Do subsolo brasileiro às redes sociais, passando pelas urnas, pelo Pix, pelas guerras e pelo combate à fome, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou o discurso desta terça-feira (22), na Assembleia Geral das Nações Unidas, para apresentar uma visão ampla sobre os interesses que o Brasil pretende preservar em meio às disputas econômicas e geopolíticas internacionais.
Ao longo do pronunciamento, Lula associou temas aparentemente distintos a um mesmo eixo: soberania. Defendeu que minerais críticos e terras raras sejam explorados com geração de riqueza dentro do Brasil, cobrou regras para big techs e inteligência artificial, rejeitou interferências estrangeiras no processo eleitoral e afirmou que decisões sobre recursos naturais, segurança e infraestrutura digital devem permanecer sob controle do país.
A mensagem apareceu de forma mais explícita quando tratou da América Latina.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou Lula, ao criticar o que classificou como retomada de “tentações hegemônicas”, divisão do mundo em zonas de influência e investidas sobre recursos estratégicos.
Terras raras entram no centro da disputa econômica
Um dos pontos de maior interesse econômico do discurso foi a exploração dos minerais críticos e das terras raras brasileiras.
Lula apresentou esses recursos como estratégicos para a transição energética mundial, mas avisou que o acesso às reservas brasileiras deverá trazer contrapartidas para o país.
O presidente estabeleceu três condições: geração de valor no território brasileiro, transferência de tecnologia e abastecimento dos setores estratégicos nacionais.
A posição ganha peso diante da corrida mundial por minerais utilizados em carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos, semicondutores e sistemas de defesa.
Na semana passada, Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que prevê incentivos de até R$ 7 bilhões para projetos de processamento e transformação. O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas conhecidas de terras raras, a segunda maior quantidade já mapeada no mundo, atrás apenas da China.
A estratégia apresentada na ONU indica que o governo pretende evitar que o país se limite à exportação da matéria-prima. A prioridade declarada é agregar processamento, indústria e tecnologia à exploração mineral brasileira.
Eleição brasileira encerrou o discurso
Lula reservou a parte final do pronunciamento para falar diretamente das eleições de 4 de outubro.
O presidente, que disputa a reeleição, afirmou que o Brasil realizará um pleito “transparente e competitivo”, com liberdade de expressão para todos os candidatos, e defendeu a estrutura eleitoral brasileira diante das campanhas de desinformação.
Também acusou, sem citar nomes, setores internos de se associarem a interesses estrangeiros e afirmou que o país voltou a enfrentar tentativas de ingerência externa em processos eleitorais.
“Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, declarou.
Lula encerrou afirmando que “a democracia brasileira pertence aos brasileiros” e que o país continuará soberano.
Fome, desigualdade e desenvolvimento
O combate à fome apareceu em diferentes momentos da construção política apresentada pelo presidente.
Ao falar de sua trajetória, Lula se definiu como um operário eleito três vezes presidente e citou a retirada do Brasil do Mapa da Fome. Mais adiante, mencionou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza como exemplo de iniciativa de cooperação internacional voltada à redução das desigualdades.
Os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) confirmam que o Brasil permanece fora do Mapa da Fome. No triênio 2023-2025, a insegurança alimentar severa atingiu 0,6% da população, menor patamar da série histórica.
A questão dos alimentos apareceu novamente quando Lula falou das guerras. Segundo ele, a transformação do Estreito de Ormuz em área de conflito produz consequências que chegam às famílias por meio do aumento dos preços dos combustíveis, fertilizantes e alimentos.
Na agenda econômica, Lula defendeu um modelo baseado na distribuição de renda, geração de empregos, valorização dos salários, ampliação do crédito e proteção social. Também afirmou que o Brasil deverá registrar novo recorde de exportações neste ano, apesar das tarifas impostas pelos Estados Unidos.
Big techs, inteligência artificial e Pix
A disputa pela soberania também foi levada para o ambiente digital.
Lula classificou como uma “omissão histórica” a possibilidade de o mundo deixar big techs e inteligência artificial avançarem sem regulamentação.
O presidente criticou o que chamou de “tecno-oligarcas” interessados em estabelecer um ambiente digital sem regras e transparência e defendeu uma governança internacional da inteligência artificial.
Também responsabilizou empresas pelos riscos provocados por algoritmos e afirmou que famílias não podem ficar sozinhas diante dos efeitos dessas tecnologias.
