Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) concentraram as atenções nos maiores atos de lançamento da campanha presidencial, outros candidatos ao Palácio do Planalto também foram às ruas neste domingo (16), primeiro dia em que a legislação eleitoral passou a permitir oficialmente pedidos de voto, comícios, caminhadas, carreatas e outras ações de campanha.
Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), que tentam abrir espaço além da polarização entre petistas e bolsonaristas, escolheram redutos ligados às próprias trajetórias para iniciar a disputa.
Segurança pública apareceu como ponto praticamente comum entre os três, ainda que cada um tenha buscado uma estratégia própria para se apresentar ao eleitorado.
Caiado começa por Goiás e tenta se apresentar como alternativa
Ronaldo Caiado iniciou a campanha em seu estado natal. O candidato do PSD começou o domingo participando de uma missa na Catedral de Goiânia e, em seguida, seguiu para uma carreata que percorreu cidades goianas próximas ao Distrito Federal.
Ao lado da mulher, Gracinha Caiado, candidata ao Senado, e de Daniel Vilela, candidato ao governo de Goiás, Caiado passou por Águas Lindas e encerrou o dia com um ato em Luziânia. Seu candidato a vice-presidente, Gilberto Kassab, não participou da agenda e permaneceu em São Paulo.
Ex-governador de Goiás, Caiado voltou a explorar a segurança pública, área que pretende apresentar como uma das principais marcas de sua passagem pelo governo estadual.
O candidato defendeu endurecimento das penas para crimes contra mulheres, incluindo confisco de bens de agressores, e falou em penas que poderiam chegar a 40 anos.
Também atacou Lula e Flávio Bolsonaro e tentou se apresentar como alternativa aos dois principais polos da eleição, enfatizando que não responde a acusações de corrupção.
Caiado apresentou ainda propostas de mudanças na escolha de ministros do Supremo Tribunal Federal. Entre elas estão a exigência de idade mínima de 60 anos e uma quarentena de oito anos para pessoas que tenham exercido determinadas atividades políticas antes de uma indicação para a Corte.
Sua campanha apresentou um programa com cerca de 40 propostas, elaborado com participação de auxiliares e especialistas, entre eles o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta.
Zema escolhe Montes Claros e promete “superpresídio”
Romeu Zema começou sua campanha longe de Belo Horizonte.
O candidato do Novo escolheu Montes Claros, no Norte de Minas, região onde a esquerda tradicionalmente apresenta desempenho eleitoral significativo, para iniciar a tentativa de transformar os dois mandatos exercidos no governo mineiro em uma candidatura nacional.
A agenda incluiu missa, passagem pelo Mercado Municipal, encontro com representantes do agronegócio e atividades com candidatos do partido.
Assim como Caiado, Zema colocou a segurança pública no centro do discurso.
Uma das principais propostas apresentadas foi a construção de um “superpresídio” na Região Norte do país, destinado a chefes de organizações criminosas. O candidato também defendeu a ampliação do sistema prisional e mudanças para endurecer a legislação penal.
Zema aproveitou o lançamento para voltar a atacar ministros do Supremo Tribunal Federal. Criticou o que classificou como existência de uma “casta de intocáveis” e mencionou episódios envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.
Também afirmou que pretende montar um eventual governo apenas com pessoas de “ficha limpa” e declarou acreditar que chegará ao segundo turno. Caso fique de fora, disse que apoiará um candidato de direita contra o PT.
Renan Santos volta à USP usando colete balístico
Em São Paulo, Renan Santos, candidato do partido Missão e um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), escolheu o Largo São Francisco para abrir a campanha.
O local também tem relação com sua trajetória. Renan estudou Direito na Universidade de São Paulo, embora não tenha concluído o curso.
O ato ocorreu diante da tradicional Faculdade de Direito da USP e foi precedido por manifestações de estudantes e movimentos sociais contrários à presença do candidato.
