A convenção nacional do Partido Liberal (PL), realizada no sábado (25), em São Paulo, marcou oficialmente o lançamento da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O que deveria simbolizar o início da campanha, porém, acabou dominado por episódios que extrapolaram a disputa eleitoral, provocando reações diplomáticas, questionamentos jurídicos e novas controvérsias envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Sem anunciar um candidato a vice e ainda buscando ampliar alianças para além da direita, Flávio assumiu o compromisso de dar continuidade ao legado político do pai, atualmente em prisão domiciliar e impedido de participar de atos públicos. A convenção reuniu apoiadores, lideranças do PL e convidados estrangeiros, entre eles o presidente da Argentina, Javier Milei, além de mensagens gravadas do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
O próprio Jair Bolsonaro participou apenas de forma indireta, por meio de um vídeo produzido com inteligência artificial que reproduzia sua imagem e sua voz em apoio ao filho. A exibição se tornou um dos principais focos de repercussão do evento e abriu uma nova frente de discussão sobre os limites do uso da tecnologia na campanha eleitoral.
Milei rouba a cena com ataques a Lula e Moraes
Embora Flávio Bolsonaro fosse o protagonista da convenção, foi o presidente argentino Javier Milei quem concentrou as maiores atenções. Em seu discurso, o chefe de Estado voltou a atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, integrantes do governo federal e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Milei classificou o governo brasileiro como formado por “socialistas ladrões”, fez críticas diretas a Lula e apresentou a eleição presidencial brasileira como parte de uma disputa ideológica entre governos de esquerda e o avanço de movimentos conservadores na América Latina.
O presidente argentino também direcionou ataques pessoais a Alexandre de Moraes, chamando o ministro de “lixo careca” e afirmando que Jair Bolsonaro estaria “injustamente preso”. As declarações ocorreram dias depois de Moraes negar autorização para que Milei visitasse o ex-presidente durante sua passagem pelo Brasil.
As declarações provocaram reação imediata do Supremo. O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, classificou as ofensas como incompatíveis com o respeito entre nações e reafirmou que as decisões do Judiciário brasileiro são tomadas exclusivamente com base na Constituição e nas leis do país.
Governo reage e crise chega à diplomacia
As falas de Milei também tiveram reflexos nas relações entre Brasil e Argentina. Após consultar o presidente Lula, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, determinou o retorno do embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas — medida considerada um gesto formal de descontentamento diplomático.
A reação do Itamaraty elevou a tensão entre os dois governos, que já vinham mantendo uma relação marcada por divergências ideológicas desde a posse de Milei. O episódio ganhou maior peso por envolver ataques feitos em território brasileiro durante um evento partidário.
A crise ocorre em um momento em que Brasil e Argentina seguem dependentes de negociações conjuntas em áreas estratégicas, como comércio, indústria, energia e integração regional, tornando o episódio ainda mais sensível para a política externa dos dois países.
Oposição argentina também criticou Milei
As declarações do presidente argentino repercutiram dentro do próprio país. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, uma das principais lideranças da oposição, classificou o episódio como uma “vergonha” e afirmou que Milei não representa o sentimento do povo argentino em relação ao Brasil.
Segundo Kicillof, a postura do presidente argentino prejudica os interesses econômicos e diplomáticos da Argentina justamente com seu principal parceiro comercial. A manifestação reforçou as críticas da oposição, que acusa Milei de priorizar alianças ideológicas em detrimento da política externa do país.
Netanyahu reforça aproximação internacional do bolsonarismo
Além de Milei, a convenção exibiu uma mensagem gravada do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, desejando sucesso à candidatura de Flávio Bolsonaro. O gesto foi apresentado pelo PL como demonstração dos vínculos políticos construídos pela família Bolsonaro com lideranças conservadoras no exterior.
Ao lado do presidente argentino, Netanyahu ajudou a reforçar a estratégia de projetar Flávio como integrante de um campo político internacional alinhado ao conservadorismo, aproximando sua candidatura de figuras ligadas ao trumpismo e à direita mundial.
O apoio do premiê israelense também dialoga com uma parcela importante do eleitorado evangélico identificado com o bolsonarismo. Embora Israel seja um Estado de maioria judaica — e não cristã —, o país ocupa lugar central no imaginário religioso de muitos evangélicos brasileiros, que associam sua defesa a interpretações bíblicas e a valores conservadores. Essa aproximação política e simbólica tornou-se uma das marcas da atuação internacional do governo Jair Bolsonaro.
