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Home Colunas

Cargo político por gratidão

Por Lenin Novaes
9 de maio de 2020 - 19:22
em Colunas

Regina Duarte caiu no conto do vigário perpretado pelo mito pés de barro e come o pão que o diabo amassou na secretaria especial de Cultura. O divórcio está à vista

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– Tá escondendo o jogo, Athaliba dos Anjos? Será que nem euzinha mereço saber o que rola sobre a disputa acirrada entre os concorrentes a prefeito por convidá-lo para assumir cargo público? Qualé, indissolúvel amigo! Corre à boca pequena, nos circuito cultural e político, que ocê será o novo big shot da cultura em Itabira. O saudoso poeta Carlos Drummond de Andrade, filho ilustre da cidade, que vem sendo aniquilada, depredada, extinguida pela devastadora exploração do rico minério de ferro, até o útero, aprovaria a indicação sem pestanejar. E soube também que ôce é muito cotado para o cargo, batendo recorde no IBOPE, em Conceição do Mato Dentro.

– Marineth Moura, a nossa fiel cumplicidade está fundamentada no princípio da confiança e da liberdade. Isso preserva e fortalece a relação. Ocê tá diretamente anexada à minha existência, como carne e unha. Não se sinta traída, por favor. Em verdade vos digo que a boataria sobre as disputas por minha indicação à Superintendência da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade – FCCDA – me deixa lisonjeado. Mas, a função do cargo está estritamente condicionada a uma regra à qual faço exceção.

– Athaliba, pode traduzir essa questão do desvio de regra ou de padrão convencionalmente aceito para linguajar popular?

– Marineth, com raras exceções, muitos dos cargos públicos comissionados designados por presidentes, governadores e prefeitos para preencher o esqueleto administrativo são pagamentos por dívida de gratidão nos apoios às campanhas eleitorais. Seja através de prestígio pessoal ou por ajuda financeira. Normalmente a nomeação é prevalecida pelo apoio financeiro, num do viés da famigerada picaretagem da nossa cultura política do “toma lá, dá cá”.

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– Athaliba, aponte exemplo inquestionável de apoio pessoal à candidatura e que resultou em nomeação a cargo público?

– Marineth, os exemplos mais marcantes são do Gilberto Gil, à candidatura do Lula; e o da Regina Duarte, à candidatura do mito pés de barro que ocupa o trono da Presidência do Brasil. O outro lado da moeda, ou seja, nomeação por apoio financeiro à candidatura está notadamente em processos judiciais, por exemplo, da Lava-jato. Em cidades do interior, com escândalos que não tenham tanta repercussão, esse tipo de procedimento do “toma lá, da cá”, é muito comum.

– Athaliba, por quê a Regina Duarte, que aceitou ser secretária (ex-Ministério) especial da Cultura,  não se mirou na atitude da Fernanda Montenegro?

– Marineth, vai saber. Não podemos confundir a figura artística com a personalidade do ator e cobrar responsabilidade sociopolítica. Têm artistas, em diversas áreas da vida social, política e cultural que são organizados, politicamente. A atriz em questão é talentosa na arte cênica. E o desempenho dela em “Malu mulher” ou “Chiquinha Gonzaga” (baseada na vida da maestrina e compositora Francisca Edwiges Neves Gonzaga), representou apenas interpretação. Apenas!!!

– Athaliba, ela tá sendo enxovalhada e internautas pedem à filha, nas redes sociais, para interditá-la. Fico tristonha com tudo isso na trajetória da “namoradinha do Brasil”. Lamentável, né?

– Infelizmente, Marineth. Sobre a boataria da minha indicação à cultura em Itabira do Mato Dentro e/ou à Conceição do Mato Dentro, admito, me leva a imaginar quais contribuições, de fato, seria capaz de realizar. Reconheço e agradeço a sincera indicação manifestada por amigos e amigas. Conceição é cidade origem da minha linha materna e, Itabira, minha paixão nutrida pelo saudoso poeta, que tirou alguns véus dos meus olhos, principalmente com “A flor e a náusea”.

– Athaliba, se o convite for formalizado, verdadeiramente, ocê vai aceitar ou não?

– Marineth, como dizia, a ideia é tentadora e representa enorme desafio. O desafio não me assusta. Afinal, minha trajetória de vida tem sido forjada na superação de desafios. São abalizas da minha sobrevivência. No entanto, sabe, não posso me desvincular do que faço. E, na certeza de não desapontar os amigos, vou abdicar da indicação no momento oportuno. Pois prefiro me manter nessa trincheira da luta por um mundo fraterno, solidário e próspero.

