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Do café gigante do Pará aos grãos especiais de Minas: a evolução do café brasileiro

Espécie rara capaz de alcançar cerca de 9 metros foi identificada onde o café entrou no país há quase 300 anos; enquanto isso, pesquisa genética e regiões como a Zona da Mata transformaram o Brasil em potência também na produção de arábicas de alta qualidade

Por Redação
28 de outubro de 2026 - 16:06
em Agropecuária
Do café gigante do Pará aos grãos especiais de Minas: a evolução do café brasileiro

Foto: Diego Vargas/Seapa-MG

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Quase 300 anos depois de as primeiras mudas de café chegarem ao Brasil por Belém do Pará, pesquisadores voltaram justamente ao estado onde essa história começou e encontraram um pedaço quase esquecido dela.

Em quintais agroflorestais mantidos por gerações de agricultores no nordeste paraense, pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental e da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) identificaram exemplares de Coffea liberica, espécie hoje rara na cafeicultura brasileira e conhecida pelas famílias da região como “beirão”.

É um cafeeiro muito diferente daqueles que formam as lavouras que se espalham pelas montanhas de Minas Gerais. Enquanto o arábica normalmente é conduzido em porte baixo para facilitar o manejo e a colheita, a Coffea liberica é uma árvore de grande porte e pode alcançar cerca de 9 metros de altura em seu ambiente natural, podendo superar essa medida em determinadas condições. Sua origem está nas florestas tropicais da África Ocidental, numa faixa que inclui países como Liberia, Costa do Marfim, Gana, Benin, Togo e Nigéria.

A pesquisa paraense não afirma que os exemplares encontrados tenham exatamente nove metros. O tamanho é uma característica botânica conhecida da espécie. O que os cientistas comprovaram foi algo igualmente importante: a Liberica sobreviveu por gerações em propriedades familiares numa região onde praticamente havia desaparecido da cafeicultura comercial brasileira.

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O café raro guardado nos quintais do Pará

O projeto Café Ancestral Agroecológico no Nordeste Paraense percorreu oito propriedades rurais nos municípios de Irituia, São Domingos do Capim, Ourém, Capitão Poço e São Miguel do Guamá.

Foram analisados 57 exemplares.

Os pesquisadores encontraram duas espécies. Além da Coffea liberica, chamada de “beirão”, foram identificados cafeeiros da espécie Coffea arabica, conhecidos pelos agricultores como “pretinho” e “moca”.

Quarenta e oito exemplares férteis foram incorporados ao Herbário IAN, da Embrapa Amazônia Oriental, que passou a manter uma coleção temática dedicada ao café dentro do acervo “Agricultura da Amazônia”.

O achado ganha importância histórica porque, em 2027, o café completa 300 anos de presença no Brasil.

Foi em 1727 que Francisco de Melo Palheta trouxe da Guiana Francesa sementes e mudas para Belém. A planta que chegava ao país era o Coffea arabica, numa linhagem que ficaria conhecida como Typica, Nacional ou Crioulo.

A Embrapa ressalta, porém, que ainda não é possível afirmar que os cafeeiros encontrados atualmente nos quintais paraenses sejam descendentes diretos das plantas cultivadas naquele período. Essa ligação histórica ainda precisa ser investigada.

Uma planta africana que virou brasileira

Embora o café esteja profundamente associado à história e à cultura do Brasil, nenhuma das principais espécies comerciais nasceu aqui.

O Coffea arabica é originário das terras altas do leste da África, especialmente da Etiópia. De lá, sementes chegaram ao Iêmen, onde o cultivo comercial se desenvolveu e a bebida começou a se espalhar pelo mundo.

A partir do Iêmen, o cafeeiro percorreu uma rota extraordinária.

Passou pela Índia e pela ilha de Java, na atual Indonésia. Uma planta foi levada para Amsterdã, depois para as colônias holandesas na América. Do Suriname chegou à Guiana Francesa e, finalmente, ao Pará em 1727.

A pequena quantidade de material genético que entrou no país significava que os primeiros cafezais brasileiros eram muito parecidos entre si.

Foi justamente a introdução de outras variedades e, posteriormente, o trabalho dos pesquisadores brasileiros que começaram a transformar essa história.