Bolsonaro reaparece em vídeo criado por inteligência artificial
Um dos momentos de maior repercussão da convenção foi a exibição de um vídeo produzido com inteligência artificial que reproduzia a imagem e a voz de Jair Bolsonaro em apoio à candidatura do filho. Impedido de comparecer ao evento por cumprir prisão domiciliar e submetido a restrições impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-presidente apareceu virtualmente diante dos apoiadores, que reagiram com aplausos.
A utilização da tecnologia, no entanto, rapidamente extrapolou o ambiente político e passou a ser discutida também na esfera jurídica. A legislação eleitoral estabelece regras específicas para o uso de conteúdos produzidos por inteligência artificial durante as campanhas, especialmente quando envolvem a reprodução da imagem e da voz de candidatos ou agentes públicos.
Diferentemente do que se avaliava logo após a convenção, a discussão deixou de ser apenas uma possibilidade. Partidos de oposição, entre eles o PT, acionaram a Justiça Eleitoral questionando o uso do vídeo. As ações sustentam que o material pode caracterizar propaganda eleitoral irregular e pedem que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analise se a peça violou as normas que disciplinam o emprego de inteligência artificial nas eleições.
Além do aspecto eleitoral, o episódio também levantou dúvidas sobre o cumprimento das medidas cautelares impostas a Jair Bolsonaro pelo STF.
Uso do vídeo também pode ser analisado pelo STF
Bolsonaro está proibido de utilizar redes sociais e de divulgar manifestações político-eleitorais por intermédio de terceiros, restrições reforçadas pelo ministro Alexandre de Moraes após a divulgação pública de uma carta assinada pelo ex-presidente.
Nesse contexto, especialistas avaliam que a exibição do vídeo poderá ser analisada sob outro aspecto: verificar se houve participação, autorização ou anuência de Bolsonaro na produção do material. Caso fique demonstrado que a peça foi criada sem seu conhecimento ou colaboração, a responsabilização pessoal tende a ser mais difícil.
Até o momento, não há decisão da Justiça Eleitoral nem do STF considerando irregular a utilização do vídeo, mas o episódio amplia a judicialização que já cerca a campanha do PL e deve permanecer no centro do debate durante o processo eleitoral.
Flávio inicia campanha ainda sob a sombra do pai
Embora tenha sido oficialmente lançado candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro dividiu o protagonismo da convenção com o pai e com convidados estrangeiros. Durante praticamente todo o evento, Jair Bolsonaro foi lembrado em discursos, vídeos e homenagens, enquanto Michelle Bolsonaro e os filhos Eduardo e Carlos enviaram mensagens de apoio.
Flávio apresentou propostas voltadas à redução de impostos e ao endurecimento das políticas de segurança pública, mas a principal mensagem transmitida ao público foi a de continuidade do projeto político iniciado por Jair Bolsonaro.
A estratégia pode fortalecer a fidelidade do eleitorado bolsonarista, mas também reforça o desafio de construir uma identidade própria e ampliar o diálogo com partidos de centro. A candidatura foi oficializada sem vice definido e ainda busca formar uma coligação mais ampla para a disputa nacional.
Segundo a pesquisa Datafolha mais recente, Lula aparece com 48% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 43% de Flávio Bolsonaro. O cenário indica uma disputa competitiva, mas também evidencia a forte polarização que deve marcar a eleição presidencial de 2026.
Convenção foi marcada mais pelas polêmicas do que pelo lançamento da candidatura
O evento que deveria apresentar Flávio Bolsonaro como candidato do PL terminou dominado por episódios paralelos. Os ataques de Javier Milei ao presidente Lula e ao ministro Alexandre de Moraes provocaram uma crise diplomática entre Brasil e Argentina, enquanto o apoio de Benjamin Netanyahu reforçou a estratégia de aproximação internacional do bolsonarismo. Ao mesmo tempo, o vídeo de Jair Bolsonaro produzido por inteligência artificial abriu uma nova frente de disputas na Justiça Eleitoral e poderá ser analisado também à luz das restrições impostas pelo STF.
Mais do que apresentar um novo projeto político ao eleitorado, a convenção acabou evidenciando que a campanha de Flávio Bolsonaro seguirá fortemente associada à figura do pai e às alianças internacionais construídas pelo bolsonarismo. O senador saiu oficialmente candidato, mas o lançamento de sua candidatura acabou ofuscado pelas controvérsias que cercaram o evento.