Assim como Flávio Bolsonaro no Rio, Renan apareceu utilizando colete à prova de balas.
Dias antes do evento, sua equipe havia comunicado à Polícia Federal uma ameaça de morte publicada na internet por uma pessoa que se apresentava como estudante da USP.
Renan discursou por aproximadamente uma hora diante de um público formado em grande parte por jovens e centrou sua fala no combate ao crime organizado.
Em uma das passagens mais duras, utilizou linguagem de confronto para defender repressão às organizações criminosas. Parte da plateia respondeu entoando o grito “prendeu, matou”.
O candidato também criticou Lula e Flávio Bolsonaro, numa tentativa de apresentar sua candidatura como alternativa tanto ao petismo quanto ao bolsonarismo.
Na política externa, falou sobre reservas brasileiras de terras raras e defendeu utilizar esses recursos como instrumento de negociação para obter tecnologia de outros países.
Participaram do ato nomes ligados ao MBL e ao partido Missão, entre eles o deputado Kim Kataguiri, Amanda Vettorazzo, o candidato a vice Aroldo Medina e o ex-deputado estadual Arthur do Val.
Samara Martins inicia campanha na periferia de São Paulo
A candidata da Unidade Popular (UP), Samara Martins, escolheu uma estratégia bastante diferente.
Ela começou a campanha com uma caminhada em Guaianases, na Zona Leste da capital paulista, levando a disputa presidencial para uma região periférica da maior cidade do país.
Dentista do Sistema Único de Saúde e dirigente de movimentos sociais, Samara disputa a Presidência tendo Raquel Bricio como candidata a vice.
Entre as propostas que vem defendendo estão a reestatização de empresas privatizadas, nacionalização de setores considerados estratégicos, fim da escala 6×1, aumento do salário mínimo e maior direcionamento do orçamento público para políticas sociais.
Hertz Dias também faz atividades em São Paulo
Hertz Dias, candidato do PSTU, também iniciou as atividades eleitorais em São Paulo, com participação em agendas na Avenida Paulista e em São José dos Campos.
Professor da rede pública do Maranhão e rapper, ele disputa a Presidência tendo Vanessa Portugal como candidata a vice. O PSTU apresenta a candidatura como uma alternativa socialista tanto aos partidos de direita quanto ao governo Lula.
A chapa foi oficializada no final de julho durante convenção realizada no Sindicato dos Metroviários, na Zona Leste de São Paulo.
Disputa começa com candidaturas em patamares diferentes
A eleição presidencial de 2026 tem 13 candidatos, mas a largada ocorre com diferenças consideráveis de estrutura, exposição e intenção de voto.
As pesquisas divulgadas imediatamente antes e depois do início oficial da campanha colocam Lula e Flávio Bolsonaro bem à frente dos demais concorrentes.
No levantamento BTG/Nexus divulgado nesta segunda-feira (17), Lula aparece com 41% e Flávio com 36% no primeiro turno. Caiado, Renan Santos e Zema aparecem na faixa entre 4% e 5%. Samara Martins e Augusto Cury registram 1%, enquanto os demais candidatos não pontuam no levantamento. A pesquisa ouviu 2.003 eleitores entre 14 e 16 de agosto e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
A campanha, entretanto, está apenas começando.
Os primeiros atos mostraram que segurança pública deverá ocupar espaço importante não apenas na campanha de Flávio Bolsonaro, mas também nas estratégias de Caiado, Zema e Renan Santos.
Ao mesmo tempo, candidatos com menor presença nas pesquisas apostam em caminhos distintos para tentar ganhar visibilidade e apresentar suas propostas.
Com Lula buscando a reeleição e Flávio tentando reunir em torno de si o eleitorado ligado ao pai, a disputa paralela entre os demais presidenciáveis começa com outro desafio: convencer o eleitor de que existe espaço para uma candidatura capaz de romper a concentração de votos nos dois nomes que hoje lideram a corrida.