Foto: Couleur/Pixabay

Do Typica ao Bourbon

Durante mais de um século, o Typica dominou a produção brasileira.

Era um café de boa qualidade, mas apresentava produtividade baixa quando comparado às variedades que surgiriam posteriormente.

Em 1859, o Brasil recebeu o Bourbon Vermelho, trazido da ilha Bourbon, atual Reunião, território francês no oceano Índico. A história genética dessa variedade, entretanto, começa no Iêmen, de onde missionários franceses levaram plantas para a ilha no início do século XVIII.

Em 1896, outra introdução importante chegou da Indonésia: o café Sumatra, uma seleção do grupo Typica.

Typica, Bourbon e Sumatra formariam parte da base genética sobre a qual pesquisadores brasileiros construiriam algumas das variedades mais importantes da cafeicultura moderna.

O Brasil começa a criar seus próprios cafés

A grande transformação ganhou força a partir de 1932, quando o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) iniciou seu programa de melhoramento genético do cafeeiro.

Uma das mudanças decisivas veio com o Mundo Novo.

A cultivar surgiu de um cruzamento natural entre Bourbon Vermelho e Sumatra, uma linhagem de Typica. As plantas foram encontradas em São Paulo e posteriormente selecionadas pelos pesquisadores. O Mundo Novo começou a ser distribuído comercialmente na década de 1950.

Depois veio o Catuaí.

Em 1949, pesquisadores cruzaram Mundo Novo com Caturra buscando reunir produtividade, vigor e uma característica especialmente importante: plantas mais baixas, que facilitassem o manejo e a colheita.

Os Catuaís Vermelho e Amarelo chegaram comercialmente às lavouras a partir de 1972 e se tornaram algumas das cultivares mais conhecidas do país.

Outros programas desenvolveram posteriormente materiais como Icatu, Catucaí, Obatã, Arara, Paraíso e diferentes linhagens resistentes à ferrugem.

Hoje existem mais de 140 cultivares de café arábica registradas no Brasil, embora cerca de 40 sejam utilizadas comercialmente em maior escala.

O IAC estima que aproximadamente 90% dos mais de 4 bilhões de pés de café arábica existentes no Brasil tenham origem em cultivares desenvolvidas pelo instituto. Segundo o centro de pesquisa, o ganho acumulado de produtividade entre a antiga Typica e materiais modernos chega a 240%.

Zona da Mata muda a própria história

Parte dessa evolução pode ser vista nas montanhas da Zona da Mata de Minas Gerais.

O café chegou à região no século XIX, acompanhando a expansão das plantações a partir do Vale do Paraíba.

Por muito tempo, grande parte da produção regional esteve associada ao mercado de café comum. O relevo montanhoso dificultava mecanização, aumentava custos e obrigava produtores a colher grande parte dos frutos manualmente.

Nas últimas décadas, aquilo que parecia uma desvantagem passou a ajudar na construção de uma identidade.

Altitude, clima, pequenas propriedades, colheita seletiva e aperfeiçoamento do pós-colheita permitiram que municípios da região avançassem rapidamente no mercado de cafés especiais.

Hoje, parte importante desse território é reconhecida pela Indicação de Procedência Matas de Minas, formada por 64 municípios do leste mineiro.

Para utilizar a indicação, o café precisa ser da espécie Coffea arabica, cultivado acima de 600 metros. A bebida precisa atingir pelo menos 80 pontos na avaliação da Specialty Coffee Association.

Os cafés da região são descritos por características como doçura, notas cítricas, carameladas e achocolatadas, aromas florais, corpo pronunciado e acidez equilibrada.

Cafés da Mata chegam ao topo

A mudança aparece também nas premiações.

Em 2022, um café produzido em Manhuaçu, nas Matas de Minas, foi eleito o melhor arábica de Minas Gerais no concurso estadual promovido pela Emater. A bebida alcançou 91,4 pontos.

Três anos depois, a região foi ainda mais longe.

Em 2025, o agricultor familiar João Pedro Emerick Ramos, de Alto Jequitibá, conquistou o título de Grande Campeão Estadual com 93,2 pontos, a maior nota registrada até então na história do Concurso de Qualidade dos Cafés de Minas Gerais.

