A eleição presidencial brasileira de 2026 foi realizada sob uma pressão externa incomum. Ao longo de mais de um ano, o governo de Donald Trump adotou medidas econômicas e diplomáticas contra o Brasil, atacou decisões do Supremo Tribunal Federal, defendeu Jair Bolsonaro e integrantes da família e transformou o processo político brasileiro em assunto recorrente da Casa Branca.
A ofensiva começou enquanto Jair Bolsonaro respondia no STF pela tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Em julho de 2025, Trump enviou uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificando o julgamento do ex-presidente como uma “caça às bruxas” e exigindo, em letras maiúsculas, que o processo contra Bolsonaro fosse encerrado “IMEDIATAMENTE”.
Na sequência, os Estados Unidos impuseram uma tarifa adicional de 40% sobre uma série de produtos brasileiros, elevando a taxação de parte das exportações a 50%. A própria Casa Branca relacionou oficialmente a medida ao tratamento dado pelo Brasil a Jair Bolsonaro e seus apoiadores.
O governo americano também revogou vistos de autoridades brasileiras e aplicou contra o ministro Alexandre de Moraes sanções previstas na Lei Global Magnitsky. O Departamento do Tesouro acusou o magistrado de conduzir uma perseguição política e citou diretamente os processos envolvendo Bolsonaro.
Jair Bolsonaro acabou condenado pelo Supremo a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes relacionados à tentativa de impedir a alternância de poder depois da derrota eleitoral.
A pressão americana, entretanto, não terminou com a condenação.
De Jair para Flávio
Uma investigação baseada em entrevistas com dez atuais e ex-integrantes do governo dos Estados Unidos revelou que funcionários do Departamento de Estado atuaram para tentar recolocar a família Bolsonaro no centro do poder político brasileiro.
Dois nomes aparecem nessa articulação: Darren Beattie e Ricardo Pita.
Segundo as fontes ouvidas, antes da condenação de Jair Bolsonaro diplomatas americanos receberam orientação para trabalhar politicamente por sua volta ao poder. Com a inviabilidade do ex-presidente, o projeto passou a mirar Flávio Bolsonaro, escolhido posteriormente como candidato à Presidência.
A atuação incluiu pressão sobre autoridades brasileiras e orientação para que diplomatas evitassem aproximações com outras lideranças conservadoras que poderiam disputar o espaço político de Flávio.
Trump também fez manifestações públicas favoráveis ao candidato brasileiro e comemorou seu desempenho no primeiro turno.
A eleição no Brasil acontecia em meio a uma ampla guinada política na América Latina. Forças de direita chegaram ou se consolidaram no poder na Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Bolívia, Equador e Panamá, entre outros países. Na Colômbia, por exemplo, Donald Trump declarou apoio a Abelardo de la Espriella, posteriormente eleito presidente.
Na Argentina, Javier Milei tornou-se um dos aliados mais próximos de Trump na região e passou a manter também estreita relação com a família Bolsonaro.
Enquanto esse movimento avançava pelo continente, o Brasil caminhava para uma eleição em que a relação com os Estados Unidos e a defesa da soberania nacional ganharam espaço crescente no debate político.
Redes sociais entraram na disputa
As plataformas digitais também foram parar no centro da eleição.
O Tribunal Superior Eleitoral determinou que a Meta, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, demonstrasse tratamento igualitário às duas campanhas e apresentasse informações sobre distribuição de conteúdo, inteligência artificial, alcance das publicações e impulsionamento de propaganda.
Dias depois, o corregedor-geral eleitoral determinou que Meta e X prestassem novos esclarecimentos técnicos, em uma investigação sobre possível tratamento desigual entre as candidaturas.
O NetLab, da UFRJ, identificou 1.613 anúncios político-eleitorais impulsionados a partir do exterior por atores sem autorização para realizar propaganda eleitoral no Brasil. A maior parte das páginas responsáveis estava localizada nos Estados Unidos.
O laboratório também registrou anúncios durante períodos de resguardo eleitoral, falhas na transparência dos valores pagos e problemas na disponibilização dos dados exigidos para fiscalização.
Em nota pública, o NetLab afirmou que as falhas e a falta de transparência da Meta comprometeram a isonomia do processo eleitoral.
O tema chegou ao TSE durante a fase mais acirrada da campanha.
Flávio venceu o primeiro turno; Lula virou no segundo
Nas urnas, Flávio começou na frente.
No primeiro turno, recebeu 56.104.268 votos, ou 47,03% dos válidos. Lula teve 53.876.617 votos, 45,16%.
A vantagem do candidato do PL era de 2.227.651 votos.
Três semanas depois, o cenário estava invertido.
Lula recebeu 64.256.232 votos, 51,79%, enquanto Flávio terminou com 59.826.041, 48,21%.