Nesse mesmo bloco, Lula criticou as plataformas de apostas on-line. Segundo ele, a indústria das bets transforma vício em lucro e contribui para o endividamento das famílias.
O presidente também defendeu remuneração para artistas, músicos e produtores de conteúdo no ambiente digital e levou o Pix à tribuna das Nações Unidas.
“Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix”, afirmou, apresentando o sistema administrado pelo Banco Central como uma infraestrutura pública e gratuita responsável por ampliar a inclusão financeira.
Crime organizado e recado sobre presença militar estrangeira
Segurança pública também ocupou espaço relevante.
Lula afirmou que o Brasil está preparado para enfrentar organizações criminosas, mas rejeitou a possibilidade de terceirizar a defesa das fronteiras.
Ao tratar da cooperação internacional contra o crime, afirmou que o país não precisa de “porta-aviões vigiando nossas águas”, mas de ações conjuntas para interromper o fluxo internacional de armas e dinheiro destinado às organizações criminosas.
O presidente citou o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, instalado em Manaus, e afirmou que o Brasil bateu recordes de apreensão de drogas, bens e recursos ilícitos.
Também mencionou a Lei Antifacção e prometeu continuidade no combate à corrupção, afirmando que a atuação deverá alcançar inclusive os “magnatas do crime”.
Clima, petróleo e Amazônia
Lula combinou a defesa da agenda ambiental com a continuidade da exploração de petróleo.
Afirmou que o Brasil alcançou autossuficiência no produto e continuará pesquisando novas reservas, inclusive na Margem Equatorial.
Ao mesmo tempo, prometeu avançar na descarbonização da economia e citou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado durante a COP30, em Belém.
Segundo o presidente, o desmatamento na Amazônia caiu pela metade e atingiu o menor nível em 11 anos.
Lula também criticou o desaparecimento das mudanças climáticas das discussões do G7 e do G20 neste ano e disse ser necessário retomar o enfrentamento ao negacionismo climático.
Escala 6×1 e direitos das mulheres
Temas domésticos também chegaram à Assembleia.
Lula defendeu o fim da escala 6×1 e afirmou que trabalhadores precisam de tempo para descanso, qualificação profissional e convivência familiar.
Para o presidente, a mudança deve assegurar dois dias livres por semana e também contribuir para reduzir a sobrecarga de trabalho doméstico que recai principalmente sobre as mulheres.
Na sequência, Lula defendeu maior participação feminina nos espaços de poder e no mercado de trabalho e colocou o combate ao feminicídio entre as causas que deveriam ser assumidas internacionalmente.
Gaza, Ucrânia e uma ONU “paralisada”
A crise do sistema multilateral abriu e ocupou uma parcela expressiva do discurso.
Lula afirmou que a ONU vive seu momento mais crítico desde sua primeira participação como presidente, em 2003, e responsabilizou o poder de veto e a paralisia do Conselho de Segurança pela incapacidade de responder às guerras.
Sobre Gaza, Lula classificou as ações do governo de Benjamin Netanyahu contra mulheres e crianças palestinas como genocídio. Ao mesmo tempo, condenou os ataques terroristas do Hamas contra civis israelenses e voltou a defender a solução de dois Estados.
Ao abordar a guerra entre Rússia e Ucrânia, afirmou que não haverá vencedores no campo de batalha e apresentou a diplomacia como única saída.
Também criticou perseguições ao Tribunal Penal Internacional e defendeu a relatora especial da ONU para os territórios palestinos, Francesca Albanese.
Para Lula, o volume de recursos destinado à corrida armamentista e a multiplicação dos conflitos demonstram uma crise de liderança internacional.
Venezuela, Cuba, Nicarágua e Haiti
A situação política da América Latina também entrou no pronunciamento.
Lula afirmou que os venezuelanos devem decidir o próprio destino, criticou o embargo econômico contra Cuba e disse que a Nicarágua não resolverá seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições.
Sobre o Haiti, classificou a crise do país como um teste aos limites da indiferença da comunidade internacional.
O conjunto dessas posições foi apresentado dentro da defesa de que divergências ideológicas não impeçam a integração regional e de que as grandes potências não interfiram nas escolhas políticas dos países latino-americanos.
Da exploração das terras raras ao funcionamento das urnas, Lula encerrou sua passagem pela tribuna conectando a política externa à agenda doméstica. A soberania apareceu como elemento comum entre recursos naturais, tecnologia, segurança, economia e democracia, enquanto a reforma do sistema multilateral permaneceu como uma das principais reivindicações brasileiras diante das demais nações.