A transformação continua. Em março deste ano, a Epamig realizou na região novos testes com cultivares de arábica para comparar produtividade, resistência a doenças e qualidade sensorial em diferentes condições de solo, altitude e clima.

Diego Vargas/Seapa-MG

O arábica vive nova expansão no Brasil

Enquanto a qualidade melhora, o volume também cresce.

A safra brasileira de café de 2026 está estimada pela Conab em 67,6 milhões de sacas de 60 quilos, o maior resultado da série histórica da companhia.

Desse total, 48,2 milhões de sacas são de café arábica, crescimento de 34,8% em relação a 2025.

O arábica responde atualmente por aproximadamente 70% da produção brasileira.

Minas Gerais permanece no centro dessa produção.

Somente o estado deve colher 34,96 milhões de sacas de arábica em 2026, aproximadamente sete de cada dez sacas dessa espécie produzidas no país.

A evolução não aconteceu apenas pelo aumento das áreas cultivadas. Ela envolve décadas de seleção genética, renovação de lavouras, controle de doenças, manejo de solo, irrigação, desenvolvimento de plantas mais produtivas e, mais recentemente, uma busca crescente por qualidade sensorial.

De onde vêm os cafés mais valorizados

Não existe um único “país de origem dos melhores cafés brasileiros”.

O que existe é uma árvore genealógica que atravessa vários países e que foi profundamente modificada pela pesquisa realizada no Brasil.

A própria espécie arábica nasceu na Etiópia. O Geisha, hoje uma das variedades mais valorizadas no mercado de cafés especiais e também cultivado no Brasil, é originário da região de Gesha, na Etiópia. Foi no Panamá, porém, que a variedade ganhou fama internacional pela qualidade excepcional da bebida.

O Bourbon saiu do Iêmen, passou pela ilha Reunião e chegou ao Brasil no século XIX.

O Typica, também descendente dos antigos cafeeiros africanos levados ao Iêmen, percorreu Índia, Indonésia, Holanda, Suriname e Guiana Francesa antes de entrar no Brasil.

O Sumatra utilizado na formação de importantes cultivares brasileiras veio da Indonésia.

Mas alguns dos nomes que hoje dominam as lavouras já são resultado direto da ciência brasileira. Mundo Novo e Catuaí foram desenvolvidos no Brasil, assim como Bourbon Amarelo e diversas gerações de cultivares modernas adaptadas às diferentes regiões produtoras.

A variedade Arara, que vem ganhando espaço pela produtividade, resistência à ferrugem e qualidade de bebida, também foi selecionada no país a partir de materiais genéticos desenvolvidos ao longo de décadas.

E genética não trabalha sozinha. Altitude, temperatura, solo, quantidade de chuva, ponto de maturação, colheita, fermentação, secagem e torra determinam quanto desse potencial chegará à xícara.

Quase 300 anos depois, o café volta ao Pará

A história acaba formando um círculo.

O café entrou no Brasil pelo Pará em 1727, percorreu o país e encontrou nas montanhas do Sudeste as condições para se transformar em uma das maiores riquezas nacionais.

Foi aperfeiçoado em São Paulo, espalhou-se pelas montanhas mineiras, ganhou novas cultivares, passou por uma revolução genética e hoje produz desde cafés destinados ao mercado de grande escala até microlotes disputados no mercado internacional de especiais.

Em 2026, o Brasil caminha para colher a maior safra já registrada pela Conab.

E, justamente quando o país se aproxima dos 300 anos de cafeicultura, pesquisadores voltaram ao Pará e encontraram nos quintais de pequenos agricultores uma espécie rara que permaneceu viva longe das grandes lavouras comerciais.

O “beirão”, capaz de crescer como uma pequena árvore em meio à floresta amazônica, talvez nunca dispute espaço em volume com os milhões de pés de Catuaí, Mundo Novo ou Arara cultivados em Minas Gerais.

Seu valor pode estar em outro lugar: guardar diversidade genética, história e possibilidades para o futuro de uma cultura que o Brasil passou três séculos transformando.

Tags: Bourboncafécafé arábicaCafés EspeciaisCatuaíCoffea libericaEmbrapaEpamigGeishaMatas de MinasMinas GeraisMundo NovoParáZona da Mata
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