a Esplanada, enquanto integrantes da campanha avaliavam antecipar o anúncio de ministros antes mesmo do segundo turno.
O clima chegou ao ponto de provocar um alerta dentro da própria candidatura.
Integrantes do núcleo operacional recomendaram que Flávio e seus aliados abandonassem a sensação de “já ganhou”. O aviso era de que falar antecipadamente em ministérios, Presidência da Câmara e Presidência do Senado poderia transmitir arrogância e, principalmente, desmobilizar o eleitorado.
A preocupação não era abstrata.
Ministério já tinha nome e disputa interna avançava
Flávio já havia anunciado publicamente o médico Cláudio Lottenberg para o Ministério da Saúde.
Outros nomes começaram a circular nos bastidores.
A ex-presidente da Caixa Daniella Marques, uma das coordenadoras da campanha, trabalhava com a perspectiva de comandar um novo Ministério da Prosperidade, que concentraria políticas sociais, trabalho, empreendedorismo e outras áreas atualmente espalhadas por diferentes pastas.
Na área econômica, nomes como Roberto Campos Neto e Mansueto Almeida eram discutidos para o Ministério da Fazenda.
Para Segurança Pública apareciam alternativas como Guilherme Derrite e Ronaldo Caiado. Tereza Cristina era citada para Relações Exteriores, enquanto diferentes partidos aliados disputavam espaço na Agricultura e em outras pastas.
Um economista da Faria Lima que acompanhou algumas dessas conversas resumiu o ambiente:
“Parecia que o segundo turno já tinha acontecido. Estavam montando gabinete.”
A percepção também apareceu em pesquisas qualitativas realizadas durante os debates. Eleitores identificaram em Flávio uma postura de confiança excessiva e, em alguns momentos, de arrogância ao se comportar como se a vitória já estivesse assegurada.
O próprio Flávio precisou tentar interromper publicamente a corrida por cargos. Em 11 de outubro, publicou que qualquer pessoa que estivesse prometendo ministérios em seu nome era “picareta”.
A discussão sobre o futuro governo, porém, continuou.
Mais de 200 decretos já estavam redigidos
A preparação não se limitava à escolha de ministros.
Aliados de Flávio informaram que a equipe havia elaborado mais de 200 decretos para serem assinados caso ele assumisse a Presidência.
Grande parte tratava de legislação trabalhista, incluindo regulamentações relacionadas à redução da jornada e ao fim da escala 6×1.
O plano era iniciar um “decretaço” já no primeiro dia de governo.
Paralelamente, integrantes responsáveis pelo programa econômico trabalhavam em um “revogaço” de aproximadamente mil decretos, portarias, resoluções e instruções normativas dos governos anteriores.
Parte dessas medidas seria revogada logo nos primeiros dias; outra parcela, nos primeiros 90 dias de governo.
Enquanto Flávio e seus aliados avançavam sobre a formação de governo, do outro lado da disputa o resultado do primeiro turno produzia uma reação completamente diferente.
A derrota no primeiro turno acordou a esquerda
O ambiente na campanha de Lula na noite de 4 de outubro foi de choque.
A expectativa era de que o presidente terminasse o primeiro turno na frente. A vantagem de mais de 2 milhões de votos de Flávio obrigou o comando da campanha a rever estratégia, comunicação e presença nas ruas.
O que havia sido uma campanha relativamente discreta no primeiro turno se transformou rapidamente.
Lula mudou parte da equipe de comunicação, ampliou a participação de Rafael Fonteles e Camilo Santana, passou a gravar vídeos em formatos que antes evitava, chamou influenciadores para a campanha e aumentou a presença em manifestações públicas.
Uma parte importante dessa mobilização surgiu fora da estrutura tradicional do PT.
Estudantes, jovens, movimentos sociais, artistas, influenciadores e eleitores passaram a organizar atos e campanhas digitais.
O canal “Exército de Lula”, comandado por André Janones, tinha cerca de 50 mil integrantes no primeiro turno. Na véspera da votação decisiva, ultrapassava 10,8 milhões de participantes.
O canal distribuía diariamente tarefas de mobilização, compartilhamento de vídeos, hashtags, busca de informações e enfrentamento às campanhas digitais adversárias.
A reação também chegou às ruas.
No primeiro turno, os atos pró-Lula haviam sido relativamente modestos. No segundo, manifestações foram registradas em pelo menos 11 capitais, com forte participação de estudantes e jovens.
Em São Paulo, manifestações ocuparam vários quarteirões da Avenida Paulista. Em Florianópolis, atos favoráveis a Lula chegaram a reunir dezenas de milhares de pessoas.
A mobilização surpreendeu até integrantes da campanha do presidente.
Na noite da eleição, membros da equipe atribuíram parte importante da recuperação justamente à movimentação espontânea nas ruas e nas redes.
A vantagem mudou de lado em 6,6 milhões de votos
A mudança apareceu nas urnas.
No primeiro turno:
Flávio Bolsonaro: 56.104.268 votos
Lula: 53.876.617 votos
Flávio terminou 2.227.651 votos à frente.
No segundo:
Lula: 64.256.232 votos
Flávio Bolsonaro: 59.826.041 votos
Lula venceu por 4.430.191 votos.
Entre uma votação e outra, Lula conquistou cerca de 10,38 milhões de votos adicionais.
Flávio acrescentou aproximadamente 3,72 milhões.
A diferença entre os dois candidatos se deslocou em 6.657.842 votos em apenas três semanas.
Também houve maior participação do eleitorado. A abstenção, que havia sido de 21,08% no primeiro turno, caiu para 19,2% no segundo, com 128,2 milhões de brasileiros comparecendo às urnas.
Foi uma virada inédita numa eleição presidencial brasileira desde a redemocratização: o candidato derrotado no primeiro turno conseguiu reverter uma diferença superior a 2 milhões de votos e terminar o segundo com vantagem superior a 4 milhões.
Duas campanhas em movimentos opostos
Os 21 dias entre os dois turnos acabaram mostrando movimentos quase inversos.
A campanha que saiu derrotada da primeira votação reagiu como quem ainda precisava ganhar a eleição.
Mudou comunicação, reorganizou comando, ocupou as ruas, ampliou a mobilização digital e buscou eleitores que haviam se abstido ou votado em outros candidatos.
A campanha que saiu vencedora começou a discutir o que faria depois da posse.
Ministérios eram negociados. Nomes circulavam para cargos. Mais de 200 decretos estavam preparados. Uma lista de cerca de mil atos administrativos era analisada para revogação.
O alerta interno para evitar a aparência de vitória antecipada chegou ainda na primeira semana do segundo turno.
Não foi suficiente para impedir que o ambiente se instalasse.
Quando as urnas fecharam no dia 25 de outubro, o governo que começava a ser desenhado nos bastidores não existiria.
Flávio, que três semanas antes havia anunciado o “fim da era do PT”, terminou derrotado.
Lula, que iniciou o segundo turno 2,2 milhões de votos atrás, encerrou a eleição 4,4 milhões à frente.