O presidente foi reeleito com 4.430.191 votos de vantagem.
Entre os dois turnos, Lula acrescentou cerca de 10,38 milhões de votos à sua votação. Flávio cresceu aproximadamente 3,72 milhões.
A mudança entre uma rodada e outra deslocou a diferença entre os candidatos em mais de 6,6 milhões de votos.
O comparecimento às urnas também cresceu no segundo turno, enquanto a defesa da soberania brasileira e as críticas às pressões externas estavam entre os temas presentes na campanha.
O Brasil encerrou a eleição em sentido diferente de boa parte da onda política que avançava pela América Latina.
Depois da derrota, a Casa Branca entrou diretamente na rota de Flávio
A participação americana voltou ao centro da crise poucas horas depois da eleição.
Após a derrota, Flávio Bolsonaro recebeu ordem do ministro Alexandre de Moraes para entregar seus documentos de viagem e não deixar o território brasileiro, dentro de uma investigação envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro.
Na segunda-feira (26), Flávio afirmou publicamente que entregaria os passaportes e que nunca havia pensado em deixar o país.
Na noite de terça-feira, atravessou a fronteira para a Argentina acompanhado da mulher e das duas filhas.
Às 22h50, a família entrou oficialmente em território argentino. Cerca de 40 minutos depois, embarcou em Puerto Iguazú em um Gulfstream G400 da empresa Baires Fly.
O avião seguiu para Guayaquil, no Equador, onde reabasteceu, e depois voou para Miami evitando o espaço aéreo brasileiro.
A operação passou a revelar um grau de participação americana maior do que se conhecia inicialmente.
Segundo informações publicadas nesta quinta-feira, o jato foi providenciado por Jason Miller, integrante da estrutura de comunicação da Casa Branca e aliado antigo da família Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro manteve contato com Miller durante a preparação da viagem.
O plano foi colocado em prática na segunda-feira, depois que Flávio recebeu a ordem para entregar seus passaportes.
A contratação do avião começou ainda naquela tarde.
Um intermediário do setor de aviação dos Estados Unidos procurou a Baires Fly pedindo uma aeronave para transportar inicialmente “oito passageiros brasileiros” de Puerto Iguazú até Miami.
Como a empresa argentina não conhecia o contratante, exigiu pagamento antecipado.
Cerca de US$ 140 mil foram transferidos em poucas horas, e o avião foi deslocado imediatamente para Puerto Iguazú.
A Baires Fly mantém em sigilo a identidade formal do intermediário registrado na operação.
Com as informações reveladas nesta quinta-feira, já está documentado que um assessor da Casa Branca providenciou a aeronave, um intermediário americano efetuou antecipadamente o pagamento exigido pela companhia e a administração Trump preparou a entrada da família nos Estados Unidos.
Trump autorizou entrada e EUA deram permanência de um ano
Donald Trump confirmou publicamente que autorizou a entrada de Flávio e da família.
Ao desembarcar em Miami, o senador recebeu da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos uma autorização de admissão condicional, conhecida como parole, com validade até outubro de 2027.
Autoridades americanas também disseram que existe a perspectiva de posterior concessão de residência permanente.
A Argentina também teve participação na rota.
Flávio entrou no país utilizando passaporte italiano e deixou Puerto Iguazú pouco depois. A presença de integrantes próximos a Javier Milei na região e a atuação das autoridades argentinas durante o deslocamento passaram a ser investigadas pela Justiça daquele país.
O governo argentino inicialmente negou que Flávio tivesse entrado em seu território. Horas depois, a Direção Nacional de Migrações confirmou oficialmente a passagem.
A oposição argentina passou a cobrar explicações do governo Milei sobre o apoio prestado ao candidato brasileiro derrotado.
Da pressão econômica à operação de saída
Em pouco mais de um ano, a relação entre o governo Trump e o bolsonarismo percorreu diferentes etapas.
Primeiro vieram as manifestações públicas contra o julgamento de Jair Bolsonaro.
Depois, tarifas comerciais, cancelamento de vistos e sanções contra autoridades brasileiras.
Durante a eleição, integrantes do Departamento de Estado atuaram politicamente em favor do campo bolsonarista, enquanto a pressão americana e a soberania do Brasil entraram no debate eleitoral.
Flávio venceu o primeiro turno, mas perdeu o segundo por mais de 4,4 milhões de votos.
Dois dias depois, deixou o Brasil contrariando uma ordem judicial.
Na operação que o levou aos Estados Unidos, um integrante da Casa Branca providenciou o avião, um intermediário americano antecipou cerca de US$ 140 mil pelo fretamento e Donald Trump autorizou a entrada da família no país.
A eleição terminou nas urnas brasileiras.
A participação dos Estados Unidos na crise política que a cercou, porém, continuou depois delas.


