O Irã vive uma crise interna profunda desde o final de dezembro de 2025, quando milhares de cidadãos saíram às ruas em protestos que rapidamente tomaram o caráter de um movimento nacional contra o regime teocrático liderado pelo líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. O que começou como mobilização por problemas econômicos, alta inflação e desemprego evoluiu para um levante que desafia o sistema de governo e provocou uma das repressões mais violentas da história recente do país.
O que levou aos protestos
As manifestações tiveram início no final de dezembro de 2025, impulsionadas por revolta diante da crise econômica, com preços de alimentos elevados, desvalorização da moeda e falta de perspectivas para amplos segmentos da população, especialmente jovens. Rapidamente, slogans que questionavam não apenas a gestão econômica, mas o próprio modelo de governo teocrático ganharam força em toda as 31 províncias do país, transformando as demandas em um movimento mais amplo por mudança política e justiça social.
A resposta do governo iraniano foi imediata e dura. Autoridades aprovaram tribunais rápidos e punições severas, com o chefe do Judiciário local defendendo julgamentos públicos e execução imediata de manifestantes detidos acusados de crimes graves como “moharebeh” (guerra contra Deus), uma acusação capitulada na lei iraniana que carrega pena de morte.
Um dos casos mais emblemáticos é o de Erfan Soltani, de 26 anos, detido em 8 de janeiro de 2026 por sua participação nos protestos. Soltani foi condenado à morte por enforcamento sob a acusação de “moharebeh”, processo que organizações de direitos humanos classificam como sem garantias jurídicas mínimas e sem acesso a defesa adequada.
Execuções e uso da pena de morte no Irã
O uso da pena capital no Irã já era considerado rigoroso antes das mobilizações recentes. Relatórios de direitos humanos apontam que as execuções em 2025 mais do que dobraram em relação a 2024, com pelo menos 1.922 pessoas executadas, segundo uma ONG baseada nos Estados Unidos. A maior parte dos casos estava ligada a acusações de homicídio e crimes relacionados a drogas, mas a crescente ameaça de aplicar a pena de morte contra detidos nos protestos preocupa observadores internacionais.
Organizações como a Human Rights Activists News Agency (HRANA) e outras entidades relatam que milhares de pessoas foram presas, muitas sem acesso a advogados ou processos justos, e que há risco de execuções sumárias como forma de intimidar e enfraquecer o movimento popular.
A repressão pelo Estado tem sido marcada pelo uso de força letal, atiradores e ataques diretos contra manifestantes, resultando em um número expressivo de mortos e feridos. Estimativas variam conforme a fonte: dados ativistas indicam que pelos menos 2.571 pessoas foram mortas até 14 de janeiro de 2026, incluindo manifestantes, civis e membros da segurança. Relatórios independentes apontam números ainda superiores em certas áreas afetadas pelos confrontos.
Reação dos Estados Unidos e comunidade internacional
A resposta internacional tem sido firme, especialmente por parte dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump advertiu que os EUA tomarão “ação muito firme” caso o regime iraniano prossiga com execuções de manifestantes e chegou a cancelar reuniões diplomáticas com Teerã até que a violência cesse. Trump também falou em possíveis medidas mais amplas, incluindo opções militares, além de pressionar aliados e implementar tarifas sobre países que mantêm comércio com o Irã.
Além disso, autoridades americanas e europeias têm pedido a restauração do acesso à internet e expressado apoio às populações que buscam mudança pacífica, enquanto grupos internacionais de direitos humanos denunciam a repressão como violação grave de direitos fundamentais e exigem o fim das execuções e detenções arbitrárias.
Governo iraniano e discurso oficial
O regime do Irã, que combina estrutura teocrática com Estado autoritário, sustentou que muitas das manifestações foram infiltradas por “elementos terroristas” e culpou influências externas, especialmente dos EUA e de Israel, por incentivar a insurreição. Autoridades afirmaram que a intervenção estrangeira justificaria a resposta vigorosa e alertaram para possíveis retaliações caso ocorra intervenção externa.
O uso prolongado da pena de morte e de julgamentos sumários no contexto dos protestos reforça a crítica de que o Irã continua entre os países que mais aplicam a execução capital no mundo, num cenário em que direitos civis e liberdades públicas são duramente restringidos.