– Bem, Athaliba, só eu sei do quanto é capaz, modéstia à parte, e do quanto foi difícil optar por tal decisão.

– Marineth, quando você mencionou a Fernanda Montenegro lembro-me que foi convidada para o cargo de ministra da Cultura, no governo Sarney, por José Aparecido de Oliveira, o maior “amigo do rei”, no bom sentido, que conheci. E tive o prazer de conhecê-lo lá em Conceição, onde tomamos café na sala da casa, repleta de artes artesanais africanas. A atitude da atriz na recusa do convite está materializada na carta em resposta a ele, Zé Aparecido, e é oportuno transcrever. No mais, vida que segue, como me dizia João Saldanha.

“Querido amigo José Aparecido de Oliveira:

Como cidadã sempre fiz do meu ofício um instrumento de participação política. Como artista fiz a minha participação política dentro do meu ofício, fora de filiação partidária, pois compreendo que o palco é, definitivamente, o espaço mais livre que o homem jamais criou. Se olharmos os palcos de um país, saberemos exatamente que país é esse. Desde a adolescência venho, a princípio, intuitivamente, mais tarde, conscientemente, me expressando através dos mais variados textos, percorrendo, democraticamente, os mais diversos gêneros teatrais, sem qualquer preconceito, na medida em que, para mim, um artista do palco tem que dar voz às mais diferentes manifestações da dramaturgia. Com isso deixo claro que, no meu entender, o palco é o meu espaço também político.

Comovida, feliz, honrada, vejo a lembrança do nome de uma atriz para o Ministério da Cultura como uma conquista histórica, culturalmente falando.
Recentemente, artistas deste país foram convocados para um grande futuro e uma grande mudança. As oposições políticas armaram palanques, esses mesmos artistas, preparando o espetáculo, “esquentaram” as multidões nas praças, fortalecendo lideranças ainda não confiantes em si mesmas como comunicadores. Uma vez fortalecidas, essas lideranças políticas ocuparam o centro dos palanques. Os artistas, cumprida sua missão, recuaram. As massas humanas se impuseram. A partir daí todos nós, irmanados, começamos a construção de um Brasil novo.

Para aqueles que vêem, preconceituosamente, a indicação de um artista para um tão alto cargo, respondo, sem exagero, que esse Brasil novo nasceu num palco armado na praça. Cogitar um artista para um Ministério é prova de amadurecimento político deste país, no seu todo. É um arejamento depois de tantos anos de asfixia. Pobre do país cujo governo despreza, hostiliza e fere seus artistas.

Esse Brasil acabou.

A sondagem que me foi feita, autorizada pelo Presidente José Sarney, revela o gesto limpo, independente e original do homem que, dirigindo a Nação, neste momento de tanta Esperança, deposita sua confiança numa brasileira entusiasmada e consciente. A esse convite devo responder com a mesma limpeza de propósitos. Vejo o Ministério da Cultura como o cerne do atual governo. No meu entender nenhum outro lhe é superior. Ele dará o tom da Nova República. E, para não ser assim, melhor seria não tê-lo criado, permita-me dizer-lhe com todo o respeito e confiança. A participação nessa esfera não pode ser exercida num quadro de nostalgia, de perda ou de degredo.

Diante da sondagem que me foi feita, repasso minha vida e, felizmente ou infelizmente, compreendo que o meu amor profundo para com o exercício do Teatro ainda não foi esgotado. Ao contrário: está mais vivo do que nunca. Deixando agora o Teatro, a sensação que eu teria seria a de uma vida inacabada. Creio firmemente que cada cidadão deva exercer sua arte ou seu trabalho em conformidade com a sua vocação. Estaria sendo leviana se, pensando desse modo, agisse de outro.

Não é fácil dizer não. Não vejo que seja mais fácil decidir pelo Teatro. Ou mais seguro. O Teatro nunca foi fácil ou seguro.

Mas é o meu lugar.

Tenho certeza de que todos os intelectuais e artistas, entidades da classe, que me demonstraram apoio através de cartas, telegramas, telefonemas, visitas, compreenderão a minha opção. Pode parecer uma frase bombástica e teatral, mas não devemos temer nem o Teatro, nem as palavras: não estou preparada para partir.

Nesses novos tempos, gostaria que você, Aparecido, assim como o Presidente José Sarney, entendesse que, a melhor maneira de prestar meus serviços à cultura brasileira, é permanecer no palco, onde continuarei à disposição do meu país, humildemente.

De sua amiga, cujo sentimento básico é a fidelidade.

Fernanda Montenegro – Rio de Janeiro, 09 de maio de 1985”.

Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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