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Home Colunas

Deputado defenestra professora

Por Lenin Novaes
12 de maio de 2023 - 07:53
em Colunas

Obra de arte do artista plástico Hélio Oiticica, em camiseta, fez o deputado Gayer, do PL, provocar demissão de professora em Goiás. Divulgação - 

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– Athaliba, em decorrência das mazelas retrógradas do governo do mito pés de barro ainda pipocam conflitos em escolas. O deputado federal Gustavo Gayer (será o sobrenome derivado de gay?) causou a demissão de professora, ao expor a imagem dela com obra de arte estampada em camiseta. O caso espicaçou pais de alunos e a direção do colégio a demitiu, sob o argumento que “a escola não é lugar para propagar ideologias políticas, religiosas ou preconceituosas”. Os colegas da professora reagiram e o sindicato que representa a categoria tomou providências.

– Onde aconteceu isso e que imagem de obra de arte ela usava na camiseta, Marineth?

– Athaliba, o caso ocorreu no Colégio Expressão, em Aparecida de Goiânia, em Goiás. A professora – ela pediu anonimato, temerosa de sofrer mais represálias por parte de reacionários que idolatram o mito pés de barro – tinha na camiseta a frase “Seja marginal, seja herói”. É legenda da obra do artista plástico Hélio Oiticica, marcante no movimento chamado marginalia ou cultura marginal, que faz parte do debate cultural brasileiro. A professora disse o seguinte: “Uso camisetas com obras de arte para conversar sobre arte com os alunos; e expliquei o significado da arte e eles entenderam o contexto da história da obra”.

– Marineth, o Hélio Oiticica, carioca, nasceu em 1937 e morreu em 1980, no Rio de Janeiro. É considerado um dos mais importantes artistas plástico brasileiro. Pintor, escultor e performático de aspirações anarquistas, ele conhecia o submundo da marginalidade. Tinha arrebatamento por tipos marginais, dentro da lógica de transgressão de valores burgueses. A obra de arte na camisa da professora refere-se ao delinquente Manoel Moreira, o Cara de Cavalo. Ele teria matado o detetive Milton Le Cocq, em 1964. E foi fuzilado meses depois, em Cabo Frio.

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– Athaliba, antes de eu falar da ação de deputado Gayer, me conte o caso Cara de Cavalo.

– Marineth, a morte de Le Cocq estabeleceu um marco na história da polícia. Muito querido no círculo policial, ele era primo do brigadeiro Eduardo Gomes e fez parte da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas. Ainda junto ao cadáver dele, os colegas juraram vingança. E, a partir daí, se desencadeou uma caçada policial ao delinquente como nunca no Brasil. Superada apenas àquela ocorrida contra Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. E, decorrência daquela ocorrência, se criou o Esquadrão da morte, sob a denominação Scuderie Detetive Le Cocq.

– No período da ditadura, oriunda do golpe civil-militar de 1964, Athaliba, o Esquadrão da Morte promoveu verdadeiro banho de sangue no país, principalmente no Rio de Janeiro, né?

– Marineth, foi o que aconteceu na época de triste lembrança dos anos de chumbo, a partir de 1968, com a mordaça do AI-5 – Ato Institucional nº 5 -, agravada no governo do general Emilio Garrastazu Médici. O símbolo da scuderie tem duas tíbias cruzadas em X num crânio humano, com as letras E e M, abreviatura de Esquadrão da Morte. Essa organização extra-oficial, criada por policiais, em 1965, atuou nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Somente foi extinta por decisão judicial, no início do ano 2000.

– Athaliba, é verdade ou não que o assassino de Le Cocq foi Cara de Cavalo?

– Marineth, não há razão prá guardar segredo, após o jornalista Luarlindo Ernesto revelar detalhes sobre o caso. Colega que conheci início de 1970, no Correio da Manhã. Ele tentou me passar trote – quando ainda “foca”, principiante no jornalismo -, pedindo para apurar o assassinato do senador Pinheiro Machado, na zona de prostituição. Pois bem, Luarlindo diz que não foi o delinquente que matou o detetive. E que, quando já morto por policiais, todos os jornalistas que cobriram a ação da polícia foram obrigados a atirar no corpo, “com a pistola colt 45 de Le Cocq”.

– Trata-se de uma revelação altissonante, Athaliba!

– Marineth, ele conta que, na ocasião, início da carreira, tinha 21 anos. E, ao finalizar o seu depoimento em vídeo, Luarlindo diz que seria “muito difícil levar isso para o túmulo”.

– Bem, Athaliba, voltamos ao caso do deputado Gayer, que defenestrou a professora. O sindicato impetrou ação na Justiça Federal pedindo a exclusão das redes sociais e do site dele, Nossos Filhos, que incentiva o conflito de pais e alunos com professores. Pede ainda indenização moral e material, em ação cível. Afirmou, em nota oficial, entender que “o ataque covarde contra a professora, protagonizado por esse ignóbil deputado, arquitetado na base de fake News, distorce o objeto em estudo que é a cultura marginal no Brasil”.

– É preciso, Marineth, dar um basta às ações contra a liberdade educacional no Brasil, já!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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